Alertamos faz muito tempo, antes mesmo de a obra ser iniciada, que o trecho oeste do Rodoanel, que tem Osasco como centralidade, poderia ser sério problema para a economia da Província do Grande ABC. Antes, escrevemos que o trecho sul, previsto para o território regional, poderia ser um presente de grego. Fomos chamados de derrotistas por alertar que poderíamos perder empresas para aquela área da Grande São Paulo por conta das facilidades logísticas do traçado. Por isso, desde então, acompanhamos atentamente o andar da carruagem de investimentos e de resultados desses investimentos. Os dados são cada vez mais preocupantes.
O PIB dos Municípios de 2013, o mais atualizado pelo IBGE, aponta que apenas duas cidades da região oeste da Grande São Paulo, Osasco e Barueri, mesmo com apenas um terço da população da Província, contam com quase o mesmo PIB de nossa região. O jogo está quase empatado em números absolutos. A diferença que já foi enorme agora é reduzidíssima. De vantagem de 36,79% registrada em 1999, a distância caiu para 13,27% em 2013. Querem prova maior de que perdemos mesmo o eixo de desenvolvimento na periferia da Capital do Estado? Se os cálculos envolverem o PIB por habitante, perdemos feio para Barueri e Osasco.
Reduzindo os estragos
Deixamos para outra oportunidade uma comparação mais cruel para a Província do Grande ABC. Uma comparação que fizemos no final de 2014 e que leva em conta todos os municípios da microrregião da Grande Osasco. Optamos desta vez somente pelos dois principais endereços daquela área. Barueri e Osasco contavam em 2013, ponto extremo desses novos estudos, com 948.408 habitantes. Já a Província do Grande ABC registrava 3,5 vezes mais moradores, com 2.684.066 habitantes. A diferença populacional é importante à medição do PIB Municipal e nesse confronto inter-regional. O PIB per capita do conjunto formado por Barueri e Osasco em 2013 era de R$ 105.054,00. Nada menos que 59,25% acima do PIB por habitante da Província, de 42.806,00.
O choque provocado pela constatação de que Barueri e Osasco são maiores que a Província do Grande ABC quando os números gerais se transformam em números por habitante será maior ainda quando chegar o dia em que os dados gerais daqueles dois municípios superarem em termos nominais os números dos sete municípios da Província. E isso não parece distante, a se manter a velocidade de crescimento do Produto Interno Bruto dos nove municípios envolvidos.
Nos últimos 14 anos, tendo como base 1999 e como ponta final 2013, o PIB da Província do Grande ABC evoluiu em termos nominais, ou seja, sem considerar a inflação, em velocidade bem abaixo da de Barueri e Osasco. Esses dois municípios avançaram no período de 27,60% sobre a Província. Em 1999, o PIB da Província alcançava em valores de então R$ 26.771,65 bilhões, ante R$ 16.920,70 bilhões de Osasco e Barueri. Uma diferença de 36,79%. Já em 2013 o PIB da Província chegava, também em valores nominais, a R$ 114.883,19 bilhões, ante R$ 99.634,37 bilhões de Barueri e Osasco. Uma diferença de 13,27%.
Velocidade muito maior
Osasco, mais diretamente beneficiada pelo traçado do Rodoanel Oeste, cresceu no período nada menos que 693,76% em termos nominais. A inflação medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do IBGE registrou 140,18%. O crescimento conjunto de Barueri e Osasco no período de 14 anos apontou 578,83%, ante 429,12% da Província do Grande ABC. Ou seja: Barueri e Osasco empreenderam velocidade de crescimento 27,60% maior que a Província nesse período. Em 14 anos, a Província viu reduzida a vantagem sobre Barueri e Osasco em termos de PIB em 23,52 pontos percentuais, ou 63,93%.
A tradução desses dados é que na toada média dos últimos 14 anos, o PIB da Província será superado pela dupla da região oeste da Grande São Paulo em menos de quatro anos.
A tendência registrada neste milênio deverá se aprofundar porque não existe perspectiva de a Província do Grande ABC dar um peteleco principalmente no nó logístico que a mantém atada a uma teia de complicações.
A inauguração do trecho oeste do Rodoanel em outubro de 2002 alterou profundamente a geoeconomia da Grande São Paulo. O trecho sul, que supostamente beneficiaria a Província do Grande ABC, só foi inaugurado em 2010. Há uma grande diferença entre os dois traçados: o Rodoanel Oeste conta com 13 áreas de acessos urbanos, que lubricam a logística e a economia de Osasco, Barueri e vizinhança. O Rodoanel Sul conta com apenas três acessos, mesmo assim distantes do centro de gravidade econômica. O traçado apenas tangencia o território da Província do Grande ABC. Questões ambientes tornaram o trecho sul do Rodoanel praticamente vedado à sinergia econômica com a região. Bem diferente do traçado oeste.
