Quem imagina que estratégias de desenvolvimento sustentável estão ao alcance apenas de grandes metrópoles precisa conhecer Rafard, pequena cidade de 8,5 mil habitantes a 130 quilômetros de São Paulo, na região administrativa de Campinas. Sem se deixar inferiorizar pelo contingente populacional modesto e pelo orçamento de apenas R$ 9 milhões, equivalente a menos de 1% dos R$ 956 milhões previstos para Santo André neste ano, Rafard (lê-se Rafár) adotou plano ambicioso para se transformar em pólo de motopeças.
Oito fornecedores de componentes para motocicletas já decidiram se instalar e outros estão a caminho. “Vamos atrair pelo menos mais 10 empresas do segmento nos próximos meses” — garante o secretário de Indústria e Comércio, Airton Trajano Júnior.
A iniciativa da diminuta Rafard oferece grande lição ao Grande ABC e municípios da Região Metropolitana de São Paulo ávidos por referenciais de fortalecimento socioeconômico. O fator logístico é importante, mas precisa estar conectado a outras condições de competitividade locacional, conforme constatado no primeiro evento do Ciclo de Debates Metropolitanos promovido pelas editoras Livre Mercado e Capital Social com apoio do IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos).
Região estratégica
Rafard ocupa posição geoeconômica vantajosa a 60 quilômetros de Campinas, mas a acessibilidade proporcionada pelas rodovias Anhanguera e Bandeirantes está longe de ser o maior atrativo. Como se a logística fosse mero detalhe, a cidade oferece distrito industrial com infra-estrutura básica a custo reduzidíssimo em relação aos terrenos supervalorizados da Grande São Paulo: o metro quadrado sai entre R$ 1,80 e R$ 2,50.
Além disso, a oportunidade de se instalar ao lado de empresas do mesmo segmento abre inúmeras possibilidades de redução de custos e maximização de resultados em setores como transporte, treinamento e contratação de serviços de manutenção. “Poderemos compartilhar caminhões para recebimento de matérias-primas e entrega de produtos acabados nos pontos-de-venda, o que reduzirá muito as despesas com frete” — exemplifica o empresário Alberto Frigeri, diretor da AF Frigeri, fabricante de filtros de ar sediada em Jundiaí que será transferida até o final de 2005.
As vantagens competitivas proporcionadas pela ocupação industrial tematizada foram vislumbradas pelo secretário Airton Trajano, que concebeu o projeto do pólo de motopeças após observar de perto o funcionamento dos chamados clusters produtivos durante os quatro anos em que viveu nos Estados Unidos.
Geração de emprego
Por que a opção por um pólo de motopeças? “É um setor predominantemente de pequenas e médias empresas pouco automatizadas e que geram muitos empregos” — responde Trajano, que projeta criar de 800 a mil postos de trabalho e incrementar em 50% a arrecadação municipal nos próximos dois anos.
Além da AF Frigeri, já adquiriram terrenos e têm planos de se transferir para Rafard empresas como Motobor, de Caieiras, Denatec e Danidrea, de São Paulo, Plasmatec, de Santos, e Metalúrgica Tecnometal, de Santo André. “Buscamos principalmente tranquilidade e qualidade de vida. Aqui vivemos assustados com a criminalidade, pois tivemos caso de sequestro na família” — comenta Edvaldo Souza Diniz, diretor da Tecnometal, que produz componentes para capacetes e autopeças com 63 funcionários. Edvaldo garante que a distância não atrapalhará os negócios. “Pelo contrário. Praticamente todas as fábricas de capacetes para as quais fornecemos estão no Interior de São Paulo” — explica.
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