Economia

Qualidade deixa
preço para trás

VERA GUAZZELLI - 05/07/2004

Quase um ano e meio após o início dos entendimentos entre a Ecosama e o Pólo Petroquímico de Capuava para fornecimento de água de reuso, as negociações estão prestes a mudar de rumo. Se antes o preço da água industrial dominava o debate e parecia ser fator decisivo para definir a viabilidade comercial da empreitada, agora os aspectos qualidade e disponibilidade sobem ao topo das exigências.


Conforme LivreMercado antecipou na edição de maio último, as petroquímicas preferem pagar mais caro do que não ter água, e descartam delegar a terceiros o tratamento final do líquido que utilizam na produção. Com isso, a Ecosama — concessionária do Projeto Sanear de coleta e tratamento de esgoto em Mauá — já começa a rever os investimentos na Epai (Estação de Produção de Água Industrial). Isso porque seu maior futuro cliente pretende adquirir apenas água pré-tratada para ser finalizada dentro do próprio pólo petroquímico. 


A decisão foi comunicada à Ecosama em meados do mês passado por meio de carta assinada por 11 empresas do pólo e a conseqüência imediata foi o atraso de quase dois meses no início das obras da Epai em terreno localizado no Bairro Capuava, a pouco mais de 300 metros do pólo. A concessionária havia solicitado crédito de R$ 87 milhões à Caixa Econômica Federal e reformulou o pedido para R$ 60 milhões porque precisará de menos investimentos para produzir a água de menor valor agregado solicitada pelas petroquímicas. 


Como o produto que as indústrias querem comprar é diferente do que a Ecosama pretendia vender, houve necessidade de readequar a documentação. “Continuamos a afirmar que temos condições de produzir a água industrial na especificação mais sofisticada que o pólo precisa. Por isso, é uma pena alterar o projeto original” — lamenta o diretor da Ecosama, Dagoberto Antunes da Rocha. 


Projeto técnico 


A Ecosama elaborou o projeto técnico da estação Epai em parceria com a PPM, consultoria comandada por profissionais que integram o Centro Internacional de Referência em Reuso de Água da Universidade de São Paulo. Também elegeu como fornecedora de equipamentos e tecnologia a americana Parkson, uma das maiores do mundo no segmento. Mesmo assim, as petroquímicas consideram mais prudente investir entre R$ 40 milhões e R$ 50 milhões para manter o processo final dentro das estações de tratamento instaladas na Refinaria de Capuava da Petrobrás. 


A carta enviada à Ecosama esclarece que as empresas do pólo petroquímico assumem o compromisso de comprar o efluente secundário produzido pela Epai e mantém, embora de forma menos contundente, a intenção inicial de colocar as petroquímicas como principais compradoras da água industrial. O documento, no entanto, descarta qualquer tipo de exclusividade ao informar que a Ecosama dividirá esse fornecimento com a Sabesp e que a quantidade a ser solicitada a cada uma das empresas dependerá do trinômio qualidade-cumprimento de prazo de entrega-preço. 


O que não está escrito, mas fica implícito, é que as petroquímicas não querem ficar dependentes de uma única empresa em quesito tão primordial. O coordenador de novos projetos da Petroquímica União, Jorge Rosa, foi enfático ao afirmar que o fornecimento desse insumo não pode ficar nas mãos de um terceiro, principalmente de empresa sem experiência comprovada no ramo. 


Experiência comprovada


O recado foi endereçado à Ecosama, já que a concessionária não tem currículo de fornecimento de água de reuso. A empresa foi montada há menos de dois anos pelo construtora Gautama, da Bahia, para atender as exigências da licitação do Projeto Sanear em Mauá. Dagoberto Antunes da Rocha garante que, apesar de ser a primeira incursão da construtora na área, o corpo técnico da Ecosama tem know-how médio de duas décadas em saneamento básico e que essa experiência pode ser comprovada tanto pela escolha das empresas-parceiras — todas referência no setor — quanto pela transparência das decisões tomadas. “A Epai começa a operar com 530 litros de água por segundo, 210 a mais que o consumo do pólo, justamente para garantir a disponibilidade do abastecimento” — garante Dagoberto Rocha. 


