A largada dos Arranjos Produtivos Locais na mesma semana do anúncio de que 44,5% da mão-de-obra do Grande ABC estão na informalidade e que as autopeças chegaram ao limite produtivo coloca novo ingrediente na longa discussão sobre os caminhos da economia regional. Ao mesmo tempo em que a iniciativa de adensar as cadeias produtivas de autopeças, plástico e ferramentaria representa inserção mercadológica fundamental para pequenos e médios empreendimentos, surge mais uma inquietação.
Desacostumados da cooperação e mais habituados a correr do prejuízo, os participantes terão de encarar simultaneamente os desafios do trabalho conjunto e do iminente gargalo na produção caso a economia permaneça aquecida. Sair dessa bifurcação depende da velocidade de resposta dos APLs — uma experiência tardia que poderia ter poupado o Grande ABC de ficar curvado diante do desmonte da indústria automobilística e da perda de mercado das petroquímicas de Capuava, o que guilhotinou pelo menos 150 mil empregos industriais formais e fez a população de miseráveis saltar 128% nos últimos 20 anos.
Teoria e prática
Em tese, o pontapé inicial dos APLs foi dado em momento oportuno. O modelo de produção formatado para dar fôlego de grande aos pequenos é apoiado na velha constatação de que a união faz a força e defendido por especialistas como poderosa ferramenta de desenvolvimento local. A distância entre teoria e prática, porém, é pródiga em enterrar intenções, principalmente num Grande ABC recheado de projetos que não saem do papel.
Assim, os resultados obtidos durante os 12 meses que delimitam o projeto capitaneado pela Agência de Desenvolvimento Econômico em parceria com o Sebrae podem caracterizar importante divisor de águas na organização produtiva da região. “Nosso papel é ser indutor e não condutor” — especifica o secretário executivo da Agência de Desenvolvimento Econômico, Paulo Eugênio Pereira Júnior.
O projeto idealizado para adensar novas vocações produtivas no Grande ABC prevê cumprimento de 19 etapas, mas toma o cuidado de delegar a responsabilidade do cronograma aos participantes. Se o grupo decidir que deve inverter a ordem das ações ou pular uma fase para concentrar esforços em outra, terá liberdade para fazer a mudança. Essa flexibilização é importante porque coloca o empresário no papel de protagonista e assegura a continuidade da participação.
Repensando modelo
Recentemente o diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Fiesp, Mário Bernardini, declarou que foi necessário rever o modelo dos APLS apoiados pela Federação das Indústrias do Estado porque o que havia sido pensado inicialmente não correspondia à necessidade dos empresários.
Por isso, o projeto regional não estabelece metas. Os resultados vão depender diretamente das prioridades apontadas por cada grupo e serão aferidos por indicadores como faturamento e índice de produtividade que permitam comparação histórica. Paulo Eugênio Pereira considera importante cotejar os resultados dos APLs com o desempenho setorial. “Teremos de aprender a valorizar os processos que levam à melhoria permanente, e não apenas a resultados imediatos” — entende o proprietário da Polibel e um dos representantes do APL de plástico, Nelson Belotti Júnior.
A Polibel está instalada em Mauá há 16 anos, fabrica cordões de polietileno e sintetiza o perfil dos participantes dos APLs — empresas com até 99 funcionários que buscam apoio consultivo e financeiro para jogar para o alto processos e produtos. O projeto tem capacidade para acolher até 60 empresas divididas entre 25 autopeças, 25 do setor plástico e 10 de ferramentaria. O número é baixo diante do universo produtivo regional e expressa a dificuldade de mobilização em torno de iniciativa ainda embrionária. Tanto que a Agência de Desenvolvimento disparou mais de mil convites para conseguir fechar os grupos.
Programa para todos
O projeto dos APLs também não coloca a informalidade ou a inadimplência fiscal como fator excludente de participação. Se utilizasse esse filtro, incorreria em contradição ao estender a mão somente a quem está com a casa em ordem. Recente pesquisa do Sebrae revela que 49,4% das micro e pequenas empresas abertas em 2002 não sobreviveram ao segundo ano.
