Economia

PT faz Província sentir saudade
de FHC. Explicamos tudo (2)

DANIEL LIMA - 07/06/2016

A insensibilidade sindical é o segundo capitulo desta série de análises de resultado explicitado no título. O que parecia improvável se converteu em realidade ao final de 13,5 anos do governo petista em Brasília. O sindicalismo da região, debilitado durante os oito anos de Fernando Henrique Cardoso, voltou com força total. E não cumpriu jamais a promessa de que se converteria em organização também preocupada com a cidadania. Seria um feito e tanto. Uma arremetida que, na prática, negaria a essência da atividade, sempre voltada para o próprio umbigo em qualquer lugar do planeta. Mas há quem ainda hoje desfile tamanha bobagem. E não falta quem acredite.

Principalmente os sindicatos cutistas, braço trabalhista do Partido dos Trabalhadores, deitaram e rolaram no exercício de ações corporativistas, ou seja, sem qualquer compromisso com a sociedade como um todo. Sobretudo na quase uma centena de unidades instaladas na região sob a chancela de comitês de fábricas.

Comitês de fábricas são tentáculos sindicais no cotidiano das empresas. É o que existe de mais intrigante nas relações entre capital e trabalho, segundo fontes que evitam se expor por causa de retaliações. Há completo despreparo dos sindicalistas na linha de frente das indústrias. Eles só pensam em privilégios pessoais. Os demais trabalhadores não se sentem representados.

Só vale para empresas

Os comitês de fábricas são o sindicato dos metalúrgicos dentro das organizações produtivas, intervindo diretamente em processos e procedimentos. A ocupação das fábricas foi gradual e envolvente. O agora prefeito Luiz Marinho liderou o movimento no final dos anos 1990. É claro que jamais, em praticamente oito anos de gestão na Capital Econômica da região, sequer cogitou a ideia de algo análogo formado por contribuintes ávidos por acompanhar as contas públicas, bem como  métodos de gerenciamento de serviços. Casa de ferreiro, espeto de pau.

O socialismo velho de guerra que no fundo não quer ver o capital nem pintado de ouro -- pelo menos o capital de empreendedores porque o capital estatal é glorificado mesmo nestes tempos de estraçalhamento da Petrobras e de tantas outras empresas estatais -- tratou de minar o que poderia resistir de competitividade na maioria das empresas. Debatem-se mais as regras de participação nos lucros e resultados – que muitas vezes são vantagens compulsórias, independentemente de lucros e resultados – do que produtividade e competividade.

Quem acha que o sindicalismo da região preza a competitividade em forma de produtividade desconhece o léxico das lideranças que sucederam a Lula da Silva no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Há tolerância com o capitalismo privado, mas os pressupostos de uma organização que observa o socialismo como a tábua da salvação para tudo, mesmo que não saibam que socialismo adotar, não deixam de se manifestar continuamente.

Boa parte das empresas de pequeno e de médio porte da região se desvencilhou das amarras das chamadas conquistas sindicais que resultaram das primeiras greves dos metalúrgicos, no final dos anos 1970. Não havia como resistir mais ao tratamento igualitário imposto a pequenas, médias e grandes empresas industriais. Era ceder aos poucos ou continuar a enxurrada de deserções ao Interior do Estado, principalmente, ou ao obituário empresarial.

Anacronismo devastador

Colocar pequenas e grandes empresas do mesmo setor no mesmo balaio de gatos de reivindicações trabalhistas foi um erro fatal dos sindicalistas da região. Até que o bom senso prevalecesse, o parque produtivo da Província conheceu reveses sobre reveses. Mas ainda há pesos sobressalentes a minar a resistência das pequenas empresas. Os custos trabalhistas da cadeia  automotiva na região são bem maiores que em qualquer outro endereço nacional.

Quem esperava que durante o reinado do PT no governo federal haveria avanços nas relações entre capital e trabalho na região não levou em conta que a oportunidade e as circunstâncias fazem a pressão. No caso, os sindicalistas foram adiante no controle político na relação entre capital e trabalho. Os comitês de fábricas são a prova disso. Uma vez implantados, adeus perspectiva de recuo.

Pouco se fala sobre essa intromissão dissimulada no gerenciamento das indústrias. Os executivos das empresas se sentem tolhidos em muitas iniciativas. O chão de fábrica é o domínio estratégico dos representantes dos sindicalistas. Eles, os donos do poder do trabalho, ditam as regras não escritas. A velocidade de produção nem sempre é a desejada. A meritocracia não tem vez. O crivo sindical de suposto igualitarismo impera.

