Economia

Prefeituráveis precisam saber
que saída econômica é regional

DANIEL LIMA - 30/09/2016

Acompanhei atentamente as declarações dos principais candidatos às prefeituras da Província do Grande ABC nas publicações impressas e digitais. Não tive paciência para capturá-los também nos debates em diferentes pontos, inclusive em emissoras de TV fechadas. Fiquei de olhos grudados, sobretudo nas abordagens sobre desenvolvimento econômico. Desta feita, a temática foi menos espaçada. Houve maior incidência de manifestações sobre o assunto. Cheguei, entretanto, a uma conclusão que é velha de guerra: eles, os candidatos, ainda não descobriram ou fingem não ter descobertos que a saída econômica para a região, se houver saída econômica, passa necessariamente pelo portal da regionalidade com inúmeras variáveis. Becos municipalistas não funcionarão jamais.

O que quero dizer sem medo de cometer desatino é que não existem soluções municipalistas de grande monta para um território que ocupa a periferia de uma Capital que transborda gigantismo, como São Paulo. Um ou outro investimento municipal, principalmente no setor industrial, não passará de exceção à regra.

Quem olha para a Província do Grande ABC imaginando alguma coisa que se traduza em produção industrial, ou mesmo terceirização direta de produção industrial, não perde tempo perscrutando endereços locais. O foco é macrorregional.

Ou seja: as condições macroestruturais da região pesam sobremaneira à escolha municipal. Fosse diferente, o oásis chamado São Caetano estaria abarrotado de empresas de tecnologia de ponta, como tanto alardearam ao longo dos anos os prefeitos locais.

Preço da regionalidade

Fizemos tanta questão de vender a imagem de região para o Brasil inteiro ao longo de décadas – até porque seria idiotice pensar diferente disso, dadas as condições historicamente postas de interdependência entre os municípios no campo logístico, entre outros – que estamos a pagar o preço elevado de nossos passivos políticos, sociais e econômicos.  Achamos que bastava dizer “Grande ABC” que tudo estaria resolvido, como no passado dos idos das décadas de 1950, 1960, 1970.

Podem me chamar de derrotista, de alarmista, de sensacionalista ou de qualquer outro ista, inclusive de anarquista, mas sou escravo de estudos aprofundados e de conhecimento prático.

Somente quem não tem juízo no lugar investiria em qualquer Município da região. Exceto na área de varejo (ainda atraente às grandes corporações por causa da massa de quase três milhões de bocas) e também no setor de serviços de baixo valor agregado, não há razão alguma para tornar a região plataforma de ações que multipliquem recursos aplicados.

Somos uma área decadente, comprovada por série de indicadores sobre os quais nos debruçamos cotidianamente. E agora, para piorar a situação, as estatísticas criminais ameaçam nos remeter a passado tenebroso. Tomara que seja apenas um soluço ditado pela associação de desemprego alarmante e recuo de investimentos na área de Segurança Pública.

Os candidatos que defendem rebaixamento de impostos e incentivos fiscais como medidas à atração de investimentos produtivos podem estar usando de sinceridade e confiança, mas não têm embasamento técnico para sustentarem eventuais tentativas de alteração dos rumos da região.

Quem quer investir?

Os assessores dos candidatos na área econômica talvez sejam competentes e dedicados, mas estão a desprezar uma regra básica do caminho percorrido pelo dinheiro produtivo: selecionar as melhores condições distribuídas em planilhas com pelo menos três centenas de quesitos para, então, apontar os territórios de desembarque. A Província do Grande ABC não resiste a esse escrutínio. Só o sindicalismo é uma barreira e tanto. Quem quer dividir o comando de um chão de produção ou mesmo de gabinetes engravatados com os chamados comitês de fábricas ideologicamente avessos ao capital?

Não serão medidas pontuais, principalmente quando isoladas de um macroprojeto regional, que iriam refrescar a situação de baixa atratividade da Província do Grande ABC. Somente em situação de impraticável transferência de planta industrial (caso da área petroquímica), poderia ser aliviada a barra das empresas e até mesmo estimular a contratação de profissionais. Entretanto, no conjunto da obra regional não seriam as medidas propostas pelos candidatos suficientes para estancar a hemorragia expressa na curva descendente do Valor Adicionado, ainda outro dia motivo de análise neste espaço editorial. São Bernardo, Capital Econômica da Região, é prova cabal desse descompasso: só nos primeiros cinco anos do governo Dilma Rousseff perdeu 35% do Valor Adicionado deixado por Lula da Silva e sua febre consumista.

