Economia

Emprego industrial registra
menor participação na história

DANIEL LIMA - 05/01/2016

Quando na segunda quinzena deste janeiro de 2016 for divulgado oficialmente o quadro de emprego formal no Brasil em 2015 estará confirmado um desastre cuidadosamente calculado por esta revista digital: com a liderança negativa de Santo André, outrora “viveiro industrial”, estará consumada uma narrativa alarmante: a Província do Grande ABC terá registrado o menor número de empregos industriais com carteira assinada em relação ao conjunto de empregados das demais atividades. E nos aproximaremos mais da média de empregos industriais registrada no Brasil quando em confronto com setores de comércio, serviços, construção civil, administração pública, entre outros.


 


A quebra de emprego com carteira assinada é uma das faces perversas da desindustrialização que aflige a Província do Grande ABC desde o início dos anos 1990. Essa catástrofe que vem do passado, mas foi atenuada durante o governo Lula da Silva, deve levar os números do emprego industrial da região ao início do governo petista, embora também possa retornar aos dados do final do governo Fernando Henrique Cardoso. Ao final de 2002 acumulamos, em oito anos de mandato de FHC, mais de 80 mil demissões líquidos no setor. Nos anos 1990, mais de 100 mil carteiras assinadas do setor industrial foram para o beleleu.


 


Grandiosidade do passado


 


Quando os anos 1970 chegaram ao final com a mobilização dos metalúrgicos liderados pelo então presidente do Sindicato de São Bernardo, Lula da Silva, a Província do Grande ABC contava com mais de 70% do estoque de empregos formais gerais no setor industrial. Eram tempos de dinamismo econômico interno num País de economia fechada e em rota de colisão com a avalanche da globalização que se acentuou tempos mais tarde. Os militares estavam no controle da República com políticas nacionalistas. A abertura econômica que chegou no começo dos anos 1990 provocou hecatombe na Província do Grande ABC.


 


No primeiro ano do governo Lula da Silva, em 2003, a participação do emprego industrial na Província do Grande ABC era metade da registrada nos anos 1970. A região contava com 35,77% de trabalhadores com carteira assinada no setor de transformação industrial. Eram 188.028 empregos no setor, do total geral de 525.573.


 


Os anos Lula da Silva recuperaram mais de dois terços dos empregos industriais com carteira assinada destruídos por Fernando Henrique Cardoso. Mas o final do primeiro mandato e o primeiro ano do segundo mandato de Dilma Rousseff são uma catástrofe. Até novembro do ano passado, a participação média dos trabalhadores do setor no mundo produtivo da região caiu para 27,68%. Eram 217.360 carteiras assinadas na indústria ante 785.089 no conjunto dos trabalhadores.


 


Santo André nega hino


 


A situação de Santo André é particularmente mais dramática. O emprego industrial vai chegar ao patamar mais baixo da história do Município que louva o setor no hino oficial. Considerando o estoque registrado em dezembro de 2014, ou seja, sem contabilizar as perdas do ano passado, Santo André contava com apenas 15,50% de trabalhadores industriais em relação aos empregados dos demais setores. Poucos municípios do G-22, grupo dos sete municípios da região e os 15 mais poderosos do Estado, exceto a Capital, registram relação tão baixa. E mesmo assim são compensados com atividades de serviços que agregam valor.


 


Em dezembro de 2014 Santo André registrava 33.439 trabalhadores industriais do total geral de 215.750. Proporcionalmente bem menos que São Caetano, com 23,40% de trabalhadores industriais – 26.410 de um total de 112.826. Ribeirão Pires e São Bernardo registravam naquele mês participação semelhante do emprego industrial no conjunto de trabalhadores: Ribeirão com 32,15% (7.968 trabalhadores num total geral de 24.779), e São Bernardo com 32,12% (92.211 industriários do total geral de 287.065 carteiras assinadas). Um pouco acima dos dois municípios estava Mauá com 35,98% de trabalhadores industriais – 24.099 do total geral de 66.979. Rio Grande da Serra contava em dezembro de 2014 com 40,63% de trabalhadores industriais registrados em carteira: eram 1.567 do total geral de 3.857. Quem mais dependia do emprego industrial era Diadema, com 49,29% do total geral – 53.028 de 107.575.


 


Perdendo para o Brasil


 


Até novembro do ano passado, o Ministério do Trabalho e Emprego, responsável pelos dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) apontava que a Província do Grande ABC acumulava perda líquida de 21.362 trabalhadores do setor, de um total de 33.742 desligamentos líquidos. Isso significa que a então participação relativa do emprego industrial nas empresas sediadas na região, de 29,15%, era amplamente suplantada pela perda relativa do emprego do setor, que chegava a 63,30%. Transformando em miúdos: o impacto da crise econômica atingia proporcionalmente mais duramente o setor industrial na forma de demissões.


 


A situação no País era menos dramática, embora igualmente preocupante: com participação do emprego industrial de 20,10% no conjunto de atividades com carteira assinada, o Brasil apontava até novembro do ano passado a perda proporcional de 37,14% de empregos no setor. Ou seja: enquanto a Província do Grande ABC perdia proporcionalmente 117,15% empregos industrial acima da participação relativa nos empregos gerais, o Brasil registrava queda relativa 84,77% superior. Traduzindo: a crise econômica maltrata bem mais as empresas industriais e seus trabalhadores na região.


 


E dentro desse cenário, Santo André foi o Município da região que mais sofreu: o emprego industrial participou com 51,52% do total de cortes. Muito acima da participação relativa de pouco mais de 15%. Nos demais municípios locais se deu o mesmo quadro de maior incidência de perda relativa do emprego industrial em confronto com as demais atividades. Mas nenhum com tamanho estrago de Santo André. Mas todos igualmente no mesmo barco furado. Situação que, pelo andar da carruagem, vai se agravar nos próximos meses. Pior que isso: sem que autoridades públicas, sindicalistas e instituições empresariais reajam à altura do estrangulamento econômico e social.


 


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