Economia

Mercedes dá bolada por
demissão e ninguém reage

DANIEL LIMA - 12/09/2016

O leitor é rápido no gatilho de conhecimento mínimo da economia da Província do Grande ABC? Então, vamos fazer um teste rápido, bem rápido. Faço a seguinte indagação e ofereço, na sequência, algumas alternativas, entre as quais apenas uma está correta. A pergunta é a seguinte: existe algo pior que uma empresa, no caso a multinacional Mercedes-Benz, oferecer uma bolada de R$ 100 mil de bonificação, fora os direitos trabalhistas, para se livrar de 1,4 mil trabalhadores em São Bernardo? Agora, as alternativas:

a) O sofrimento dos palmeirenses que, nas redes sociais, têm de suportar a ausência de um titulo mundial.

b) Ver o Corinthians pós-Tite virar um time como a quase totalidade da Série A do Campeonato Brasileiro, ou seja, entre a mediocridade e o desalento.

c) Acreditar que Dilma Rousseff, a insuperável, não cometeu barbaridades fiscais para ganhar as eleições de 2014.

d) Nenhuma das anteriores.

Quem optou pela quarta alternativa acertou em cheio. Pior que a Mercedes-Benz ter oferecido uma nota preta para se livrar de tantos trabalhadores foi o desenlace – faltaram mais de 400 funcionários para preencher a lista de demissões.

A tradução é tão óbvia quanto escandalosa: se, mesmo sentindo que o ambiente nas empresas está pra lá de periclitante diante da maior crise econômica da história do País, muitos trabalhadores não querem nem saber de trocar o incerto com carteira assinada pelo duvidoso bem premiado, está evidenciado que a situação é mais grave do que se imagina.

O caso Mercedes-Benz escancara a realidade regional no campo econômico. Estamos ferradíssimos depois de uma lua de mel temperada a viagra consumista nos últimos anos do governo Lula da Silva e dos danos fiscais da gestão Dilma Rousseff. Nossos indicadores econômicos são sofríveis.

O desemprego campeia. Fábrica fecham. Pequenos negócios desaparecem. Somos o centro da crise nacional porque o peso da indústria nas matrizes econômicas locais é muito maior. Nosso PIB industrial é três vezes maior que a média nacional. É natural que a crise segue a mesma proporção.

Se correr o bicho pega

Para uma empresa chegar ao ponto de pagar tanto para melhorar os balanços no médio prazo e para os trabalhadores não aderirem em massa à oportunidade de ganhar uma dinheirama, só existem duas explicações: na empresa, a baixa produtividade é tamanha que precisa ser estancada pelo corte de pessoal e, entre os trabalhadores, a desconfiança de que não encontrarão colocação no mercado de trabalho fora daquele ambiente em convulsão. 

O pano de fundo dessa situação já foi triturado neste espaço, mas não custa nada repetir: o ambiente produtivo regional, permeado por um sindicalismo metalúrgico -- principalmente metalúrgico, mas não só metalúrgico -- sob o controle da CUT (Central Única dos Trabalhadores) condena muitas fábricas à desativação gradual e incontornável. Clarões se abrem e continuarão a se abrir. Teremos mais templos religiosos, estacionamentos de veículos, invasões de sem-teto e sem-terra, essas coisas que expressam a decadência de um território.

Os milagres consumistas de Lula da Silva não se repetirão no setor automotivo. A previsão é de longo inverno. Nem em cinco anos retomaremos níveis de produção e venda que ultrapassaram 3,5 milhões de veículos/ano. Passaremos por dieta rigorosíssima.

A Mercedes-Benz e as demais montadoras da região, brutamontes do setor, sabem que o modelo que está aí, de protecionismo mesclado com exportações para a América Latina igualmente decadente, apenas sacramenta a baixa competitividade. 

Entrevista providencial

Numa entrevista nas páginas amarelas da revista Veja desta semana, o presidente da Mercedes-Benz, Philipp Schimer, diz coisas que não são comuns no meio automotivo -- entre outros motivos porque se temem represálias sindicais. Mas, mais do que dizer, deixou nas entrelinhas o recado mais preocupante para quem depende da Província do Grande ABC para acalentar sonhos pessoais e familiares.

Perguntado sobre o fato de a Mercedes-Benz oferecer R$ 100 mil reais a cada funcionário que aceitar desligar-se da empresa voluntariamente, e, no complemento, a razão de valor tão elevado, o comandante da multinacional disse o seguinte, nos últimos parágrafos da resposta: 

 (...) Mas é um acordo possível para as duas partes. Sempre digo que o que pode ser acertado em um acordo é algo bom. E o que pode ser feito por dinheiro é barato. Porque, se acaba em briga, sai mais caro.

