Economia

Para que servem Secretarias de
Desenvolvimento Econômico?

DANIEL LIMA - 13/01/2016

O prefeito de São Caetano, Paulo Pinheiro, deu a senha. Agora só se espera que os demais titulares dos paços municipais da região sigam o exemplo, ou contraexemplo. Pinheiro vai acabar com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Acabar é força de expressão. A secretaria jamais existiu para valer. Tanto quanto as demais secretarias do setor na região. Em São Caetano o anúncio é de que a secretaria será acoplada a outra pasta. Nos demais municípios a medida poderia ser mais radical. Eliminem de vez, sem sub-representação, esse quadradinho do organograma oficial, porque não passa de enfeite. 


 


Vão se completar duas décadas desde que o então recém-eleito prefeito de Santo André, Celso Daniel, criou a primeira Secretaria de Desenvolvimento Econômico na região. Outras vieram em seguida. Titulares de vários espectros ocuparam os cargos. Uns bons e outros que não passaram de porcarias. Todos, indistintamente, se deram mal. Nem poderia ser diferente. Até agora nenhum gestor público da região entendeu o que se passa com a economia local. Eles não têm e não tiveram vocação a grandes transformações.


 


Celso Daniel foi uma exceção, mas mesmo assim distante da premência dos acontecimentos. Fiou-se na conversa fiada de enganadores de plantão. Gente que negou o tempo todo o processo de desindustrialização associado a sangrias sociais. O petista, como todo petista, desdenha da desindustrialização em público porque não quer assinar um atestado de culpabilidade por fazer parte do jogo de espancamento do capital. Os não petistas também detestam tocar no assunto porque, em larga porção, jamais mexeram uma palha sequer para defender a iniciativa privada dos ataques internos e externos.


 


Respiração seletiva


 


Os números oficiais metabolizados por mim há quase três décadas comprovam que estamos à deriva economicamente. Só respiramos quando a indústria automobilística dá saltos movida pelas benesses governamentais cada vez mais improváveis diante do desastre fiscal do governo petista. Nada disso, entretanto, aciona as enferrujadíssimas engrenagens institucionais da região.


 


Por isso o prefeito Paulo Pinheiro, na simplicidade de uma administração que está a léguas de distância do que São Caetano exige, deslocada completamente das vantagens potenciais de estar coladíssima à maior metrópole da América do Sul, merece atenção especial. A decisão é uma sentença simbólica de riqueza que provavelmente o prefeito jamais percebeu. A decisão representa a confissão tácita de inapetência empreendedora dos gestores públicos da região.


 


Fosse a mídia regional menos dócil, com senso de responsabilidade mais aguçada nos assuntos econômicos, o anúncio do prefeito de São Caetano seria seguido de corrente de indignação. As instituições de São Caetano poderiam até sair às ruas para protestar. Mas quem disse que há massa crítica disponível, em qualquer esfera institucional de São Caetano? Como não há em qualquer esfera das demais cidades da região.


 


Manifesto ignorado


 


Por isso sempre vou lembrar-me do manifesto dos 300 pequenos empresários industriais -- acompanhados de trabalhadores solidários – em meados do ano passado em Santo André. Eles saíram às ruas pela primeira vez na história em protesto contra a política econômica. Fosse aquele evento devidamente valorizado pela mídia, provavelmente teria desdobramentos salutares. Mas quem disse que a agenda jornalística regional comporta alguma coisa que não seja um jogo de cintura para não se indispor com as forças dominantes da política, da administração pública e dos nichos comandados por mandachuvas e mandachuvinhas?


 


A sem-cerimônia com que a Administração de São Caetano comunicou a sociedade que está jogando definitivamente para escanteio a pasta de Desenvolvimento Econômico só foi superada pela burocrática cobertura da mídia regional. Deu-se ao tema importância semelhante a de uma festinha de final de ano que ganhou nas colunas sociais. Corrigindo: muito menos que isso, porque as festas sociais ocuparam muito mais colunas e foram enfeitadas de fotos indefectíveis.


 


Quando Celso Daniel cedeu à ideia de criar a Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André – ele disse com todas as letras que o fazia porque entendia que o atendimento a este jornalista já tardava – imaginei que a Província do Grande ABC poderia encontrar o caminho da salvação da lavoura. A vaca da desindustrialização já estava havia muito tempo no brejo, mas havia mecanismos que proporcionariam reação para amenizar as perdas futuras e, mais que isso, evitar a dependência exagerada do setor automotivo em empregos e o setor petroquímico em arrecadação tributária. 


 


Lamentavelmente, o que tivemos na sequência, exceto um ou outro respiro que sugeria reação localizada, foi o aprofundamento da baixa competitividade regional que, por essas e por outras razões, torna-se menos importante na geoeconomia nacional.


 


Reserva de talentos


 


Houvesse no Clube dos Prefeitos ou na Agência de Desenvolvimento Econômico um agrupamento de especialistas em competitividade que atuasse com clareza na definição de medidas que permitiriam enfrentar concorrentes de outras geografias, as deficiências municipalistas e regional na área de Desenvolvimento Econômico seriam minimizadas.


 


Mas como não temos essa reserva de talentos em competitividade espacial, sobra apenas a certeza de que as perspectivas só pioram com a decisão de Paulo Pinheiro, mas, paradoxalmente, aumentam bastante os indicadores de indigência do qual um dia sairemos pela lógica da dor. Paulo Pinheiro destruiu veleidades protegido pela santa ignorância de quem não sabe que a riqueza arrecadatória compulsória de São Caetano tende a diminuir diante do assedio de concorrentes municipais de outras regiões.


 


É melhor o prefeito Paulo Pinheiro assumir que a pasta de Desenvolvimento Econômico é um estorvo do que enfeitar o pavão. Como é o caso mais escandaloso da região em Santo André. A Administração Carlos Grana entregou a Oswana Fameli, vice-prefeita e representante da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), a incumbência de botar fogo na fornalha. O que temos em três anos é tudo que a experiência do fracasso cristalizou, embora de vez em quando apareça a secretária, também vice-prefeita, para vender ilusões como a do Polo Tecnológico que não resolveria nenhum grave problema do Município.  


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