Os três anos que o norte-americano Mark Emkes passou à frente da Bridgestone Firestone foram marcantes. Por isso, sua despedida tem de ser especial. Neste dia 10, na Mansão Padoveze, em Santo André, Emkes será homenageado por pelo menos quatro centenas de convidados em jantar de gala. Promovido à presidência de Operações Internacionais da BF das três Américas, Mark Emkes agora está baseado nos Estados Unidos. Sua substituição no Brasil pelo argentino Vito De Florio provavelmente pouco mudará a rota de investimentos da unidade de Santo André. Afinal, a fábrica estará diretamente sob sua influência. Mas isso não significa que a região continuará com Mark Emkes. Inconformados assessores e amigos tentam provar o contrário. Pura tática inconsciente para reduzir o impacto da perda.
Poucos executivos de companhias multinacionais se comprometeram tanto com a região e particularmente com Santo André como Mark Emkes. Tradicionalmente, comandantes de corporações de grande e médio porte fizeram e ainda fazem da região simples entreposto profissional. Preferem relacionamentos pessoais e sociais na Capital tão próxima e bem mais atraente. Criou-se a cultura de que só São Paulo dá status social com a diversidade de opções de eventos voltados para negócios e entretenimento. A metrópole cosmopolita superaria largamente a província suburbana.
Com Mark Emkes foi diferente. Instalou-se com a família no elegante Bairro do Morumbi porque as circunstâncias exigiram. O Grande ABC não tem uma única escola curricularmente adequada para filhos de norte-americanos que a qualquer momento podem ser levados a ocupar novas funções em outros países. Situação que a globalização torna rotina. Como o caso de Mark Emkes.
Epicentro de operações
Seus três anos de Brasil foram intensamente vividos tendo Santo André como epicentro de operações. Nenhum outro profissional estrangeiro foi tão ovacionado. Capa de LM em janeiro de 1999, Mark Emkes viveu nos meses seguintes as maiores emoções da vida. Virou Empresário do Ano da Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Executivo do Ano do Prêmio Desempenho de LivreMercado, Melhor das Melhores da mesma premiação com o case/reportagem A Lista de Emkes e, no mês seguinte, recebeu a indispensável unanimidade conferida ao título de Cidadão Andreense de uma Câmara de Santo André coalhada de socialistas. A distinção ganhou conotação ainda mais especial porque partiu do vereador do PT, José Montoro Filho, e do apoio da bancada do partido, a indicação ao título.
A consagração de Mark Emkes foi o Prêmio Desempenho. O case/reportagem da BF recebeu dos membros do Conselho Consultivo a maior média de notas da história. A Lista de Emkes contou a saga do presidente brasileiro para manter a fábrica da Bridgestone Firestone em Santo André. Havia fortes pressões para transferência da unidade por causa dos custos salariais, da beligerância sindical e também do grau de obsolescência de máquinas e equipamentos.
Relações produtivas
Emkes aproximou-se do sindicato, valorizou os funcionários, cobrou produtividade para reduzir o Custo ABC e garantiu milhões de dólares de investimentos. A fábrica da BF está completamente renovada e globalizada. Os trabalhadores são os mesmos, mas aprenderam a cultura da parceria capital-trabalho. São 3,3 mil empregos garantidos, além do maior valor adicionado para os cofres de uma Prefeitura que se empobreceu de forma alarmante nos últimos 20 anos.
A desenvoltura de Mark Emkes com funcionários e sindicato é apenas parte de um enredo que combinou empatia e eficiência. Da mesma maneira que manteve reuniões mensais com grupos de colaboradores, Emkes foi às ruas para acompanhar de perto o que a rede de revendedores da companhia tinha para oferecer.
Devoto do dogma de que o cliente está em primeiro lugar, coleciona entre muitas histórias a contratação da secretária de que precisava. Decidiu-se por uma das candidatas quando obteve a resposta mais adequada para o organograma em que apresentava o cliente acima do quadradinho da presidência.
Sentimento de perda
José Batista Gusmão, o executivo mais próximo de Mark Emkes durante os três anos de Brasil, não disfarça o sentimento de perda. Faz elogios ao substituto, mas Emkes foi especialíssimo para quem está na BF há 28 anos. É ao mesmo tempo detalhista e estratégico. Transformou as mulheres dos donos das distribuidoras da marca em aliadas decisivas, levando-as a participar dos negócios. Também motivou o público feminino a frequentar com mais assiduidade os revendedores ao liderar mudanças intestinas. Da fachada ao layout. Dos equipamentos ao atendimento. As revendas deixaram de ser guetos machistas.
Um exemplo de que Mark Emkes foge da multidão de executivos que perdem o contato com a base está na aposta feita informalmente com um operário da BF sobre o resultado final de um jogo de futebol. Emkes perdeu e fez questão de pagar o valor simbólico de R$ 1. A mudança de horário de trabalho do funcionário não alterou o compromisso assumido. Poderia ter mandado alguém levar o dinheiro. Mas fez questão de esperar pelo turno das 22h, quando se dirigiu à fábrica para entregar o dinheiro e cumprimentar o ganhador. A fábrica não falou sobre outra coisa durante muito tempo.
O Mark Emkes de chão de fábrica é o mesmo Mark Emkes da boléia de caminhões pelas estradas brasileiras, do Mark Emkes que toma a máquina fotográfica ou a filmadora da equipe contratada pela BF e sai à cata de flagrantes como um alegre estudante, o mesmo Mark Emkes que não se esquece da data de aniversário do motorista do caminhão com quem viajou e lhe manda uma caixa de chocolate, o mesmo Mark Emkes que retribui a caricatura de um artista do Nordeste com uma carta carinhosa enviada de próprio punho dias depois, o mesmo Mark Emkes que acabou com as greves na fábrica, o mesmo Mark Emkes que fez desaparecer o privilégio de gerentes e diretores da empresa serem servidos por garçons enquanto o restante ia de bandejão, o mesmo Mark Emkes de tantas outras histórias que sacudiram uma fábrica até então pouco produtiva e constrangedoramente formal.
Não faltará emoção na despedida do norte-americano mais abrasileirado que já apareceu no Grande ABC. Levem lenços, por favor.
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