Economia

Exclusivo: medimos o quanto
perdemos desde o Plano Real

DANIEL LIMA - 25/09/2002

Acabo de destrinchar os números de uma certeza factual e estatística que somente maus pesquisadores desdenharam: sei exatamente quanto a economia do Grande ABC perdeu em produção de riqueza — conceito de Valor Adicionado — desde a implantação do Plano Real. Preparem-se para não cair da cadeira ou do andaime: perdemos exatamente um terço.


Perdemos de fato. Perda real, absoluta, não em termos relativos. Está mais do que explicado por que também desabamos no Índice de Participação dos Municípios no ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) elaborado pela Secretaria da Fazenda do Estado. E está também mais do que explicada a razão de, comparando o repasse do ICMS de 1997 com o de 2001, o Grande ABC ter acusado baixa de R$ 541 milhões para investimentos das prefeituras locais.


O resultado final não me surpreende nem um pouco. Basta acompanhar a linha editorial ao longo dos anos para saber com exatidão e sem mistificação por que nos opomos tanto a oportunistas de ocasião que tentam dourar nossa pílula. Esses infelizes propagadores de tempo bom são inábeis e irresponsáveis, porque bem que poderiam se preparar e preparar também os que os lêem e os que os ouvem para o enfrentamento da tempestade. Sim, uma tempestade que, para passar, exige mobilização, trabalho, planejamento, ciência e responsabilidade. Nada que tenha qualquer parentesco com ufanismo, triunfalismo, mercenarismo — essas coisas que estamos cansados de criticar.


Quando escrevo — e faço isso há muito tempo — que o governo Fernando Henrique Cardoso é o mais catastrófico da história econômica e social do Grande ABC, quero dizer antes de mais nada que essa é uma conclusão fundamentada em fatos, em realidade, em números, e não exercício ideológico com finalidade eleitoral. Reconheço no governo Fernando Henrique série de conquistas, entre as quais a Lei de Responsabilidade Fiscal, que é um chute no traseiro dos malversadores de dinheiro público. Mas em matéria de Grande ABC ele não poderia ter caprichado mais em sua porção binladeana.


Sim, porque ao abrirem ainda mais o mercado internacional à globalização por meio de taxa de câmbio irreal, os gerenciadores econômicos do governo FHC lançaram a indústria automotiva nacional — leia-se, o Grande ABC — numa guerra de guerrilhas sanguinária. Não vou me estender sobre os aspectos específicos de transformação da indústria automotiva nacional que, além da globalização, viveu período de fortíssima descentralização de produção, com novos endereços e fábricas se incorporando ao universo nacional.


O fato é que, lamentavelmente, sem que se opusesse qualquer força de resistência à abertura desmiolada e ao câmbio desajuizado, o Grande ABC foi lançado na fogueira de uma competitividade internacional à qual não estava preparado porque, até então, beneficiava-se do mercado fechado. Só poderia dar no que deu e que acabo de medir: 34% de refluxo da atividade econômica.


Tentar ampliar o eixo da crise que atingiu a geografia do Grande ABC em direção a outras fronteiras regionais e estaduais é diversionismo que pode levar o interlocutor à desmoralização. O governo FHC atingiu desastradamente o Grande ABC mais que qualquer outro território. O conjunto dos sete municípios locais perdeu no período de 1994 a 2001 o total de R$ 12,465 bilhões de Valor Adicionado — espécie de PIB. Para se ter idéia mais precisa do que significa esse montante, basta dizer que equivale a tudo o que São José dos Campos da Embraer, da General Motors e de uma infinidade de fábricas produziu no ano passado. Trocando em miúdos: perdemos uma Capital do Vale do Paraíba em transformação de riqueza. Uma palavrinha de consolo? Se mesmo assim, apesar dos pesares, continuamos sendo uma geoeconomia respeitável, é sinal de que só falta mesmo vergonha para uma reação institucional coletiva.


