A Província do Grande ABC está perdendo feio a disputa por geração de riqueza para o vizinho Grande Oeste, formado por Osasco, Barueri e outros cinco municípios da Grande São Paulo. O resultado tem sabor amargo para uma região que se imaginava fortalecida com a chegada do trecho sul do Rodoanel. Deu-se mal. Nem o trecho sul é a melhor esquina do Brasil, como proclamou o governador Geraldo Alckmin para lustrar o ego regional, nem o trecho oeste, que contempla Osasco e seu entorno, perdeu a embocadura dos primeiros tempos, quando as obras inauguraram o grande circuito logístico da Região Metropolitana de São Paulo, ainda incompleto.
Estamos comendo poeira do Grande Oeste, vizinho cada vez mais indigesto. Nosso PIB (Produto Interno Bruto) era 22,66% superior ao do Grande Oeste no último ano do milênio passado, em 1999. Agora, no novo milênio, somos 9,05% inferiores. E a tendência é de aumento da diferença. Dependemos excessivamente do setor automotivo e o Grande Oeste tem diversidade de fontes de riqueza, movido pelo traçado do Rodoanel mais interativo com a geografia interna.
O Rodoanel Sul só passa tangencialmente na Província, sem interferir diretamente no rearranjo interno. O trecho Oeste entranha-se com aqueles municípios. Por isso, cantamos a bola, há mais de uma década e meia, de que a tendência do traçado que tomará toda a Grande São Paulo fragilizaria ainda mais a economia industrial e de serviços logísticos da região. Não deu outra.
Velocidade muito superior
Ao final de 1999, a soma do PIB Regional chegou a R$ 26.771.650 bilhões, contra R$ 20.703.320 da Grande Oeste. Uma diferença de 22,66%. Treze anos depois, em 2013, último ano atualizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e sempre em termos nominais, sem considerar a inflação do período, o PIB da Província alcançava R$ 114.883.190 bilhões, ante R$ 126.321.592 bilhões do Grande Oeste, formado por Barueri, Osasco, Carapicuíba, Itapecerica da Serra, Jandira, Santana do Parnaíba e Pirapora do Bom Jesus. A velocidade de crescimento do PIB do Grande Oeste, foi 35,51% superior à da Província.
Provavelmente os moradores da Província do Grande ABC que jamais imaginaram o deslocamento regional do posto de segundo polo econômico mais importante da Região Metropolitana de São Paulo estarão estarrecidos com os resultados. Como perder o jogo de produção de riqueza para esses oito municípios? Só quem subestima o adversário não entende o que se passa e o que se vai agravar.
O fato é que perdemos o centro de gravidade do desenvolvimento econômico porque perdemos o eixo da regionalidade. Aliás, o eixo da regionalidade jamais foi objeto de uso, porque é uma abstração. Somos uma região em que os sete municípios que a compõem se opõem às escondidas e também às claras. O regionalismo é uma farsa. Somente a Fuabc (Fundação do ABC) exercita a regionalidade no sentido de integração. E mesmo assim por razões mais que suspeitas, como fonte caudalosa de harmonia entre dirigentes políticos de todos os matizes com farta distribuição de vantagens mútuas. A Fuabc está a salvo da bisbilhotice alheia porque tem muito dinheiro para aplacar redutos eventualmente hostis.
Os números do PIB desta análise são colocados em confronto levando-se em conta os resultados gerais da Província do Grande ABC e do Grande Oeste em 1999 e em 2013. A comparação é ponta a ponta. E desconsidera as mudanças metodológicas aplicadas pelo IBGE a partir de 2013 no PIB dos Municípios. Como a mudança abrange direta e igualmente os 15 municípios envolvidos, a essência do PIB está sendo preservada. O que vale para um vale para todos. A nova metodologia do PIB abarca meia centena de indicadores adicionais.
A ultrapassagem do Grande Oeste independe, portanto de alterações no PIB, porque já se vinha consolidando com a metodologia anterior. Eventualmente não se descarta a possibilidade de mudanças caso o IBGE refaça as contas e reenquadre o PIB dos Municípios de 1999 em sintonia com o PIB dos Municípios de 2013.