O que quis dizer o dirigente da Mercedes-Benz? O que a totalidade dos empresários e executivos de indústrias sediadas principalmente em São Bernardo afirma intramuros, ou seja, entre seus pares: por pior que seja um acordo com os mandachuvas dos metalúrgicos, sempre será melhor que ver a resistência operacional da empresa passar por estresses contínuos, em detrimento do negócio ao longo dos tempos.

Empresas sequestradas

Traduzindo: os metalúrgicos que infestam as empresas de grande e médio porte de São Bernardo com células ramificadas da direção do sindicato em forma de comitês de fábricas são torturantes ao desenvolvimento dos negócios. Eles são doutrinados a práticas de produção socialista que só não viraram museus no Primeiro Mundo porque o Primeiro Mundo prefere jogar no lixo procedimentos semelhantes.

Os alemães tão venerados pelos sindicalistas da região são extremamente competitivos dentro e fora das fábricas, como explicou o dirigente da Mercedes-Benz na entrevista que os esquerdistas certamente abominarão. Por isso eles, os alemães, podem se dar ao luxo de, em situações muito especiais, e breves, lançarem mão de programas de proteção ao emprego. Aqui o PPE foi um disfarce sindical para fortalecer os laços de bastidores com as montadoras de veículos.  Só não contavam com a extensão da crise, claro.

Para ser mais claro, reto e direto ainda: as empresas da região, notadamente sob o fogo cruzado socializante dos cutistas, sofrem o que poderia ser chamado de chantagem produtiva. Os empresários pensam que são donos dos negócios, mas quem os controlam com mão de ferro e garganta de aço são os sindicalistas dos comitês de fábrica.

O prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, principal cultivador da politica de invasão das fábricas em forma de comitês, jamais aceitou algo análogo na direção do Paço Municipal, embora neste caso a medida fosse indispensável. É o dinheiro do contribuinte que está em jogo a cada decisão. Mais que não aceitar um comitê de contribuintes com capacidade de fiscalização, Luiz Marinho sempre deu de ombros à sugestão de criar uma Controladoria-Geral independente.

Ainda sobre a entrevista do representante da Mercedes-Benz, chamaram a atenção os parágrafos nos quais deixa evidente descontentamento com os petistas que estiveram no comando do País até recentemente. Leiam: 

 Minha sensação agora é que as pessoas que fazem parte do novo governo estão mais preocupadas com os problemas do que com a ideologia. O Brasil precisa decidir: queremos seguir o caminho da Venezuela ou da modernidade? O caminho para a modernidade não é fácil, mas as chances de que haja um crescimento sustentável depois são muito grandes, porque o potencial no país é enorme. A situação está tão ruim que se não forem tomadas providências agora, as consequências serão fatais. Isso é muito claro. A indústria no Brasil está à beira da morte. Talvez nem todos tenham entendido a gravidade da situação, mas a discussão está começando.

Retrato conhecido

Leram? Pois é: não é este jornalista que, mais uma vez, retrata o quadro regional e nacional. É o presidente de uma das maiores companhias multinacionais do Brasil. Os parágrafos reproduzidos acima também constam do final da entrevista à revista Veja. São complementos do que dissera um pouco antes. Vamos retroceder, então, para que o entendimento seja completo. Vejam o que ele disse: 

 A indústria brasileira corre o risco de ser extinta. Do jeito como as coisas estão, nenhuma indústria – e não apenas o setor automotivo – vai ter futuro no Brasil. Não é possível ser competitivo com um mercado fechado. Com o novo governo, esperamos, será mais fácil conversar do que com o anterior, que era conservador e protecionista. A inflação voltou, os juros tiveram de subir também. Quem vai comprar caminhão ou ônibus com 14% de juros? Quem faz um investimento? A decisão de compra no nosso setor tem a ver com matemática. É investimento. Vai trazer retorno? Se tenho confiança no futuro, eu invisto. Se não tenho e o investiment5o é alto, não compro. Com economia em queda e desconfiança em alta, como tomar decisões para os próximos três, quatro, cinco anos? É muito difícil. Em 2011 o mercado de caminhões chegou a ser de 170 mil unidades vendidas em um ano. Agora está em 50 mil. A idade média da frota de caminhões é vinte anos, enquanto na Alemanha é sete. O mercado é promissor, mas será uma recuperação lenta, afirmou Philipp Schimer.

A entrevista do executivo da Mercedes-Benz à revista Veja tem muito mais. Foge completamente do lugar quase comum do noticiário dos jornais sobre a indústria automotiva no País, recheado de informações protocolares e de endeusamento dos sindicalistas. Lula da Silva não é obra do acaso. Replicantes sem as mesmas supostas qualificações de oratória, inteligência e esperteza.

O jornalismo brasileiro, acrítico e anticapitalista no noticiário sindical comandado na linha de frente por combatentes esquerdistas, é a maior incubadora do atraso econômico. Algo de que não se dão conta os editorialistas, sempre no conforto de uma retaguarda passiva, a tentar corrigir descaminhos já instalados e consumados.



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