Economia

APL do plástico à
espera do BNDES

ANDRE MARCEL DE LIMA - 05/11/2006

Como LivreMercado já mostrou em mais de uma edição, executivos da Prefeitura de Santo André e integrantes do APL (Arranjo Produtivo Local) do setor plástico estão empenhados em um plano audacioso: a construção de condomínio industrial que reúna pelo menos 20 pequenas empresas de terceira geração plástica espalhadas pela região. Entretanto, a materialização da proposta está subordinada à superação de desafio financeiro. Os interlocutores da região terão de convencer técnicos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a liberar cerca de R$ 35 milhões à aquisição de terreno e às construções, já que as empresas interessadas não dispõem de recursos. Tampouco a Prefeitura tem condições de ajudar. “Estamos na dependência das negociações com o BNDES” — reconhece Osvaldo Baradel, diretor da Ecus Injeção e integrante do APL do setor plástico.

Empenho não tem faltado. Em meados de julho último, Baradel integrou comitiva que se deslocou à sede do banco governamental, no Rio de Janeiro. Também estiveram no encontro o secretário de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André, Luís Paulo Bresciani e David Gomes de Souza, diretor da mesma pasta, além de Aparecido Faria, representante da Expodel, que presta consultoria ao APL. A receptividade foi a melhor possível, de acordo com os envolvidos. “Os técnicos do BNDES ficaram muito animados com o pré-projeto que apresentamos, até porque o Proinco nunca financiou nenhum empreendimento desse porte” — conta Osvaldo Baradel, referindo-se ao produto financeiro traduzido como Programa de Investimentos Coletivos Produtivos.

Feita a abordagem inicial, os interlocutores da região estão concentrados na necessidade de marcar novo encontro para dar continuidade ao trabalho de convencimento. “Mas queremos que, desta vez, a reunião com o BNDES seja realizada no Grande ABC” — destaca Osvaldo Baradel.

Um dos pontos mais sensíveis da negociação é a questão das garantias. Como assegurar comprometimento com retorno financeiro diante de quantidade tão grande de CNPJs envolvidos? Baradel conta que o ideal é estabelecer espécie de garantia progressiva. O terreno e as construções a serem financiados serviriam de lastro. Além disso, os equipamentos das empresas também poderão ser arrolados.

A área para a construção do condomínio industrial ainda não foi definida. Baradel e outros empreendedores estão de olho em terreno de 70 mil metros quadrados na Avenida dos Estados, em Santo André, e em outro que preferem não especificar para evitar valorização. A definição do local é encarada como desafio menor num contexto em que os recursos financeiros saltam como prioridade. 

As vantagens dos condomínios industriais são amplamente conhecidas. Com várias empresas do mesmo segmento compartilhando o mesmo espaço, é possível contratar serviços essenciais por atacado e não no varejo, como acontece com empresas que atuam de forma isolada. O modelo é sinônimo de redução de custos graças à economia de escala. “Da manutenção elétrica e mecânica dos equipamentos à movimentação interna com empilhadeiras, passando pela contração de convênio médico, são incontáveis as possibilidades de integração e sinergia” — observa Osvaldo Baradel.

A simbiose entre indústrias que atuam ao mesmo tempo como concorrentes e parceiras estabelece caldo de cultura propício para a inovação, conforme constatado pelo norte-americano Michael Porter, considerado o pai da teoria dos clusters. E inovação é palavra-chave da competitividade moderna, principalmente para empresas que precisam buscar diferenciação e fugir da comoditização.

Nocaute providencial

Se superar o desafio do crédito, seguir o script desejado e virar realidade, o condomínio de indústrias do plástico representará nocaute na cultura do salve-se quem puder que caracteriza a terceira geração — além de contribuição valiosa do governo federal ao Grande ABC que tanto contribui com impostos. Na mão oposta das empresas de primeira e de segunda geração do Pólo Petroquímico de Capuava, que contam até com associação para representar interesses comuns, além de economizar milhões de reais por meio de contratação conjunta de serviços, a maioria esmagadora das transformadoras de plástico não se relaciona entre si.

Autismo empresarial

Uma das principais explicações para o autismo está na característica do setor. Nas microempresas familiares os donos se desdobram para atender clientes, comprar matérias-primas, acompanhar o processo de fabricação e despachar produtos acabados. Premidos por múltiplas atribuições, encontram pouco tempo ou disposição para se entregar a atividades que fujam do trivial. Mesmo que tais atividades, de caráter estratégico, sejam essenciais para a sobrevivência do negócio no médio ou longo prazo.

Além disso, entram em cena questões de cunho comportamental. Basta reproduzir o que disse Antonio Mattos, diretor da Suzano Petroquímica, antiga Polibrasil, durante seminário realizado em setembro último pela Câmara Regional. Referindo-se especificamente aos resultados do APL, ele disse, com estilo, mas sem esconder a realidade: “Não é fácil unir esforços no contexto de uma região metropolitana que não traz, em sua estrutura, elementos de coesão social”. De fato, o APL regional reúne menos de 20 das estimadas 450 empresas de terceira geração do Grande ABC. O grupo liderado por Osvaldo Baradel espera que a segunda fase do trabalho, com início programado para o começo de 2007, abarque número maior de participantes.

A escassa presença de empreendedores do setor plástico naquele seminário gratuito salta aos olhos como indicador de rarefeitas ações institucionais. É para tirar os transformadores do casulo que Santo André programou rodada de negócios específica para o segmento no Clube Primeiro de Maio, em 10 de novembro.

Entre dois caminhos

O que é mais importante, tendo como pano de fundo a necessidade de converter a produção adicional engatilhada para o Pólo de Capuava a partir de abril de 2008 em milhares de empregos na terceira geração? Materializar condomínio para acolher parte das empresas já instaladas na região ou criar condições que favoreçam a chegada de novas indústrias ao Grande ABC? Osvaldo Baradel opta pela primeira alternativa, não por falta de relevância da segunda, mas por questão de prioridade. “Mais importante é segurar as empresas que estão aqui. Antes de atrair, temos que manter” — observa o empreendedor. “Consultas para sair recebemos bastante” — confidencia, referindo-se ao assédio de prefeituras de outras localidades.

Baradel cita a distorção tributária que penaliza transformadoras paulistas no embate com contendores de outros Estados como o principal obstáculo a ser removido caso o Grande ABC esteja disposto a potencializar os frutos do segmento composto por cerca de 450 empresas e 15 mil empregos. Fabricantes de resinas do Pólo de Capuava recolhem 18% de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), enquanto empresas de segunda geração da Bahia e do Rio Grande do Sul pagam 12%, e apenas 7% no caso do Rio de Janeiro recém inserido no mapa petroquímico por obra e graça da Rio Polímeros. O desequilíbrio é um convite à instalação em outros Estados e leva empresas do Grande ABC a contratar matérias-primas de outras unidades da Federação.



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