Economia

Perda industrial afeta fortemente
assalariamento em Santo André

DANIEL LIMA - 08/01/2016

Já foi (e faz muito tempo) bom negócio, para não dizer sonho de consumo, ser trabalhador com carteira assinada em Santo André. Tempos em que Santo André era a Capital Econômica da Província do Grande ABC. Tempos de fertilidade industrial, principalmente. Tempos que não voltam mais. Com apenas 15% da mão de obra vinculada diretamente ao setor de transformação industrial, Santo André é um dos municípios mais importantes do Estado que paga os menores salários médios aos empregados. Os dados do Ministério do Trabalho foram sistematizados e analisados por esta revista digital.


 


A desindustrialização impactou fortemente o coração econômico do Município sem que autoridades públicas e instituições em geral movam uma palha sequer para alterar a rota de descaminhos sociais. É muito mais fácil vender ilusões e participar de organizações como o Assalta Grande, Festeja Grande ABC, Omita Grande ABC e Dissimula Grande ABC. Os mandachuvas e mandachuvinhas deitam e rolam. Sacam diariamente contra gerações presentes e futuras.


 


Zona de rebaixamento


 


Santo André estaria na zona de rebaixamento de assalariamentos se fossem considerados os seis últimos colocados do G-22, grupo formado pelos sete municípios da região e os 15 mais importantes do Estado, exceto a Capital. A remuneração média mensal de R$ 2.419,08 registrada em dezembro de 2014 (os dados mais atuais) do total de 215.750 trabalhadores coloca Santo André acima apenas de Ribeirão Pires (R$ 2.094,75, Rio Grande da Serra (R$ 2.008,16), Mogi das Cruzes (R$ 2.100,04) e Ribeirão Preto (R$ 2.216,45). Todos os demais integrantes do agrupamento registram assalariamento médio superior.


 


O setor industrial de Santo André está entre os principais remuneradores de salários do G-22, com média de R$ 3.662,41) -- muito acima, portanto da média geral do total geral dos trabalhadores locais. Entretanto, a atividade não segura a onda do enfraquecimento da riqueza gerada no Município porque são apenas 33.439 no universo de mais de 215.750 postos de trabalho.


 


Se Santo André supera Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra na média salarial geral registrada pelo Ministério do Trabalho, isso significa que está abaixo dos demais representantes da região. A média salarial geral de Diadema era de R$ 2.721,73 em dezembro de 2014, ante R$ 2.762,38 de São Caetano e de R$ 3.195,81 de São Bernardo.


 


A explicitação de médias salariais não se esgota no âmbito monetário, como poderiam sugerir os simplistas. Se há diferenças é porque há identidades econômicas específicas que determinam vantagens e desvantagens. O peso da indústria é geralmente um ponto importante, mas não soberano a determinar o resultado final.


 


Campinas ganha fácil


 


Uma comparação entre Santo André que parou no tempo sem repor em outras matrizes econômicas as perdas industriais que se acumularam nas últimas quatro décadas e Campinas que se fortaleceu com um setor de serviços de valor agregado deixa o representante da região em situação claramente incômoda. A média salarial do setor industrial de Campinas é praticamente a mesma de Santo André (são R$ 3.661,82 da cidade do Interior contra R$ 3.662,41 de Santo André), mas a média salarial geral, de trabalhadores de todas as atividades (comércio, serviços, administração pública, construção civil) é bastante diferente. Santo André não passa dos já mencionados R$ 2.419,08, enquanto Campinas registra R$ 3.068,54), ou seja, uma superioridade de 21,16%).


 


Nem mesmo suposta diferença de participação do emprego industrial no conjunto de empregados com carteira assinada serve de explicação para a desvantagem de Santo André no confronto com Campinas. Os dados do Ministério do Trabalho apontam que os dois municípios contam com universo de trabalhadores industriais proporcionalmente semelhantes: os 64.127 de Campinas são 14,57% do total de 439.964 trabalhadores. Santo André conta com 15,50% de trabalhadores industriais. Ou melhor: contava, em dezembro de 2014, porque sofreu mais baixas na temporada passada.


 


Osasco também é melhor


 


Osasco também é um bom exemplo -- embora reúna características econômicas diferentes das de Campinas -- de que Santo André não repôs assalariamento à altura do setor industrial durante o período de perda de empregos com carteira assinada nas fábricas. Embora conte com participação do emprego industrial no conjunto de trabalhadores inferior ao registrado por Santo André (11,92%), Osasco supera o Município da região na média de assalariamento geral -- R$ 2.564,50 ante R$ 2.419,08.


 


Não é difícil detectar o principal calcanhar de Aquiles de assalariamento dos trabalhadores. O setor de serviços, que conta com a maior participação relativa de carteiras assinadas, é muito pobre em Santo André. Os 115.384 trabalhadores registrados em dezembro de 2014 (53,48% do total) recebiam em média a cada 30 dias não mais que R$ 2.186,23. Bem menos que os R$ 2.927,36 que os assalariados do setor de serviços de Campinas amealhavam a cada 30 dias em 2014 e também menos que os R$ 2.768,47 dos trabalhadores de Osasco. O contingente de empregados de serviços em Campinas somava 225.445 carteiras assinadas (51,25% do total), enquanto os 79.260 de Osasco compunham 44,72% dos assalariados gerais.


 


O que pesa mesmo no cômputo geral de Santo André estar entre as piores remunerações médias dos trabalhadores com carteira assinada é a baixa participação do setor industrial no agregado de empregos. O setor de serviços é frágil, mas não está entre os piores do G-22. Mauá, São Caetano, Jundiaí, Mogi das Cruzes, São José dos Campos, Sorocaba, Sumaré e Taubaté expõem números piores. O que faz a diferença no geral é que todos esses municípios contam, em relação a Santo André, com participação relativa muito superior de trabalhadores industriais.


 


Abismo salarial


 


O fosso salarial entre a minoria de trabalhadores industriais quando confrontada com o total de carteiras assinadas coloca Santo André entre os municípios de maiores disparidades. Chegava, em dezembro de 2014, a 33,95% a vantagem dos assalariados industriais de Santo André na média dos trabalhadores -- R$ 3.662,41 ante R$ 2.419,08. Poucos municípios do G-22 superaram o índice de Santo André: São José dos Campos com 47,76% (salário médio da indústria de R$ 5.813,36 ante salário médio geral de R$ 3.036,88), Sumaré com 38,41 (R$ 5.457,74 ante R$ 3.361,27), Santos com 35,80% (R$ 3.975,41 ante R$ 2.552,01) e Taubaté com 37% (R$ 4.021,79 ante R$ 2.533,95).  São Bernardo apresentava diferença um pouco inferior à registrada por Santo André: 33,41% favoráveis aos empregos industriais, resultado da diferença de R$ 4.799,10 ante R$ 3.195,81).


 


A situação de Santo André no campo do emprego com carteira assinada não deixa dúvidas sobre as razões que levam praticamente a metade da população economicamente ativa a atuar em outros municípios da Região Metropolitana de São Paulo: as empresas locais, em larga maioria, não remuneram o trabalho à altura do passado em que o setor industrial chegava a comportar mais de 70% dos trabalhadores. 


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