O encaçapamento do ex-presidente Lula da Silva pela força-tarefa da Operação Lava Jato completa o circo de horrores da Província do Grande ABC em um quarto de século de persistente degringolada. Estamos vivendo longo e tempestuoso período. Chamar essa etapa de Sete Pragas da Província não é exagero nem terrorismo. Até porque nada indica que as durezas do prélio serão amenizadas nos próximos tempos. Tudo sugere, aliás, que haverá recrudescimento. Avanços eventuais numa ou noutra direção não obstarão a escuridão de novos aprofundamentos deletérios.
Para tornar esse texto relativamente didático, de fácil compreensão, porque há leitores que precisam de tudo mastigadinho, listo as Sete Pragas da Província:
1. Crise Econômica
2. Crise Sindical
3. Crise Institucional
4. Crise Política
5. Crise Social
6. Crise Judiciária
7. Crise Midiática
Pretendia rotular de apagões os sete macroproblemas da Província. Apagão Econômico, Apagão Sindical e assim por diante. Mudei de ideia. Apagão pressupõe temporariedade breve. Crise, crise, crise é algo mais sólido, mais desafiador, mais cristalizado, mais tudo. Quando há crises sobrepostas, interdependentes, a transformação em pragas não é algo abominável. Tampouco desprezível. Diria que é providencial. A sociedade desorganizada da região precisa passar por choques anafiláticos de informações. O noticiário rastaquera e adocicado só ajuda a contemporizar o que é de gravidade extrema.
Vou ser breve na exposição de cada uma das Sete Pragas da Província. Poderia discorrer longamente sobre cada temática, mas neste momento e neste espaço não seria adequado. A sociedade consumidora de informações precisa, nestes tempos pré-eleitorais, de algo mais ligeiro à compreensão. Até mesmo para que entenda melhor o sentido de ir às urnas.
Crise Econômica
A tempestade automotiva está aí há praticamente três anos e faz muitos estragos. Sofremos da Doença Holandesa automotiva. A conta chegou mais uma vez, após breve período de artificialismos. Acabaram os anos falsamente dourados de consumismo e de geração de nova e falsa classe média. O setor automotivo vai recuperar forças muito devagar e mesmo assim carregará no bojo reconfigurações ainda maiores na geopolítica produtiva. Lideranças empresariais do setor já se opõem a terapêuticas supostamente protetoras em forma de regalias fiscais. Nossas montadoras e autopeças são de baixa competitividade por razões já conhecidas, que vão de logística a custos trabalhistas, passando por vícios ideológicos sucateados no mundo moderno. Despencamos desfiladeiro abaixo e não reagiremos em grau suficiente para estancar inevitável processo de enxugamento drástico das empresas na área trabalhista – como exemplificam a Mercedes-Benz e outras montadoras chantageadas por sindicalistas.
Crise Sindical
O modelo antiquado, conservador e anticapitalista praticado pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pela CUT não tem longevidade num mundo cada vez mais dependente de cadeias produtivas. Perdemos a cada ano mais e mais empresas, as quais abrem o bico ou abrem veredas rumo a outros endereços. Inclusive na Grande São Paulo supostamente inapropriada a investimentos industriais. O protecionismo do Estado, que durante muitos e muitos anos atendeu aos interesses dos sindicalistas e das montadoras, está com os dias contados. O Estado faliu. Favorecimentos vão virar pó. O último ciclo de crescimento sob a batuta de Lula da Silva vai ficar na história como a melhora de um moribundo porque encontrou um governo populista que desprezou lições comezinhas de competitividade. Embarcamos numa enrascada. A conta está aí.
Crise Institucional
Entidades empresariais, sociais, sindicais e politicas da região são um conjunto disforme, dissociado das demandas da sociedade, além de improdutivo e despreparado a qualquer tipo de arremetida que instale a regionalidade numa rota de competitividade. À falta de planejamento sobra oportunismo. Condutores dessas organizações podem ter qualidades individuais, mas ao se associarem fazem muitas lambanças, quando não se amesquinham com agendas de interesses específicos, quando não individuais. As futuras gerações vão sentir ainda mais o peso de tanto descaso.
Crise Política
Sem Lula da Silva (alguém tem dúvidas de que o maior líder da política nacional desde a redemocratização está literalmente ferrado?) a Província do Grande ABC vai ser expelida do mapa político nacional, o qual compartilha com vantagens comparativas retiradas do próprio estilo do ex-metalúrgico que virou presidente. Desde que chegou ao poder central, o PT abriu espaços a uma massa de sindicalistas locais, e também a nacos de servidores públicos. Uma situação que, de alguma forma, permitiu a composição de um rolo compressor regional que daria suporte ao sonho de Luiz Marinho virar governador do Estado. Tudo isso ruiu com a queda de Dilma Rousseff e, principalmente, com o abate de Lula da Silva.
Crise Social
Capital Econômica da Província, São Bernardo simboliza o estado de decomposição da mobilidade social que vem desde o começo dos anos 1990, quando o então presidente Collor de Mello iniciou a abertura dos portos. Em seguida, Fernando Henrique Cardoso radicalizou a bordo do Plano Real, que sacrificou um universo numeroso de indústrias familiares da região e completou o trabalho destruidor dos sindicalistas. Quando forem aferidos os números do PIB dos Municípios dos últimos quatro anos, contado 2016, São Bernardo registrará queda de pelo menos 20% por habitante. Uma catástrofe da qual os demais endereços da região não escaparão, embora com impacto menos contundente. Sem alternativas econômicas que fujam da Doença Holandesa Automotiva, a Província do Grande ABC está condenada a mais e mais degolas industriais, à massificação e à canibalização de estabelecimentos de serviços e comércio. Seremos cada vez mais a cara social do Brasil. Nada pior que virar espelho de um País que insiste em desprezar o futuro.
Crise Judiciária
Não somos diferentes de outras regiões do País que ainda sonham com ações como a da força-tarefa da Lava Jato. Os escândalos regionais são apurados com excesso de lentidão ou simplesmente não chegam aos tribunais no formato desejado. O sistema de Justiça, que começa com a ação do Ministério Público, sofre de debilidades estruturais profundas e não conta com aparato estrutural e pessoal para dar vazão às denúncias. É extensa a relação de irregularidades que fizeram da Província do Grande ABC campo de atratividade aos bandidos de colarinho branco. Apenas o caso do Residencial Ventura encontrou um promotor de Justiça obstinado a colocar os pratos a limpo com a rigidez de quem não se deixou contaminar pelo burocratismo. É muito pouco.
Crise Midiática
Numa observação restrita ao campo jornalístico, a Província do Grande ABC jamais contou com tantas alternativas de informações, até por conta da disseminação e do barateamento de novas tecnológicas. Entretanto, há descarte contínuo aos valores básicos do bom jornalismo. Fontes potenciais de contribuições são sufocadas pelo grupo difuso mas ativo formado por bandidos sociais que controlam o noticiário com série de intervenções que vão além da ortodoxia relacional. Não existe democracia de informação na Província. O poder econômico e politico sobrepõe-se dolosamente a tudo que o ameace.
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17/02/2026 MANDACHUVAS E MARIONETES