Desse total, apenas 3% tentaram socorrer-se de alguma ajuda externa para aprimorar o gerenciamento. “O ideal seria que os APLs ajudassem a melhorar a taxa de emprego formal e contribuíssem para fortalecer a saúde financeira dos pequenos negócios” — almeja Paulo Eugênio Pereira. “A possibilidade de ratear custos é o que mais me chama a atenção nos arranjos produtivos” — emenda o gerente industrial da Heral e representante das autopeças, Vanderlei Nicola.
A Heral fabrica em Diadema porcas para fixação e conhece bem as dificuldades de estar espremida na cadeia produtiva. Na posição de fornecedor de vários sistemistas, a empresa quase não tem margem para negociação porque se equilibra entre os poucos fabricantes de matéria-prima e as imposições de preços das montadoras.
Nicola explica que se tivesse como dividir com outras empresas do setor os custos para obter de certificados de qualidade, seria mais fácil manter a rentabilidade para enfrentar crises macroeconômicas e setoriais. A Heral emprega 70 funcionários, tem 49 anos de atividade e saiu recentemente de uma concordata.
Os APLs do Grande ABC receberam aporte de R$ 1,7 milhão do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa e contrapartida de R$ 100 mil da Agência de Desenvolvimento. O montante será utilizado ao longo dos 12 meses e receberá reforço de R$ 200 mensais de cada empresa participante. O pagamento é espécie de taxa simbólica que pode ser utilizada tanto para reforçar financeiramente uma das 19 etapas previstas quanto direcionada para outra ação eleita pelo grupo.
Mais dinheiro pode vir
O projeto pode ser contemplado ainda com US$ 1 milhão provenientes do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). A verba é esperada para ainda este ano, mas está condicionada aos resultados. Caso os APLs recebam o dinheiro do BID, poderão contar com montante semelhante do Sebrae, que já se comprometeu com a contrapartida de mais US$ 1 milhão. Esses recursos saltam aos olhos dos participantes porque significam um atalho para o difícil caminho do acesso ao crédito, principalmente entre pequenos empreendedores.
A possibilidade de financiar o desenvolvimento por meio dos APLs desperta o interesse da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Tanto que enviaram representantes ao encontro de agosto que oficializou a abertura dos trabalhos. O recado mais incisivo, porém, veio do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Carlos Lessa, durante evento promovido pela Fiesp. Ele disse que o BNDES só pode financiar APLs se houver uma representação jurídica formal para conduzir as negociações.
Carlos Lessa, aliás, manifestou-se surpreso com a concentração de indústrias de cosméticos em Diadema e forneceu pista de como essa cadeia pode ter acesso às linhas de crédito do banco. O Pólo de Cosméticos emergiu em 2002, é o exemplo mais atuante de organização de cadeia produtiva no Grande ABC, mas não integra a lista de APLs da Agência de Desenvolvimento. Paulo Eugênio explica que plásticos, autopeças e ferramentaria foram escolhidos com base em estudos iniciados pela Câmara Regional há quatro anos e que nessa época o potencial do setor de beleza da região era desconhecido.
Compromisso assumido
De qualquer forma, o executivo apresenta alternativa para correção da rota. Ele garante que o governo do Estado assumiu o compromisso — mais um — de incluir o Grande ABC em projeto estadual de APL que envolve US$ 10 milhões, também do BID. Se parte desses recursos chegar mesmo à região, os outros dois setores contemplados serão cosméticos e indústria gráfica.
Dar nova modelagem aos aglomerados produtivos é providência básica para tirar do limbo empresas, mas sobretudo os empregos da região. O último boletim do Observatório Econômico de Santo André pôs o dedo na ferida da informalidade crescente sob o ângulo da mão-de-obra e revelou em números o que a maioria conhece de perto pela experiência: nada menos que 44,5% das ocupações no Grande ABC estavam à margem das leis trabalhistas até o ano passado. Significam 445 mil moradores da região com emprego informal, levando-se em conta o um milhão de ocupados dentro de uma PEA (População Economicamente Ativa) de 1,256 milhão de pessoas, subtraída de 256 mil desempregados.
