Economia

Elefante do desemprego passa por
Santo André e ninguém reparou

DANIEL LIMA - 29/02/2016

As fábricas de Santo André demitiram proporcionalmente seis vezes mais que a média das fábricas brasileiras em janeiro deste ano. E muito mais que as fábricas de quaisquer outros municípios que compõem o G-22, o clube das 15 maiores cidades do Estado de São Paulo somadas às sete cidades da região. E também muito mais que a média de demissões de trabalhadores com carteira assinada do setor industrial da Região Metropolitana de São Paulo, na cidade de São Paulo e no Estado de São Paulo. Ou seja: Santo André tornou-se em janeiro campeoníssima na geração de desempregados. Anualizada, a taxa superaria a 15%. Uma catástrofe.

As demissões em janeiro em Santo André foram tenebrosas. Mas esse elefante de estragos passou pela praça regional sem que ninguém ao menos se desse conta. Estamos mesmo muito cegos ou negligentes. Principalmente o setor público, que teria obrigação social de monitorar atentamente o andar da carruagem da economia regional numa série de indicadores.

Quem perguntar à secretária de Desenvolvimento Econômico de Santo André, Oswana Fameli, também vice-prefeita, o que se passa na cidade, certamente terá como resposta enxurrada de clichês de triunfalismo. Ela não é diferente da maioria dos gestores públicos que confundem administração com marketing. São discípulos de João Santana, a nova estrela cadente da marquetagem nacional.

Pior que tudo isso é que os supostos formadores de opinião se calam, como se tudo estivesse sob controle. E de fato está: sob o controle do descontrole daqueles que mandam e desmandam sem compromisso com o amanhã.

Muito acima da média

A perda de 1,32% do estoque do emprego industrial com carteira assinada em Santo André em janeiro último (foram 374 casos de um total de 498 em toda a região) significa muito mais que o 0,22% da média brasileira apontada pelo Ministério do Trabalho, conforme dados oficiais do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) anunciado sexta-feira última. É aí que está a diferença de seis vezes favorável (ou desfavorável) a Santo André.

Num confronto regional, a diferença oscila entre mais e menos em relação à média nacional, mas sempre comprometedor a Santo André: São Caetano ganhou 0,09% de emprego industrial em janeiro (22 postos), São Bernardo cresceu 0,06% (53 postos), Diadema caiu 0,36% (perdeu 170 postos), Mauá avançou 0,08% (novos 17 postos), Ribeirão Pires perdeu 0,62% (46 postos) e Rio Grande da Serra não registrou variação no estoque de trabalhadores.

Quando a comparação do comportamento do mercado de trabalho com carteira assinada no setor industrial em janeiro se desloca aos demais integrantes do G-22, há oscilações semelhantes às registradas na Província do Grande ABC, com ganhos e perdas sempre muito distantes do rebaixamento em Santo André. Tanto que no saldo geral, o G-15 registrou em janeiro a queda líquida de apenas 71 empregos do setor. Nenhum daqueles endereços sequer chegou próximo aos números de Santo André.

Sazonalidade ou não?

É possível que os dados de Santo André se revelem sazonais, ou seja, fora de uma estrutura lógica de médio e de longo prazo, Podem ser registros excepcionais, que incorporariam, por exemplo, os casos de demissões anunciados na Pirelli, que rebaixou o quadro de trabalhadores em 120 postos no mês passado.

Acompanhar o fluxo e as características funcionais de demissões em cada Município da região e na região como um todo deveria ser prioridade do setor público, principalmente do Clube dos Prefeitos. Demissões com carteira assinada são os sinais mais alarmantes de que há algo complicado demais na economia. Fossem as autoridades públicas locais minimamente inquietas, já teriam preparado o terreno e colocado em campo uma equipe que poderia atuar preventivamente na tentativa de minimizar os estragos.

Quando cerca de 300 pequenos empresários de Santo André, principalmente, e de Mauá, acompanhados de funcionários, saíram às ruas de Santo André e se dirigiram em protesto à sede do Clube dos Prefeitos, sinalizava-se situação de gravidade à qual poucos deram atenção, inclusive ou principalmente a imprensa. Era julho do ano passado.