Rodoanel frustrante

Possivelmente o símbolo maior da deterioração da Província do Grande ABC como espaço de atratividade da produção industrial é o trecho sul do Rodoanel. Caiu do cavalo quem acreditou no governo do Estado de que contávamos com a melhor esquina do País para investimentos e que, portanto, o traçado do Rodoanel iria reconduzir a Província do Grande ABC ao patamar de competitividade tão sonhado. Quem alertou que aquela serpentina asfáltica de baixa inserção estrutural com a região iria mais tirar do que trazer investimentos produtivos acertou na mosca. A obra do governo do Estado tem um monte de predicativos, entre os quais não consta, entretanto, o reencontro da região com uma logística poderosamente sedutora.

Se no passado dos anos 1990 perdíamos o jogo da produção para as três áreas mais importantes do Interior do Estado – Grande Campinas, Grande Sorocaba e Grande São José dos Campos – a partir da construção dos trechos do Rodoanel cresceu exponencialmente o lado oposto de nossa geografia na Região Metropolitana de São Paulo, principalmente a Grande Osasco. Comemos uma poeira de caçapa cantada.  

Se não existe possibilidade concreta de a Província do Grande ABC reerguer-se na indústria de transformação com base em abrandamento fiscal seletivo, tampouco o conseguirá com uma ou mais arcas de Noé de polos tecnológicos. Mesmo que saiam da elucubração teórica em que as autoridades públicas os meteram nos últimos anos, numa sinfonia de engabelação que já encheu os picuás, os polos tecnológicos não contam com massa crítica necessária para detonar processo de restauração da força industrial perdida. Serão apenas vitrines – se um dia houver investidores dispostos a tanto – que satisfarão a verborragia de oportunistas ou analfabetos econômicos de plantão.

Oportunidade perdida

Um dos maiores equívocos do Partido dos Trabalhadores nascido na região e que por isso mesmo poderia ter contribuído de maneira ativa para recolocar a Província do Grande ABC no jogo da competitividade nacional foi, entre tantos, priorizar o projeto da Universidade Federal do Grande ABC.

Essa instituição, totalmente alheia à realidade econômica e social da região, é um peso orçamentário na conta da Província em detrimento de ações muito mais efetivas às mudanças necessárias.

O PT poderia ter revolucionado o conceito de metropolização – assunto sobre o qual vários de seus representantes tanto se expressaram antes de o partido chegar à Brasília – ao aplicar o que chamaria de uma experiência inédita no Brasil. Que experiência é essa? Ter promovido concertação regional ancorada no governo federal para aplicar um plano de reestruturação econômica de que tanto prescindimos.

Tivemos mais de uma década petista para conduzir um projeto pedagogicamente extraordinário de salvamento de uma área em constante depauperação social e econômica. Preferimos gastar os tubos com acadêmicos sem qualquer sentimento e compromisso com a regionalidade, embevecidos que estão com passarelas nacionais e internacionais.



Leia mais matérias desta seção: Economia

Total de 2006 matérias | Página 1

08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS
07/04/2026 QUEM VAI PAGAR OS DANOS DO RODOANEL?
26/03/2026 REDUÇÃO DE IMPOSTOS É MESMO BOA NOTÍCIA?
25/03/2026 É IMPROVÁVEL GILVAN PERDER PARA PAULINHO
18/03/2026 MENOS RICOS E CLASSE MÉDIA NESTE SÉCULO
17/03/2026 PIB INDUSTRIAL: UM DESASTRE NO SÉCULO
12/03/2026 PIB PÓS-LULA DESABA 32% NO GRANDE ABC
11/03/2026 CLUBE SINDICAL ESTÁ PERDIDO NO TEMPO
09/03/2026 CLUBE ECONÔMICO TAMBÉM É FRACASSO
05/03/2026 DEMARCHI E O VEXAME DOS 100 MIL EMPREGOS
19/02/2026 EMPREGO INDUSTRIAL VAI CHEGAR À META?
04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC
03/02/2026 LULA ZERA ESTRAGO DE DILMA APÓS NOVE ANOS
29/01/2026 NÃO RIAM: COLÔMBIA É A GRANDE SAÍDA REGIONAL
22/01/2026 METRÔ PODE REPETIR DANOS DO RODOANEL
19/01/2026 UM SINDICALISTA COM A CABEÇA NO PASSADO
15/01/2026 IPTU AVANÇA SOBRE FORTE QUEDA DO ICMS
13/01/2026 IPTU EXAGERADO INIBE ECONOMIA REGIONAL
12/01/2026 GALPÃO E PÁTIO NÃO MUDAM GRANDE ABC