Investimentos desaparecem

Quem conhece o ambiente produtivo da Província do Grande ABC não quer nem ouvir falar em investimentos. O suposto amadurecimento sindical não convence investidores. Espalham-se informações que dão conta de que o jogo no chão de fábrica é de lascar. Discretamente, os sindicalistas de gabinetes estenderam poderes nas empresas. Eles controlam as decisões mais importantes. Ditam as regras de contratações e demissões.

O ritmo de produção vai de acordo com seus interesses. Com planilhas às mãos, procuram balizar o ritmo de acordo com as metas de premiação. Que, por sua vez, estão descoladas da concorrência em variados Estados brasileiros.

A competitividade das fábricas de veículos na região limita-se a condicionantes que não imperam no mundo dos consumidores. Por isso as montadoras locais perdem cada vez mais espaço no mercado brasileiro e internacional.

Se os oito anos de Fernando Henrique Cardoso foram danosos para a economia da região sobremodo por causa da desindustrialização, os efeitos deletérios de um sindicalismo vinculado a um partido político com viés estatizante são muito mais agressivos, porque se estendem desde o final dos anos 1970. O estreitamento das relações entre capital e trabalho tão cultuado na região não passa de resultado compulsório de um jogo de coação imposto pelos sindicalistas. Os empreendedores e executivos silenciam. Temem retaliações.

Mas o fracasso da politica sindical na região é indisfarçável, embora se tente vender a ideia de que se vive estágio de grandes avanços. Os números sobre o comportamento econômico da região dizem tudo. A quebra da mobilidade social é inquestionável. Cada vez menos famílias sobem socialmente.

Cara do Brasil

Principalmente São Bernardo está cada vez mais a cara média do Brasil. Isso significa que o resultado é ruim. O Brasil socioeconômico sempre esteve muito abaixo da região como um todo e de São Bernardo em particular. A classe média convencional da região sofre perdas seguidas. Há cada vez menos famílias enquadradas no conceito.

Estatísticas e análises desta revista digital comprovam que São Bernardo lidera regionalmente um processo de fragilização que parece não ter fim. Em termos de potencial de consumo por habitante a Capital Econômica da região fica atrás inclusive de Mauá, que vive do Polo Petroquímico e de uma cadeia complementar da indústria de plástico. Potencial de consumo é uma medida econômica que supera a importância do PIB (Produto Interno Bruto) porque revela a capacidade de riqueza da população de cada Município. PIB é um indicador de geração de riqueza que em larga escala não é interiorizado em cada Município.

A transformação de São Bernardo – e da região como um todo, mas não no mesmo grau de preocupação – em trabalhadores de primeira, segunda e terceira classes simboliza contraditoriamente uma desigualdade que os esquerdistas representados pelos sindicalistas costumam abominar em discursos públicos.

Os vencimentos dos trabalhadores da cadeia formada por montadoras de veículos e sistemistas que as abastecem diretamente, dos trabalhadores de autopeças de menor porte e de trabalhadores industriais de outros setores menos nobres, dividem a mão de obra da região em três categorias socioeconômicas distintas no setor industrial.

Contaminação regional

Mas é o efeito-contaminação que provoca estragos ainda maiores.  Já se foi o tempo em que empreendedores em geral procuravam seguir de perto os valores médios mensais de vencimentos salariais dos trabalhadores de montadoras e grandes autopeças. O preço pago foi elevado também para trabalhadores e empresários dos demais setores. Descobriu-se depois de muito sofrimento que a realidade salarial e de conquistas trabalhistas nas montadoras de veículos e autopeças que giram no entorno imediato é inalcançável. Não existe a menor possibilidade de concorrência.

Os anos do governo petista em Brasília também afetaram o bom senso do comando do Paço de São Bernardo. Nunca é demais enfatizar que o prefeito Luiz Marinho é protegido dileto do ex-presidente Lula da Silva. Quando a maré sobe, bom para São Bernardo e também para a região. Mas a degringolada petista afeta duramente a realidade regional.

