Economia

Debandada industrial é caso
gravíssimo em São Bernardo

DANIEL LIMA - 13/10/2016

O tamanho da encrenca econômica de São Bernardo (com reflexos em toda a Província do Grande ABC) é um desafio que provavelmente ninguém vai ter a coragem de meter a colher, porque vem de longe, mas é indispensável que a sociedade tenha conhecimento para entender a regra do jogo de acomodações que domina o ambiente regional. 

Administradores públicos e lideranças em geral -- principalmente os sindicalistas -- precisam cair na real de que o modelo trabalhista mantido na Capital Econômica da região é genocídio social. Nossa competitividade foi para o abismo. Trata-se de caso gravíssimo. Vamos aos dados iniciais desse novo levantamento exclusivo. Depois, à análise.

No primeiro ano do Plano Real, em 1994, o volume monetário total do Valor Adicionado (capacidade de transformação industrial) de São Bernardo era 41,85% superior ao registrado em São José dos Campos, 80,17% maior que o de Sorocaba, 47,83% acima do de Campinas e 24,60% maior que a tão próxima Guarulhos – todos os municípios que integram o G-22, o grupo dos sete representantes da região e os 15 maiores endereços econômicos do Estado de São Paulo, exceto a Capital. 

Em 2015, conforme os dados mais recentes da Secretaria da Fazenda do Estado, São Bernardo só conheceu reveses no Valor Adicionado, espécie de PIB (Produto Interno Bruto) sem alguns ingredientes. São Bernardo ficou menor que São José dos Campos (7,77%), menor que Guarulhos (28,02%), e viu a larga distância em relação a Campinas reduzir-se a apenas 3,17% e de Sorocaba a menos da metade, 39,70%. Existe uma palavra no dicionário econômico que explica tudo isso: desindustrialização. E desindustrialização não é obra do acaso. É um processo com uma gama de variáveis econômicas e sociais. No caso de São Bernardo (e menos intensamente, mas também dos demais municípios da região) o custo da mão de obra é um buraco profundo na hora de investidores e empreendedores industriais decidirem onde colocar seus recursos. 

Estado degenerativo

Não faltam, portanto, elementos para explicar o estado degenerativo da produção industrial da Província do Grande ABC e de São Bernardo em particular. A questão de custos trabalhistas em confronto com os municípios selecionados é decisiva. Só não enxerga quem pensa que enxerga. E quem pensa que enxerga não sendo cego é o pior tipo de cegueira. 

A média salarial dos trabalhadores industriais de São Bernardo em dezembro do ano passado (dados mais recentes do Ministério do Trabalho e do Emprego) era 36,06% superior à registrada em Campinas, 47,14% apontada em Sorocaba e 45,90% consumada em Guarulhos. Só era inferior à mão de obra de São José dos Campos prevalecentemente da seletiva indústria aeroespacial.

Quem entende um mínimo de economia, de competitividade, de rentabilidade, de qualquer indicativo econômico que faça parte de um coquetel de eficiência no setor industrial, não terá dúvida em retirar São Bernardo de qualquer plano de instalação ou investimento, exceto em casos muito especiais. 

A remuneração média no Município está muito acima do suportável numa atividade econômica que passa por dores da globalização em forma de cadeias de produção. São Bernardo não caiu por acaso pelas tabelas nas duas últimas décadas, quando a produção industrial foi descentralizada principalmente a três áreas do Estado de São Paulo (Grande Campinas, Grande Sorocaba e Grande São José dos Campos). 

Entorno mais competitivo

A comparação salarial poderia ser ainda mais desconfortável a São Bernardo caso envolvesse pequenos e médios municípios daquelas três áreas estaduais, para as quais, numa segunda onda de descentralização, concentraram-se novos investimentos industriais. O entorno de Campinas, Sorocaba e São José dos Campos é muito mais competitivo no setor industrial. 