Quem conhece a história do empreendedorismo de pequeno porte da região sabe o quanto seus representantes sofreram impotentes ante série de impactos macroeconômicos e microeconômicos. Quem sabe os números de demissões líquidas em Santo André em janeiro não sejam a consumação de uma crônica anunciada: o pequeno negócio industrial estaria vivendo crise inimaginável e com níveis destrutivos inalcançáveis? Nem mesmo podem recorrer ao PPE (Programa de Proteção ao Emprego) porque, em larga maioria, devem tributos ao Estado todo-poderosos e, com isso, estão preventivamente vetados de qualquer habilitação.

Acima da média anual

Os dados de Santo André preocupam bastante porque se descolocam dos registros acumulados nos 12 meses do ano passado do Ministério do Trabalho. A quebra do estoque do emprego industrial durante toda a temporada passada não passou de 8,80% em Santo André. Não muito diferente dos 9,53% de São Bernardo, dos 8,44% de São Caetano e mesmo dos 10,31% de Mauá, além dos 10,05% de Ribeirão Pires. E abaixo dos 13,17% de Diadema, campeã regional em demissões de trabalhadores do setor produtivo quando se leva em conta o estoque registrado na temporada anterior e a atualização dos dados. Rio Grande da Serra, integrante do G-22, como Ribeirão Pires, apenas porque faz parte da região, não deve ser considerada para efeitos estatísticos individuais, porque reúne números modestos demais e, por isso mesmo, sujeitos a oscilações pronunciadas.

Os números revelados pelo Ministério do Trabalho sobre o comportamento do emprego industrial com carteira assinada na região foram menos negativos do que os anunciados na semana passada pelos braços do conglomerado Ciesp/Fiesp na região. As unidades locais do Ciesp, que se dividem em três territórios (São Bernardo, São Caetano e Santo André, que inclui Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra) anunciaram a eliminação de 1.4 mil vagas, o que corresponderia a 0,68% do estoque.

O resultado do Ciesp foi anunciado como o pior janeiro desde 2009, ano dos rescaldos do estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos. A diferença provavelmente se dá por causa de possível quadro suplementar de trabalhadores sem carteira assinada. Os dados estatísticos do Ministério do Trabalho e do Ciesp correm quase que na mesma raia, apesar de diferenças metodológicas. Os registros do Ciesp são realizados com base em pesquisa própria da instituição, enquanto o Ministério do Trabalho conta com informações oficiais das empresas e seus registros de trabalhadores. 

Dilma queima estoque

A corrida inglória da presidente Dilma Rousseff para queimar o estoque de trabalhadores industriais com carteira assinada incrementado pelo antecessor Lula da Silva segue adiante após as 498 demissões líquidas de janeiro. Um resultado muito mais discreto que a média mensal de demissões registrada no ano passado: 2.041, resultado de 24.495 cartões vermelhos aos trabalhadores. 

O estoque deixado por Lula da Silva – 60.563 – agora está em 29.268 postos de trabalho. Ao faltarem 33 meses para o final do mandato da petista, seria necessária a perda média mensal de 887 postos de trabalho para que a região voltasse ao estoque de trabalhadores deixado em 2002 pelo governo Fernando Henrique Cardoso.

A perspectiva de o Brasil registrar nova queda do PIB (Produto Interno Bruto) nesta temporada, semelhantemente aos prováveis 4% do ano passado, torna a queima do estoque deixado por Lula perspectiva factível para os próximos 12 meses. Sobretudo porque o carro-chefe da economia da região, o setor automotivo, segue a dar sinais de que não se recuperará tão cedo, após a produção desabar 26% no ano passado. A projeção da Anfavea, o Clube das Montadoras, de que a produção recuaria mais 7% nesta temporada, começa a fazer água, depois dos números de janeiro se revelarem semelhantes à média de rebaixamento do ano passado. 



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