O Museu do Trabalho e do Trabalhador, no entorno do Paço Municipal, é prova provada do quanto o empoderamento petista afetou o discernimento. A obra ainda está longe de ser concluída, depois de prolongada paralisação, mas se configura atentado ao marketing institucional de São Bernardo. Ao simplesmente esquecer o outro lado das relações trabalhistas – os empreendedores – o Museu do Trabalho e do Trabalhador exala preconceito -- e, também por isso, ajuda a consolidar a imagem de uma região avessa ao capitalismo. Como esperar por investimentos privados ante tamanho descaso?

Quem tiver o cuidado de indagar a algum sindicalista a exclusividade  trabalhista na denominação do museu ouvirá algum discurso puramente ideológico. A obra só será integralmente nociva à região caso se consolide como objeto de curiosidade popular, porque expandiria a ideia de que o enriquecimento de São Bernardo se deve apenas a quem trabalhou. Quem gerou emprego não entra na conta.

Narrativa ideológica

Com a maior parte dos recursos financeiros distribuído pelo governo federal – inclusive nos últimos dias do governo de Dilma Rousseff antes do afastamento inicial pelo Senado – o Museu do Trabalho e do Trabalhador deverá se converter em homenagem permanente ao ex-sindicalista e ex-presidente Lula da Silva – e naturalmente uma extensão do Partido dos Trabalhadores e da Central Única dos Trabalhadores.

A narrativa do desenvolvimento econômico e social de São Bernardo seria unilateral. Os capitalistas de grande, médio e pequeno porte não terão vez na arquitetura com que o museu foi preparado.

O curral sindical e eleitoral dos petistas e dos cutistas da região está centralizado nas montadoras de veículos. Preservar os empregos nas grandes companhias, mesmo à custa das pequenas e médias indústrias, é uma maneira confortável de sustentar uma vitrine da retórica que dá visibilidade às lideranças sindicais. As facilidades que os sindicalistas encontram para colocar o bloco na rua em protestos – basta pressionar pela liberação dos trabalhadores e concentrá-los todos na Rodovia Anchieta – emitem sinais de uma grandeza que já não é mais real.

A Anchieta é uma passarela tão à mão e tão escancarada à mídia em geral que não existe custo logístico para os grandes protestos. Mas não há como disfarçar que os tempos estão bicudos. Depois de tantos escândalos petistas, arregimentar trabalhadores para manifestações virou quase uma ação coercitiva.

Possivelmente os sindicalistas da CUT que atuam diretamente nas grandes e médias metalúrgicas da região, sobretudo em São Bernardo, ainda não caíram na real de que terão de preparar-se mais e mais para as desventuras que estão aí. A produção automotiva despenca ano a no. A perspectiva de que o Brasil chegaria a produzir cinco milhões de veículos ao ano virou pesadelo.

Proteção aos grandes

Nesta temporada não chegará nem à metade desse número. A queda de 26% na produção em 2015 poderá se repetir neste ano, conforme indicam os dados do Clube das Montadoras (Anfavea). Falta dinheiro na praça. Faltam empregos. Falta confiança dos consumidores. Tudo bem diferente dos anos dourados do presidente Lula da Silva. Sobravam empregos, confiança e facilidades de crédito.

O fracasso na implantação do PPE (Programa de Proteção ao Emprego) mostra o quanto o sindicalismo da região, que lutou pela medida, está fora do passo da modernidade. Somente algumas grandes corporações e poucas pequenas empresas aderiram a essa ferramenta adaptada do modelo alemão. Prevista para durar alguns meses apenas, a medida já se esgotou. Faltou combinar com os russos, no caso os resultados da Economia do País, que insistem em movimentos de queda.

O prolongamento da derrubada do PIB interveio como barreira não só à multiplicação do PPE como também à manutenção daquelas empresas que aderiram ao projeto. A grande massa de empreendedores, formada por pequenos industriais, praticamente não se beneficiou dessa nova intervenção estatal no mercado de trabalho e nas relações comerciais das empresas.

Há parafernália de condicionantes tributários e fiscais que elimina a possibilidade de empresas endividadas perante o Fisco ter ingresso aprovado.

Como são bem aparelhadas para contornar os obstáculos, as grandes corporações aumentam ainda mais o poder de fogo nas negociações comerciais com as pequenas. Os efeitos do estrangulamento das margens de rentabilidade das pequenas empresas não demoram a mostrar as garras ao elevarem ainda mais o grau de endividamento e de desemprego. No mundo da Economia as mágicas não costumam durar para sempre. Tirar da cartola o coelho da procrastinação dos duros golpes macroeconômicos é um gesto que se esgota na exata medida em que desqualifica os responsáveis.

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