A remuneração média em dezembro do ano passado dos trabalhadores da indústria de São Bernardo, segundo o Ministério do Trabalho, registrava R$ 4.799,10.    Eram 92.211 postos de trabalho com carteira assinada de um total de 287.065 no Município -- ou 32,12% do total. Em Campinas a remuneração média naquele mês era R$ 3.661,82, ou 36,06% abaixo de São Bernardo. Campinas contava com 64.127 trabalhadores industriais de um total geral de todos os setores de 439.864, ou 14,58%. Isso significa que Campinas depende menos dos humores da atividade produtiva para o equilíbrio socioeconômico. 

Guarulhos, na Grande São Paulo, pagava em média para cada trabalhador industrial com carteira assinada em dezembro do ano passado R$ 3.293,17, ou 45,90% abaixo da média de São Bernardo. O Município da Grande São Paulo contava com 102.995 trabalhadores industriais de um total de 357.417 empregados em todos os setores. A participação do emprego industrial no Município era de 28,81%, um pouco abaixo de São Bernardo. 

Sorocaba ainda menor 

A diferença de remuneração média entre São Bernardo e Sorocaba é a maior entre os municípios selecionados. Em média cada trabalhador industrial de Sorocaba recebeu em dezembro do ano passado R$ 3.519,93, ou 47,14% abaixo do Município da região. Dos 211.073 empregos formais registrados em Sorocaba, 65.011 (30,80%) concentravam-se na área industrial. Uma participação relativa semelhante a de São Bernardo. 

Apenas São José dos Campos conta com remuneração média de trabalhadores do setor industrial acima da apontada em São Bernardo em dezembro do ano passado. A explicação é que há grande massa de trabalhadores no setor aeroespacial, de elevada remuneração e atividade praticamente sem concorrentes no País. A situação de São José dos Campos, portanto, é bem diferente de São Bernardo, cujos vencimentos superiores se devem em larga proporção ao setor automotivo (montadoras e autopeças), extremamente concorrido no âmbito nacional. 

Cada trabalhador industrial de São José dos Campos recebeu em média em dezembro do ano passado R$ 5.813,36, ou 17,44% acima dos vencimentos dos trabalhadores que atuam nas empresas industriais de São Bernardo. São José dos Campos contava naquele mês com 42.485 trabalhadores industriais de um total geral, de todos os setores, de 209.777. A participação relativa do emprego industrial, portanto, era de 20,25%, mais de 12 pontos percentuais abaixo dos registros de São Bernardo. 

Mudanças improváveis 

A transformação de riqueza industrial contrastante entre os municípios selecionados não oferece perspectivas de mudanças radicais de modo a proporcionar uma virada no placar que vem castigando São Bernardo. Os dados comparativos ponta a ponta entre 1994 e 2015 são complicados demais. 

Em termos nominais (ou seja, sem considerar a inflação do período de janeiro de 1995 a dezembro de 2015), o Valor Adicionado de São José dos Campos cresceu 592,11% (de R$ 4.160,030 bilhões para R$ 29.484.065 bilhões). Sorocaba avançou muito mais: 1.028,86% (de R$ 1.452.355 bilhão para R$ 16.395.132 bilhões). Campinas avançou 588,85% (de R$ 3.822.174 bilhões para R$ 26.329.351 bilhões). Guarulhos saltou 583,82% (de R$ 5.524.148 bilhões para R$ 37.775.638 bilhões). Já São Bernardo avançou nominalmente bem abaixo de todos esses municípios. Foram apenas 271,15% no mesmo período. O Valor Adicionado de São Bernardo em 1994 era de R$ 7.326.093 bilhões e passou para R$ 27.190.958 bilhões em 2015. 

Não custa repetir a tradução dessa numeralha de forma mais digerível ao entendimento: São Bernardo contava com Valor Adicionado 41,85% maior que São José dos Campos em 1994, e em 2015 registrou desvantagem de 7,77%. Na comparação com Sorocaba o que era vantagem de 80,17% caiu para 39,70%. Também na disputa com Campinas houve dura quebra, passando de vantagem de 47,83% para vantagem de apenas 3,17%. Guarulhos virou o jogo: São Bernardo vencia com vantagem de 24,60% e passou à vantagem por 28,02%.   

O assunto não está esgotado. Há mais dados inquietantes a abordar. 



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