Disponibilidade e preço


Mesmo que a qualidade e a disponibilidade da água industrial tenham alcançado mais importância nesse debate, o fator preço não deixa de ser preponderante. A Ecosama estima vender a água solicitada pelas petroquímicas a R$ 1,20 o metro cúbico. Caso fornecesse o líquido pronto, o preço saltaria para R$ 2,20. 


Mesmo que a diferença alcance 83%, a concessionária garante que ficaria mais barato do que fazer investimentos nas estações próprias ou no Aquapolo, espécie de plano B das petroquímicas que prevê captar água no Rio Tietê, em Suzano, também para tratamento nas estações próprias. Os cálculos levam em conta os investimentos e o tempo necessário para amortizar esses valores. “É difícil para o pólo conseguir um custo mais atrativo que o nosso” — desafia Dagoberto Antunes da Rocha.


De qualquer forma, a utilização da água de reuso não vai diminuir o preço pago por uma matéria-prima fundamental para fazer funcionar, por exemplo, caldeiras de alta pressão. As petroquímicas já sabem que a opção pela água industrial vai elevar entre 50% e 70% o custo desse insumo e que essa é a conta a ser paga pela garantia de abastecimento ininterrupto que dê conta da produção atual e dos planos de expansão estimados em US$ 300 milhões. 


As petroquímicas da região consomem um mar de 320 litros por segundo de água e entre 10% e 30% desse total ainda é potável. O restante é captado no Rio Tamanduateí e posteriormente tratado pelo pólo, mas a poluição e o volume insuficiente de água nos períodos de estiagem têm dificultado cada vez mais esse trabalho.


Por isso, as empresas correm contra o tempo. A Ecosama calcula que em dois anos e meio, no máximo, seja possível colocar a estação Epai em operação. As obras de terraplenagem da área de 45 mil metros quadrados em Capuava devem ter início no próximo mês, período também estimado para liberação do financiamento da Caixa Econômica Federal. Esse prazo, no entanto, poderia ser reduzido para 18 meses caso houvesse acordo para que a Ecosama operasse as estações já existentes no pólo. A proposta foi colocada há quase um ano, mas as conversas não evoluíram. 


Diferenças resistirão


Dessa forma, fica praticamente descartada a idéia de que as petroquímicas da região conseguirão pagar pela água o mesmo que os concorrentes da Bahia e do Rio Grande do Sul. Os pólos petroquímicos dos dois Estados captam água pouco poluída e nesse item têm custo duas vezes menor em comparação com o Grande ABC. Quando as empresas passarem a utilizar somente água de reuso, a diferença poderá chegar a cinco vezes, o que coloca a modernização tecnológica e de processos, a logística e a proximidade com a Grande São Paulo como fatores primordiais para garantir a competitividade do pólo regional.


As empresas do pólo representam 48% da arrecadação de ICMS em Mauá. A produção de água industrial sempre esteve no olho do furacão do Projeto Sanear porque é a pilastra comercial do plano que foi formatado para solucionar também a questão do saneamento básico da cidade. Mas as obrigações contratuais da Ecosama vão além das negociações com o pólo petroquímico. Sem dinheiro para construir os 25% de rede de esgoto que ainda faltam na cidade, Mauá decidiu conceder à iniciativa privada a captação e o tratamento do esgoto doméstico em troca também dessas obras. 


A concessionária Ecosama ainda é responsável pela manutenção de toda a rede de esgoto já instalada na cidade e terá de despoluir o Rio Tamanduateí com a construção de interceptores e coletores. Os primeiros resultados desse trabalho já podem ser vistos no quilômetro inicial do rio a partir da nascente, na Gruta de Santa Luzia. O próximo passo é despoluir os vários riachos do Jardim Guapituba que desembocam no córrego Capitão João.


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