Sociedade

Instituições da região receberam
cartão vermelho há muito tempo

DANIEL LIMA - 28/07/2016

Somente os mal informados, os deformados, os capciosos, os malandros juramentados, os ignorantes, os patetas, os impuros, os sabujos e tantos outros tipos de leitores, minoria desta publicação digital, acreditam que as criticas que endereço à maioria das instituições da região são recentes, motivadas por alguma coisa que fuja da bitola do jornalismo com interesse social.

Esse pessoal maledicente deveria fazer  visitas permanentes aos arquivos desta publicação – que incorpora parte do mais precioso insumo histórico da revista LivreMercado – para constatar que não é de hoje que a vaca da institucionalidade regional foi para o brejo diante de uma plateia acovardada. Constatação pública deste jornalista? Principalmente, mas compartilhada por formadores de opinião.

Em abril de 2011 -- portanto há mais de cinco anos -- escrevi o artigo “Entidades empresariais, sindicais e sociais recebem cartão vermelho”. Vou transcrever alguns dos primeiros trechos da matéria para, de bate-pronto, mostrar que não estou exagerando no tom da abertura deste artigo propositadamente vigoroso. Leiam: 

 Quer saber como os representantes dos formadores de opinião do Grande ABC avaliam as entidades empresariais, sindicais e sociais? Foi o que fizemos quando produzimos amplo questionário e o enviamos ao Conselho Editorial da revista CapitalSocial. Dos 123 conselheiros, 113 responderam à consulta. E os resultados continuam a ser revelados. As entidades que lidam com o capital, com o trabalho e com o social estão reprovadas. Sumariamente reprovadas. Receberam cartão vermelho por inapetência em atender aos requisitos de responsabilidade social. Nada que surpreenda. Há muito tempo bato na tecla de que não temos institucionalidade, não temos paixão regional, não temos algo que possa ser chamado de bairrismo saudável, de briga pelo espaço regional sem manchas passadistas.

Rebaixamento geral

Agora, avançando naquele texto, vamos finalmente aos resultados da consulta com formadores de opinião da região:

Qual sua avaliação sobre as entidades de classe empresarial no Grande ABC: 

 São bastante efetivas e promovem grandes ações regionais: 14%. 

 São apenas corporativas, olham para o próprio umbigo: 68%.

 São extremamente improdutivas, inclusive no sentido corporativo: 18%.

Qual sua avaliação sobre as entidades sindicais do Grande ABC: 

 São bastante produtivas para o conjunto da sociedade: 8%. 

 Estão muito aquém do que a sociedade regional necessita: 65%. 

 Cuidam exclusivamente de seus próprios interesses: 27%.

Como observa as entidades sociais do Grande ABC (exceto empresariais e sindicais): 

 São extremamente participativas e integrativas com o conjunto da sociedade regional: 35%. 

 Não saem dos próprios casulos, sem se incomodar com a sociedade: 45%. 

 Estão absolutamente inertes, inclusive intestinamente: 14%.

Voltando ao passado

Agora, acompanhem o que escrevi há mais de cinco anos sobre os resultados apontados: 

 A conclusão a que se chega é simples, sem reducionismos maniqueístas: as entidades empresariais e sindicais receberam cartão vermelho sem pestanejar, enquanto as entidades sociais foram primeiramente advertidas com o cartão amarelo, para depois serem expulsas do campo da responsabilidade social. Qualquer interpretação diferente do que transpiram os dados dos conselheiros editoriais de CapitalSocial não passa de diversionismo. Confesso que estou mais que satisfeito com os resultados destes três quesitos, que integram quase duas dezenas de questões, porque sinto que a sociedade formadora de opinião está amadurecida e, mais que isso, cansada do proselitismo vadio de supostas lideranças que não lideram coisa alguma porque de fato pretendem apenas se locupletarem de organizações mais que tradicionais, tomando-as como plataformas de investidas pessoais e grupais. (...) Quando a sociedade do Grande ABC vai refletir o senso crítico dos formadores de opinião de CapitalSocial espalhados em mais de 2,5 milhões de habitantes? Os percentuais que medem a pulsação de comprometimento das entidades empresariais, sindicais e sociais do Grande ABC com o conjunto da sociedade são autoexplicativos. Acompanhá-los e compará-los parecem atitudes suficientes à compreensão do grau de provincianismo e de mandonismo que enfrentamos nesse processo de permanente esclerosamento regional, que tem origem nos pecados municipais. Jamais chegaremos sequer a resvalar em conceitos de regionalidade produtiva se o núcleo de transformações no âmbito municipal não forem estilhaçados.

Explicando o passado

Perguntariam os leitores a troco de que estou voltando ao passado daquele texto. Primeiro, porque, infelizmente, o passado se agravou no presente. Se havia a possibilidade de um grupo pequeno representar exceção à parte daquela hecatombe de cidadania corporativa, o que tivemos nos últimos anos foi uma catástrofe. Segundo, porque esse é um temário recorrente no interior do guarda-chuva da regionalidade que é o mantra desta revista digital. Sem esmiuçá-lo sistematicamente, em forma de especificidades de umas e outras entidades, ou mesmo coletivamente, daremos sinais de fraqueza que contribuiriam a desajuste ainda mais acelerado.

Tenho comigo uma maioria de críticos silenciosos do quadro regional. Nossas instituições, salvo honrosas exceções, estão a centenas de metro da superfície de comprometimento social que se exige de quem ocupa postos de interesse público. E seus dirigentes não são mineiros, que labutam nas profundezas da terra, longe dos olhares da sociedade. São na maioria dos casos omissos juramentados, mandachuvas e mandachuvinhas.



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