Enquanto perdemos tudo isso aí, o conjunto formado por Barueri, Campinas, Guarulhos, Osasco, Paulínia, São José dos Campos e São Paulo, municípios que estão entre os 10 mais importantes do Estado, deram drible da vaca nas travessuras do governo federal e conseguiram crescer 9,6% no mesmo período. Ou seja: as perdas mais profundas da economia paulista se concentram no Grande ABC, enquanto outros municípios vocacionados à industrialização conseguiram suportar o peso da internacionalização da economia, entre outras razões porque contam com matrizes produtivas múltiplas. Portanto, estão menos sensíveis aos humores das multinacionais sobre-rodas.


A derrocada produtiva do Grande ABC é tão pronunciadamente marcada pelo setor automotivo que não há como agredir a lógica dos números: São Bernardo e São Caetano, os dois pólos automotivos da região, respondiam em 1994, quando do Plano Real, por 59% de todo o Valor Adicionado gerado no Grande ABC. Sete anos depois, dezembro de 2001, passaram a responder por pouco mais da metade — exatamente 53%.


Se essa perda fosse apenas relativa, tudo estaria sob controle. Afinal, se os demais municípios do Grande ABC tivessem tido comportamento econômico evolutivo, nada mais natural que o peso de São Bernardo e de São Caetano diminuísse. Pena que a realidade seja outra: todos os demais municípios também perderam em números absolutos.


Traduzindo de novo: o Grande ABC viveu os sete anos de vacas magras provavelmente mais terríveis do século XX, enquanto um pesquisador fanfarrão, disposto a calar jornalista independente na Justiça, destilava números fantasiosos para uma platéia silente, às vezes covarde, às vezes impotente. Valeu ou não valeu a pena enfrentá-lo no campo das idéias, mesmo que para um ou outro pudesse parecer algo diferente porque este País está tão anestesiado que qualquer tipo de contraditório é avaliado como rusga pessoal?


Em valores corrigidos pelo IGP-M a dezembro de 2001, o Valor Adicionado dos sete municípios do Grande ABC ao final de 1994 totalizava R$ 37,552 bilhões. Em dezembro do ano passado, o volume caiu para R$ 25,087 bilhões. Embora em números absolutos São Bernardo, Capital Econômica do Grande ABC, tenha sido o Município da região que mais acusou os golpes do fernandismo econômico, em números relativos foi a São Caetano dependente demais da General Motors que escafedeu em parte para o Vale do Paraíba e para Gravataí, no Rio Grande do Sul, quem mais sentiu as dores do parto da desindustrialização efetiva: os R$ 5,003 bilhões de Valor Adicionado de 1994 confrontados com os R$ 2,620 bilhões do ano passado representam um tombo de 47,6%. Um pouco mais, portanto, que os 37% de queda de São Bernardo, que contava com R$ 17,167 bilhões de Valor Adicionado em 1994 e desceu para R$ 10,722 bilhões em 2001.


Nenhum Município do Grande ABC conseguiu escapar da degola do Valor Adicionado durante o Plano Real, sempre comparando 1994 com 2001. Se os dados confrontados fossem mais minuciosos, ano a ano, até chegar a 2001, os resultados seriam ainda mais dantescos. Até mesmo Mauá, que fez do Bairro Sertãozinho pólo revitalizado de indústria, não conseguiu safar-se do mergulho, porque os atualizados R$ 5,122 bilhões de 1994 caíram para R$ 3,552 bilhões em 2001. Diadema desceu de R$ 3,979 bilhões para R$ 3,637 bilhões, Santo André de R$ 5,401 bilhões para R$ 4,173 bilhões, Ribeirão Pires de R$ 809 milhões para R$ 346 milhões e Rio Grande da Serra de R$ 71 milhões para R$ 37 milhões.


Entre os municípios que listamos como referenciais externos do conjunto do Grande ABC, apenas Campinas e Guarulhos sofreram pequenos desfalques do Valor Adicionado. Barueri passou de R$ 5,110 bilhões em 1994 para R$ 7,435 bilhões em 2001, Campinas de R$ 8,956 bilhões para R$ 7,379 bilhões, Guarulhos de R$ 12,944 bilhões para R$ 11,212 bilhões, Osasco de R$ 3,508 bilhões para R$ 3,917 bilhões, Paulínia de R$ 6,238 bilhões para R$ 12,465 bilhões, São José dos Campos de R$ 9,982 bilhões para R$ 13,667 bilhões e São Paulo, de R$ 67,187 bilhões para R$ 70,066 bilhões.


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