Cantando a caçapa
Em maio de 2014 escrevemos nesta revista digital, sob o título “Rodoanel é cada vez mais uma corda que enforca a economia da Província”, que somente os ingênuos e os mal-informados insistiam em acreditar que o Rodoanel Sul iria melhorar automaticamente a vida econômica regional. Disse que o trecho sul, inaugurado em 2010, e o trecho leste, então em fase de construção, não garantiriam à região combustão espontânea que moveria nossa economia. Muito pelo contrário.
Aquela análise segue atual e configura receituário crítico adotado sobre o Rodoanel desde as primeiras edições da revista LivreMercado, criada nos anos 1990. Voltando a 2014, ao artigo citado, escrevi que não temos competência para planejamento territorial voltado ao desenvolvimento. “Perdemos de goleada o jogo da competitividade na Região Metropolitana de São Paulo, a qual, por sua vez, perde feio para outras regiões do Estado e várias unidades da Federação”, escrevi.
Também lembrei que nossos administradores públicos têm a péssima mania de se omitirem na preparação de medidas que possam potencializar investimentos em logística. Deixam ao deus-dará da improvisação eventuais e quase nunca confirmados acréscimos do potencial de concorrência ante outras geografias que contam com sistema viário muito mais qualificado. “A chegada do trecho sul do Rodoanel nos pegou de calças curtas não porque tenha sido de supetão. A bola foi cantada durante longo período de gestação da proposta. O que nos surpreendeu foi a indolência das autoridades públicas em produzir estudos qualificados para acoplar o viário às necessidades de incentivo ao setor produtivo. Com o trecho leste não será nada diferente. Transplantam-se coração e fígado num corpo que insiste em mergulhar em abusos etílicos de quem continua a viver no mundo da fantasia”, escrevi em maio de 2014.
Presente de grego
Meu histórico em matéria de Rodoanel é antigo. Nasceu bem antes das primeiras estacas do trecho oeste. Num artigo que escrevi na coluna “Contexto”, que assinei durante 11 meses entre julho de 2004 e abril de 2005 no Diário do Grande ABC, quando ali estive diretor de Redação, deixei evidenciada mais uma vez minha preocupação já no título: “Presente de grego”. O trecho sul ainda estava longe de ser construído. Estamos em 2004, não esqueçam. Ainda seriam necessários seis anos para que, finalmente, a região ganhasse o presente de grego.
Escrevi naquela coluna que a cronologia do trecho sul do Rodoanel era a síntese do desprestígio institucional da região. “Considerada essencial à recuperação econômica da região, a obra virou jogo de empurra-empurra entre governo estadual e governo federal. Não bastassem as intrigas palacianas, deputados estaduais e federais batem em seus próprios dirigentes ou amplificam rusgas entre petistas e tucanos. A dependência de recursos da complicadíssima Parceria-Púbico-Privada acrescenta fogo na fogueira de que, quando eventualmente chegar ao Grande ABC, o Rodoanel será menos valioso. Aliás, tenho minhas dúvidas sobre os efeitos miraculosos creditados aos poderes infraestruturais do Rodoanel. Já escrevi sobre o assunto mas não custa repetir: a obra que tangenciará Santo André, Mauá, São Bernardo e Diadema é faca de dois legumes, como diria Vicente Mateus. Da mesma forma que o Rodoanel acrescentará à geografia produtiva do Grande ABC algumas áreas de acesso que possibilitarão o drible da vaca no caos interno da Região Metropolitana de São Paulo, escancarará de vez o convite explícito a novas deserções industriais para regiões próximas da Capital” – escrevi há 11 anos.
Negligência total
Naquele texto fiz minuciosa incursão técnica para mostrar que o trecho oeste do Rodoanel poderia (e acabou sendo, mesmo) um presente de grego. Não era, como escrevi, a primeira vez que investi numa teoria que parecia conspiratória. Infelizmente o que estamos vendo é a consumação de uma profecia que, repito, provocou a ira dos vagabundos de sempre e também a insatisfação de gente decente mas mal informada sobre nuances econômicas.
Quem dissesse há uma década e pouco que o então e ainda poderoso Grande ABC teria sacudida a autoestima econômica ao constatar que Barueri e Osasco estariam prestes a lhe passar a perna em termos absolutos e há muito já lhe passaram em termos per capita, seria provavelmente internado em alguma casa de saúde mental.
O problema é que gestores públicos e dirigentes de instituições privadas locais são grandessíssimos zeros à esquerda. Eles acreditam que ainda somos o centro da periferia do mundo metropolitano comandado pela Cinderela Capital. Precisam cair na real e descobrirem que já perdemos feio a disputa para territórios aparentemente menores.
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