Economia

União também
faz dinheiro

VERA GUAZZELLI - 10/08/2004

A conclusão de que o futuro dos Arranjos Produtivos Locais passa pelo desafio de encontrar um modelo legal de organização não é novidade, mas sinaliza um dos caminhos capazes de potencializar as cadeias produtivas regionais. 


O recado transmitido durante um dos painéis do 2º Congresso da Indústria Paulista, patrocinado pela Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) em julho, colocou o dedo no ponto mais vulnerável das experiências de adensamento de micro e pequenas empresas em grupos de cooperação. Sem protagonismo suficiente para efetivar a representação jurídica dos chamados APLs, dificilmente haverá crédito barato para financiar aumentos de produção ou inovação tecnológica nas empresas. 


A tese de que a união faz a força e a representatividade faz a diferença coloca os APLs numa encruzilhada. Ao mesmo tempo em que esse modelo de produção é visto como uma das saídas para fortalecer a atividade industrial, fica o vácuo de ainda não se ter descoberto a fórmula de dar a esses aglomerados configuração de grande empresa. 


A lógica parece irreal, mas é exatamente assim que funciona. Experiências internacionais mostram que, individualmente, micro e pequenas empresas patinam cada vez mais nas próprias limitações. Organizadas, reposicionam-se no mercado com ganhos de escala e produtividade para competir com corporações mais estruturadas. 


“O BNDES só pode ser parceiro dos APLs se houver representação jurídica formal para conduzir as negociações” — foi enfático o presidente do banco, Carlos Lessa. 


Ponta de esperança 


A notícia não é das mais animadoras, mas traz uma ponta de esperança. Dos R$ 47 bilhões de orçamento que o BNDES pretende executar em 2004, 65% deverão ser destinados às grandes empresas. Se os APLs conseguirem encontrar uma fórmula para se enquadrar na classificação, certamente terão alguma oportunidade. Caso contrário, cada empresa continuará disputando os 35% do total de recursos que o banco costuma destinar aos pequenos, com os percalços e a burocracia conhecidos. 


O próprio Carlos Lessa admitiu que o BNDES tem mesmo o olhar voltado para os grandes e que a taxa de mortalidade dos pequenos negócios — 80% fecham as portas antes de completar o primeiro ano de funcionamento — é o principal entrave à obtenção de crédito oficial. 


Carlos Lessa citou o exemplo da cidade mineira de Nova Serrana, onde 700 pequenas empresas se organizaram formalmente para obter crédito e já respondem por 50% da produção brasileira de calçados esportivos.


Esse aglomerado emprega 17 mil trabalhadores e elegeu o treinamento da mão-de-obra e o sistema de design computadorizado como principais pontos da atuação conjunta. Lessa também citou as indústrias de cosméticos de Diadema como candidatas potenciais à formação de um arranjo produtivo no Grande ABC. Ele confessou que, à primeira vista, achou exagero a cidade pleitear o título de Capital Brasileira da Beleza, mas depois admitiu a possibilidade. “É preciso entender que essa forma de organização industrial faz as pequenas tornarem-se grandes” — enfatizou.


Linha de crédito


A possibilidade de o BNDES oferecer linhas de crédito para financiar projetos do pólo de cosméticos de Diadema já foi ventilada, mas ainda tem tom de promessa. Em encontro no escritório local do Ciesp, Carlos Lessa lembrou que se as indústrias de Diadema montarem estrutura de exportação parecida com a dos 280 produtores de calçados femininos de Novo Hamburgo, o banco irá apoiar, assim como faz no Rio Grande do Sul. 


O principal problema, porém, é que o pólo de Diadema precisa desvencilhar-se da tutela da Prefeitura e caminhar com as próprias pernas. Desde que o grupo foi formado há dois anos, o poder público está à frente das principais ações conjuntas e direcionou trabalhos à participação em feiras setoriais nacionais e internacionais. A cadeia de cosméticos de Diadema reúne perto de 100 fabricantes entre indústrias de matéria-prima e de embalagens.


DNA diferente


“Temos de superar a tentação de impor modelos porque cada APL tem seu próprio DNA” — alerta o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, Mário Bernardini. Em conjunto com a Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado, a Fiesp trabalha APLs em Ibitinga (bordados), Limeira (bijuterias), Mirassol (móveis), São José do Rio Preto (jóias) e Vargem Grande Sul (cerâmica) e descobriu que não existe fórmula única para adensar as cadeias produtivas. 


Bernardini conta que a principal dificuldade é fazer as empresas entenderem que participar de um APL não significa trocar a concorrência pela cooperativismo. “A disputa continua a mesma, mas pode ser minimizada pela redução de custos das atividades que estão fora do negócio principal de cada empresa” — explica. 


A demora em absorver o conceito básico de arranjo produtivo é atribuída por Bernardini principalmente à falta de preparo gerencial e de conhecimento setorial dos micro e pequenos empreendedores. A Fiesp estima que 70% deles são ex-empregados que aplicam verbas rescisórias em algum tipo de negócio e acreditam que basta praticar preços mais baixos que o dos concorrentes para terem sucesso. Assim, contratam com salários baixos, utilizam mão-de-obra desqualificada e entram num ciclo vicioso de perda de qualidade que compromete cada vez mais o desempenho da empresa. 


Nesse contexto de despreparo, situa-se também a falta de conhecimento do mercado. Mário Bernardini conta que o mapeamento do mercado não estava entre as prioridades listadas pela Fiesp para iniciar o trabalho com os cinco APLs do Interior de São Paulo. 


Mudança de planos


A entidade imaginava que as empresas envolvidas nesses adensamentos já conheciam seu público, sabiam onde buscar novos consumidores e precisavam mais de capacitação para reduzir desperdícios, melhorar a logística, aumentar a produção e atingir novos mercados. Não era bem assim e o foco teve de ser mudado. “Agora sabemos que o primeiro passo para formar qualquer APL é fazer o mapeamento do mercado para saber onde estão os compradores. Depois disso, analisa-se cada um dos casos para decidir o próximo passo” — ensina Mário Bernardini.


O 2º Encontro da Indústria Paulista também reproduziu nos painéis setoriais a preocupação com a falta de sinergia entre governo e os diversos segmentos produtivos. Representantes das indústrias químicas, petroquímicas, plásticas e de borracha reuniram-se para analisar o estudo do professor da Unicamp, Celso Hiratuka, no qual os pontos principais foram a falta de uma política industrial para a cadeia produtiva química e do plástico e o peso da carga tributária, reclamação unânime do empresariado que participou do evento. 


O painel reuniu desde representantes das petroquímicas, das indústrias de embalagem e de reciclagem de PET até tintas e vernizes. Por causa dessa diversidade, os participantes não conseguiram focar a discussão em tema específico. Mesmo assim, ficou evidente a preocupação geral com a disponibilidade de matéria-prima para aumentar a produção das centrais petroquímicas da região Sudeste e com a participação quase nula da Petrobras nas discussões da cadeia produtiva. “Dificilmente a Petrobras participa de nossos movimentos” — reclamou o vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Embalagens Plásticas Flexíveis, Rogério Mani. “Se equacionarmos a disponibilidade de nafta e gás, temos condições de crescer em até 80%” — estimou o presidente da Unipar, Roberto Garcia, uma semana antes de a Petrobras anunciar que produzirá mais matéria-prima para a expansão do Pólo Petroquímico de Capuava.


A Unipar é acionista da PQU e da Polietilenos União, duas empresas que juntas confirmaram US$ 300 milhões em investimentos para aumentar, respectivamente, a produção de etileno e de resinas.


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