Sociedade

Clube dos Construtores vai
apagar ranço autoritário?

DANIEL LIMA - 24/06/2016

Vou dar uma sugestão (e não fazer um pedido) aos novos dirigentes (ao que parece revolucionários) do Clube dos Construtores do Grande ABC: apaguem um dos ranços de autoritarismo do famigerado ex-presidente Milton Bigucci, que durante 25 anos levou a instituição ao fundo do poço.

Que sugestão?  Ajam com bom senso e ao mesmo tempo não tenham modéstia sobre tudo o que já fizeram em apenas seis meses e requeiram ao Judiciário do Santo André a extinção da ação criminal (isto mesmo, ação criminal!) que o ex-dirigente moveu contra este jornalista. Tudo porque escrevi várias vezes -- e escreverei sempre, porque constatação não é invenção -- ao me referir à longevidade presidencial dele. Escrevi e escreverei sempre que o Clube dos Construtores era mequetrefe, inútil, sem representatividade e nada transparente.

Sim, senhores leitores e leitoras: cometi o crime de escrever a verdade que a quase totalidade dos construtores, incorporadores, corretores de imóveis e administradores cansou de repassar em lamúrias aos meus ouvidos como fontes insuspeitas. Discorri analiticamente sobre a atuação do Clube dos Construtores, num contexto histórico, como o fiz e faço com tantas outras instituições. Aliás, como o faço agora, me referindo à atuação da nova diretoria, presidida por Marcus Santaguita.

Os dirigentes da entidade, mais do que ninguém, sabem que tudo que este jornalista expôs à sociedade sobre o mercado imobiliário -- temática de interesse público porque envolve milhões de cidadãos -- foi até café pequeno sobre as lambanças de gestão do ex-presidente.

E olhem que a ação criminal movida por decisão de Milton Bigucci em julho de 2013, em meio a outras ações judiciais pessoais do famigerado empresário, ainda não estava fortemente contaminada pela espetacular trombada ética e moral que o autor sofreu após os escândalos em que se envolveu como presidente do conglomerado MBigucci.

Os novos dirigentes do Clube dos Construtores não me devem nada porque estou a escrever desde algum tempo que aquela organização coletiva finalmente está no caminho certo, da descentralização e eficiência diretivas associadas a olhar mais preocupado com a sociedade.

A preparação de planejamento de uso e ocupação do solo para ser apresentado aos prefeituráveis, estudos para a constituição de um Código de Ética, reuniões e mais reuniões setoriais envolvendo todos os ramais da construção civil na região, parcerias com entidades e muitas outras atividades, além de mais que duplicar o número até então esquálido e insustentável financeiramente de associados, tornam o Clube dos Construtores um ensaio geral do que imagino como força revolucionária a catalisar outras organizações empresariais e sociais. Aliás, como tenho analisado insistentemente neste espaço, quase todas as demais instituições da região encontram-se em estágio semelhante ao do Clube dos Construtores sob o arbítrio de Milton Bigucci. Ou seja: requerem tempestade de mudanças.

Grito de liberdade?

Embora vários dirigentes do Clube dos Construtores tenham se manifestado favoráveis à retirada da inacreditável ação criminal assinada pelo famigerado empresário Milton Bigucci, não acredito que, em eventual reunião de diretoria, seja solto o grito de liberdade em favor de um jornalista que ajudou na construção da nova realidade.

Duvido, por razões basicamente de coerência, que o Clube dos Construtores dê um basta público significativo às arbitrariedades de Milton Bigucci e da diretoria que comandava até o final do ano passado.

Há temores mais que justificáveis de retaliações. Milton Bigucci construiu imagem de coronelismo no setor imobiliário, do qual usufrui intensamente. Poucos ousam enfrentá-lo em qualquer campo. A mídia lhe é inteiramente permissiva, apenas com alguns espasmos sazonais de liberdade de imprensa, subordinadíssima à liberdade financeira.

Seria demais esperar, portanto, que uma maioria de dirigentes tenha a coragem de explicitar a verdade insofismável de que são melhores, individualmente e no conjunto, que seus antecessores naquela entidade.

Então, por mais kafkiano que pareça, embora pudessem exercitar com a medida judicial uma fantástica prova de que vieram para dar nova cara e insumos à direção do Clube dos Construtores do Grande ABC, os novos dirigentes prefeririam o caminho discreto da omissão sobre as mudanças. Tudo porque os rescaldos não seriam satisfatórios aos relacionamentos internos e também aos negócios. Afinal, além de Milton Bigucci ainda constar da relação de dirigentes, como integrante do Conselho Deliberativo, um herdeiro dele faz parte da diretoria executiva.

O ambiente bigucciano continua no Clube dos Construtores, embora quase que inteiramente diluído pela força natural do conjunto produtivo e nada estelar dos dirigentes que se somaram ao presidente Marcus Santaguita.

Criminoso social

Sou considerado criminoso porque exercito com responsabilidade uma atividade jornalística crítica quase isolada nesta Província.  Aqui o jornalismo virou em larga escala um departamento de press-release e de relações públicas das forças de pressão -- tal o estado de penúria financeira da maioria dos veículos de comunicação.

O que mais querem os bandidos sociais desta praça (bandidos sociais são aqueles que ignoram os interesses públicos em favor de um individualismo egocêntrico) é botar um paradeiro nas atividades deste profissional. Milton Bigucci especializou-se nessa tarefa ao multiplicar ações judiciais utilizando a semântica como artimanha nem sempre detectada pelo Judiciário.

Entretanto, sobre as denúncias de que participou de várias irregularidades, segundo denúncias do Ministério Público da região e da Capital, e também no escândalo do Marco Zero, empreendimento construído em terreno fraudado em licitação pública, o famigerado empresário jamais teve a ousadia de inquirir este jornalista.

O Clube dos Construtores do Grande ABC tem, portanto, oportunidade especial de provar até que ponto está liberto das garras do passado de autoritarismo do ex-presidente Milton Bigucci. Se, entretanto, nada fizer para acabar com o abuso da queixa crime, não alterará em nada minha confiança de que dará prosseguimento às novas perspectivas e realizações da entidade, as quais transmito sempre condicionado ao interesse público.

Se me pusesse a escrever preocupado com eventuais desdobramentos criminais movidos por aqueles que não querem ser incomodados ou com eventuais reconhecimentos daqueles com os quais contribuo com informações e análises, certamente seria um jornalista de segunda classe.



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