O estudo é da economista Paula Montagner, professora da Unicamp, e escala conceitos mais atuais de informalidade que incluem gente sem carteira assinada, empregados domésticos, quem está ocupado em empreendimentos com até cinco funcionários e autônomos. Pelo conceito clássico — de quem trabalha sem carteira e quem não contribui para a Previdência — o número da informalidade também é alarmante: 32% em Santo André, tomado como referência para a região (veja gráficos).
Informalidade democrática
O fato grave apontado pelos estudos, apoiados no Censo 2000 do IBGE e na Pesquisa de Emprego e Desemprego de 2003 da Fundação Seade, é que a informalidade saiu de redutos tradicionais como construção civil e domésticas para se instalar em áreas até então insuspeitas. A taxa de trabalhadores sem registro no comércio (38%) e na indústria de transformação (19%) indica claramente que a informalidade deixou de ser opção ao estreitamento do mercado para ser uma aposta na sobrevivência. “São geralmente microempresas familiares de estrutura enxutíssima e que na informalidade têm custos reduzidos, o que é um atrativo também para produtores de maior porte” — conceitua Vladimir Sipriano, professor da Fundação Santo André, autarquia que empresta apoio às pesquisas do Observatório Econômico.
O emprego sem registro aduba terreno, apesar da recuperação gradual do mercado de trabalho com o reaquecimento em curso da economia — foram 1,2 milhão de novas vagas de janeiro a julho no País, 26,08 mil no Grande ABC, segundo o Ministério do Trabalho. A forma dessa inserção, porém, é desigual. Enquanto o número de empregados com carteira assinada no setor privado aumentou 2,4% em julho último em relação a julho de 2003 em todo o País, os trabalhadores sem carteira avançaram 9,6% e os por conta própria, mais 3,7%, respectivamente, conforme pesquisa nas seis principais regiões metropolitanas feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Trabalhadores por conta própria e sem registro em carteira no setor privado somaram exatamente 36% da população ocupada no País em julho, contra 38,9% dos registrados. Os números da informalidade crescem, entretanto, quando se incluem os serviços domésticos, que representam 7,7% da população ocupada no Brasil e onde há 70% de trabalhadores sem carteira, conforme o Observatório Econômico de Santo André.
Apesar de as exportações estarem fazendo o motor da indústria voltar a funcionar, as contratações pontuais não autorizam estourar champagne. O que preocupa o secretário de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André, Jeroen Klink, é que a região está mudando a plataforma econômica de industrial para terciária, tanto assim que comércio e serviços já respondem por 67,5% dos empregos formais em Santo André e 61,9% no Grande ABC. O problema é que a estrutura enxuta da indústria moderna não permite alargar as vagas e é no terciário onde a informalidade deita raízes.
Comércio, serviços domésticos, construção civil e indústria de transformação já respondem, juntos, por 62% do emprego sem registro na região, apurou o Observatório Econômico.
“Temos um desafio não só como poder público, mas como sociedade. Precisamos agir juntos em busca de soluções” — convoca Jeroen, receoso sobretudo com o efeito-renda desse cenário. Um empregado no setor formal ganha em média R$ 580, ou 58% menos do que o colega com carteira. Isso se reflete imediatamente em precarização social. Pelo menos 11,9% dos informais vivem em favelas em Santo André, para apenas 2,9% daqueles que atuam na formalidade.
Também o professor da Unicamp Waldir Quadros mapeou os anos turvos da economia em recessão e abertura comercial sem critérios: a proporção de miseráveis no Grande ABC — aqueles que ganham R$ 500 por mês — saltou de 8,59% para 19,66% da população entre 1981 e 2002. No estudo Brasil: Estagnação e Crise, Quadros aponta que no Brasil o crescimento de miseráveis foi um pouco menor, mas igualmente desconcertante: pularam de 30,48% para 35,93%. A classe média, de pessoas que ganham a partir de R$ 2,5 mil, encolheu de 13,5% para 11,7% nessas duas décadas.
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08/04/2026 GILVAN ENFRENTA UMA GUERRA DE 65 DESAFIOS