Projeções preocupantes
Quando se leva em conta que em 1999 a Província do Grande ABC participava da produção nacional de veículos que mal chegava a dois milhões de unidades de passeio, comercial e carga, e em 2013 saíram quase 3,5 milhões das fábricas de veículos instaladas no Brasil, não é difícil projetar mais dificuldades para a região quando o PIB dos Municípios de 2014 e de 2015, principalmente, forem revelados. A indústria automotiva sofreu duros reveses. No ano passado a produção nacional mal chegou a 2,5 milhões de unidades. Levando-se em conta também que cada vez mais a participação relativa da produção de veículos é menor na região, encaminham-se complicações à sustentação do PIB.
Resta saber até que ponto o quadro recessivo de praticamente dois anos seguidos – o PIB de 2014 cresceu mísero 0,5% e em 2015 caiu provavelmente acima de 3%, com projeção de mergulho semelhante nesta temporada – não impactará também os municípios do Grande Oeste. Talvez sofram menos que os sete municípios da Província, mas o baque deverá ser forte também. O Grande Oeste conta com economia mais diversificada que a região e, principalmente, com menos dependência do setor industrial. Principalmente em Barueri o setor de serviços é bastante expressivo.
O que está ocorrendo com a economia da Província do Grande ABC neste milênio é apenas a sequência do desastre consumado principalmente nos anos 1990, quando se agravou o processo de desindustrialização. Fiz dezenas de análises sobre o assunto. Em novembro de 2003 – portanto há 13 anos – publiquei na revista LivreMercado, antecessora de CapitalSocial, denso estudo sob o título “Levamos uma surra e o Interior avança”. Pinço as primeiras linhas daquele trabalho:
Um desastre. Essa é a definição mais apropriada para o desempenho da economia da Grande São Paulo, fortemente influenciada pelo esvaziamento industrial do Grande ABC, no período entre janeiro de 1996 e dezembro de 2002. A Grande São Paulo viu desaparecer R$ 15,9 bilhões de sua indústria de transformação, como é definido o Valor Adicionado, e sentiu um tombo de R$ 46, 1 bilhões no Índice de Potencial de Consumo – que mede a capacidade de gasto da população com produtos e serviços. R$ 46,1 bilhões representam praticamente o potencial de consumo previsto para este ano nos Estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina juntos. A Baixada Santista e o Grande ABC protagonizaram o principal contraste do desenvolvimento econômico das três regiões metropolitanos formais e das duas microrregiões mais importantes do Estado de São Paulo. Composta por nove municípios liderados por Santos, a Baixada Santista teve o Valor Adicionado aumentado em 29,4%. O Índice de Potencial de Consumo caiu 9,8% em consequência da desvalorização do real e da perda generalizada de renda dos brasileiros. Já o Grande ABC, atingido fortemente pela abertura comercial dos anos 1990 e sobretudo pela descentralização da produção automotiva, desmoronou 31,3% em transformação industrial e 25,5% no potencial de consumo. A Região Metropolitana de São Paulo de 39 municípios apresentou resultados menos dramáticos que os do Grande ABC, com queda de 25,9% no potencial de consumo e 10,2% no Valor Adicionado. Quando excluído o Grande ABC, o que reduz a RMSP a 32 cidades, os resultados são menos tensos: a metrópole sem o ABC perdeu 26% em Potencial de Consumo e apenas 3,3% em Valor Adicionado.
Milênio complicado
Não preciso repetir que análises em forma de reportagens se tornaram tradição na revista LivreMercado e ganharam mais força ainda nesta revista digital. Os custos operacionais são tremendamente menores e os espaços editoriais mais flexíveis. Somos o que chamaria de macaco velho a perscrutar o tecido econômico e social da Província do Grande ABC.
O que estamos vivendo neste novo milênio é bem diferente do que se apresentava como futuro da região quando o século passado brotava no horizonte de uma Grande São Paulo que em nada se assemelha ao que temos 100 anos depois.
No caso específico da região, sentimos que trocamos de sinais: no passado secular fomos atrevidos como empreendedores e igualmente bafejados pela sorte de sediar o setor automotivo no País; no presente de novo século no interior de novo milênio estamos à deriva e, salvo uma grande surpresa, desperdiçamos a melhor oportunidade político-econômica que já apareceu por estas bandas: gente local, forjada localmente, teve todas as condições de incrementar transformações profundas com o respaldo do governo federal. Preferiu-se o corporativismo político-sindical com todos os vícios que a Operação Lava Jato explicita sem dó nem piedade.
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