Economia

Lulacá ajuda o
Pólo a expandir

VERA GUAZZELLI - 10/08/2004

O recente anúncio de que o Pólo Petroquímico de Capuava receberá investimentos de US$ 500 milhões significa bem mais que a esperada ampliação das indústrias do setor. Depois de duas décadas de perdas econômicas e da indiferença dos governos federal e local diante do desmonte industrial, o Grande ABC vive momento peculiar com iminente expansão de um segmento que pode livrar a região da dependência do setor automotivo. Se autoridades locais souberem aproveitar a oportunidade, poderão finalmente traçar estratégia concreta de desenvolvimento capaz de colocar a cadeia produtiva petroplástica no centro da economia regional. 


Ainda é cedo para apostar numa reviravolta, mas há pelo menos dois motivos para saudar. O primeiro é que finalmente a Petrobras decidiu colocar gás de refinaria à disposição do aumento de produção das petroquímicas de Capuava, condição primordial para qualquer expansão. 


O segundo se refere ao fato de a determinação ter partido diretamente do presidente Lula da Silva, numa das primeiras demonstrações concretas do Lulacá Urgente!, expressão utilizada por LivreMercado para chamar a atenção do Palácio do Planalto aos principais problemas do Grande ABC. 


Longa espera


A expansão do Pólo Petroquímico de Capuava era aguardada há pelo menos 10 anos e sempre esteve atrelada às conveniências políticas. Como a Petrobras está na ponta da cadeia produtiva e é monopolista da nafta e do gás de refinaria — suprimentos essenciais para petroquímicas de primeira e segunda gerações —, as decisões sobre a distribuição desses insumos entre os pólos petroquímicos do País sempre levaram mais em conta acertos em gabinetes políticos do que as necessidades mercadológicas e de competitividade regional. Tanto que o anúncio oficial da expansão do Pólo de Capuava só se concretizou após o afastamento do diretor comercial da Petrobras que insistia em não seguir determinações palacianas. 


O próprio deputado de Santo André Luís Carlos Luizinho da Silva, líder do governo na Câmara dos Deputados, forneceu as pistas em recente entrevista ao Diário do Grande ABC. Ele afirmou que a insistência em contrariar a determinação presidencial de colocar o tema como prioridade para o Grande ABC teria sido um dos motivos da troca do executivo. “Realmente a questão sempre foi mais política do que econômica” — lamenta o diretor industrial da Polietilenos União, Nívio Roque. 


A Polietilenos União é uma das indústrias envolvidas na reação em cadeia provocada pelo anúncio de expansão do pólo. À notícia de que a Petrobras fará um aporte de US$ 197 milhões para melhorar a gasolina e o diesel e gerar gás de refinaria na Recap, seguiram-se confirmações de investimentos de US$ 160 milhões na Petroquímica União e de US$ 140 milhões na Polietilenos. A empresa-mãe do pólo PQU planeja utilizar o gás de refinaria para aumentar de 500 mil para 700 mil toneladas a produção de etileno e fornecerá essa matéria-prima em quantidade suficiente para que a Polietilenos União coloque em operação nova fábrica de resinas a ser erguida ao lado da unidade existente. 


Do Vale do Paraíba


O gás de refinaria que vai dinamizar a produção do Pólo de Capuava será fornecido também pela Revap (Refinaria do Vale do Paraíba), em São José dos Campos, e chegará à Petroquímica União por meio de duto cuja construção deve ser iniciada já no próximo ano. O prazo de conclusão do duto e das outras etapas do projeto está estimado entre 2007 e 2009. O período pode parecer longo, mas é analisado como real por Nívio Roque. “Os projetos são siameses. Quando a Petrobras disponibilizar o gás, a PQU tem de estar pronta para receber e a Polietilenos para transformar em resina” — explica, ao ressaltar a importância da sinergia nessa cadeia produtiva.


Assim, os próximos 60 dias serão decisivos. Durante esse período as empresas do pólo e a Petrobras devem finalizar o acordo comercial e definir preço e volume de gás para tirar todos os planos do papel. O processo antecede a formalização jurídica dos contratos e deve transcorrer sem transtornos. O próprio diretor de abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, abriu espaço para que o pólo se posicionasse sobre os itens valor e quantidade. 


Nívio Roque também está otimista com as negociações e estima que a Polietilenos União inicie as atividades da nova planta já em 2007. A empresa passará a produzir o polietileno linear, tipo de resina utilizada em praticamente todos os processos de transformação, mas que — justamente por insuficiência de matéria-prima — ainda não consta do catálogo de produtos. O fato obriga os transformadores de plástico da região a comprar a resina em outros Estados, o que eleva em 2% a 3% os custos em função do frete. “Com os novos investimentos, poderemos atender todas as necessidades da cadeia regional” — aposta Nívio.


ABC de plástico


A produção do polietileno linear é apenas uma das consequências da expansão do pólo petroquímico para o segmento plástico do Grande ABC. Estudo realizado em 2001 pela consultoria gaúcha MaxiQuim mapeou a cadeia produtiva do setor e apontou inúmeras possibilidades de desenvolvimento econômico, principalmente a partir das estimadas 326 transformadoras de plástico instaladas em território regional. Essas empresas pertencem à terceira geração da cadeira produtiva e podem estabelecer nova relação de forças produtivas porque têm participação em praticamente todos os setores da economia.


Diferentemente das petroquímicas que estão concentradas em Mauá e Santo André e contribuem com 66% e 36% da arrecadação de ICMS, há indústrias da terceira geração em todos os municípios da região. O estudo da MaxiQuim apontou que Diadema concentra 49% das empresas e 41,2% da produção; São Bernardo, 21,4% e 36,4%; Santo André, 11,7% e 5,4%; São Caetano, 10,5% e 9,4%; e Mauá, 2% e 0,9%, sempre pela ordem de contingente de empresas e valor de produção industrial. Apesar de baseados em 2001, os percentuais mantêm-se praticamente atualizados porque não houve alterações macro nem regionais que justificassem mudanças substanciais. 


O mapeamento da MaxiQuim foi encomendado pela Câmara Regional para a montagem de um plano estratégico de incentivo ao setor. Mas a iniciativa acabou no fundo da gaveta, como tantas outras da instituição que perdeu brilho após a morte do prefeito Celso Daniel. Não à toa, o que se viu em relação ao setor plástico foram ações pontuais envolvendo Mauá e Diadema. Mauá flexibilizou a legislação e atraiu cerca de 50 novas empresas do setor para a área industrial do Sertãozinho, mas a maioria veio de outras cidades do Grande ABC. Em Diadema houve trabalho de organização de empresas locais para formação do Pólo de Cosméticos, setor no qual o plástico participa ao lado dos fabricantes de embalagens. 


Mercado de trabalho


Por isso, é necessário cuidados também com o dimensionamento do mercado de trabalho a partir da expansão da produção em Capuava. Os US$ 500 milhões de aportes só se transformarão em empregos se houver crescimento da cadeia de transformação, já que as petroquímicas não são intensivas de mão-de-obra. Cálculos iniciais apontam que três mil vagas temporárias deverão pipocar em todo o pólo nos próximos dois anos durante as obras de expansão. Depois disso, fica difícil fazer previsões. O diretor industrial da Polietilenos União, Nívio Roque, estima que a nova planta da empresa deve gerar entre 50 a 70 vagas. O pólo emprega 2,5 mil funcionários, contra 16 mil das transformadoras de plástico em todo o Grande ABC.


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