Uma sugestão ao prefeito eleito em Santo André, Paulinho Serra, e ao secretário de Desenvolvimento Econômico Ailton Lima: deem atenta, minuciosa e detalhada olhada em Sorocaba, Interior de São Paulo, e vejam se adaptam algumas das políticas públicas locais. Antes disso, entretanto, é importante que estejam convencidos de que Santo André perdeu há muito a força industrial, situação que compromete o crescimento econômico e o equilíbrio social. Sem essa contextualização, nada feito.
A sugestão não é provocativa, apenas desafiadora. Sorocaba é benchmarking interessante a Santo André. Quando Fernando Henrique Cardoso deixou a presidência do País, em 2002, Santo André superava facilmente Sorocaba no PIB (Produto Interno Bruto). Ao final de 2014, ainda com a petista Dilma Rousseff no cargo, em substituição a Lula da Silva (essa data-limite é a mais atualizada pelo IBGE na definição do PIB dos Municípios) Sorocaba passara a perna em Santo André.
Como se sabe em economia nada é por acaso. Santo André é o adversário que escolhemos para o confronto com Sorocaba, mas poderia ser qualquer um dos demais municípios da região. Todos apanhariam feio. A preferência por Santo André é porque os dois municípios são semelhantes em população (quase 700 mil habitantes), embora a taxa de crescimento demográfico de Sorocaba tenha sido bem mais acentuada na última década.
Como sol e chuva
É muito provável que a curiosidade ou algo que poderia ser considerado planejamento econômico do novo prefeito de Santo André dê com os burros nágua. Há fundas diferenças entre uma Sorocaba que centraliza próspera região do Estado de São Paulo e uma Santo André que vive no furacão do desprestígio da periferia encalacrada à Sudeste da Região Metropolitana de São Paulo. Mas não custa nada tentar. É possível encontrar alguma coisa.
É claro que há alternativa muito mais factível com a situação vivida por Santo André e pelos demais municípios da Província do Grande ABC. O que sugeri ainda outro dia ao Clube dos Prefeitos vale individualmente para qualquer Município da região, embora os resultados que venham a ser procurados demorem muito mais e possivelmente não tenham o mesmo impacto de uma ação coletiva da região. É claro que estou me referindo à contratação de uma consultoria especializada em competitividade.
Aliás, não é de hoje que tenho sugerido aos Executivos da região a bordo do Clube dos Prefeitos olhares mais agudamente direcionados ao campo de batalha de desenvolvimento econômico levando em consideração que precisam de armas letais para derrubar as improdutividades locais. Mas como santo de casa não faz milagre, não resta outra saída senão esperar.
Quem sabe apareça na praça regional, convidado por alguma entidade de classe, alguém que revele nossas fraquezas psicossociais e, numa nova prova de nosso Complexo de Gata Borralheira, repita simplesmente o que tenho afirmado e reafirmado anos após anos: é a competitividade econômica que faz a diferença, estúpidos?
Procurem meu xará
Querem os senhores prefeitos que estão próximos a assumir mandatos uma sugestão de alguém que poderia ser convidado e na sequência contratado para desenhar o futuro de competitividade da região sem que a medida seja tomada como consequência da pregação deste jornalista? Lamento dizer que os senhores prefeitos vão sair de um Daniel e vão encontrar outro.
Está na última página da edição quinzenal da revista Exame a solução salomônica para Santo André e os demais municípios da região marcarem um encontro com o sucesso econômico. Está lá uma rapidíssima entrevista com Daniel Gómez Gaviria, responsável pela área de competitividade do Fórum Econômico Mundial, instituição que, afirma a publicação, além de organizar encontros em Davos, produz respeitados estudos e rankings. Daniel Gómez Gaviria esteve recentemente no Brasil a convite da Comunitas, ONG criada pela ex-primeira dama Ruth Cardoso. Ele falou sobre planejamento de longo prazo nas cidades, um dos focos do Fórum Econômico Mundial.
Aviso aos leitores que não esqueci da comparação entre Santo André e Sorocaba, a que me propus com a manchete deste artigo, mas vamos continuar com Daniel Gómez Gaviria porque tem tudo a ver com a temática. Respondendo à revista Exame sobre o principal conselho que daria aos prefeitos brasileiros que vão assumir em 2017, vejam o que disse meu xará:
O objetivo deve ser aumentar a competitividade. O primeiro passo é fazer uma análise. Usando os rankings disponíveis, qual é a posição da cidade? Quais são os pontos fortes e os fracos? Uma vez feito isso, é preciso definir as prioridades e ter um plano para garantir a execução.
Querem mais Daniel Lima, ou melhor Daniel Gómez Gaviria? Vejam o que ele respondeu sobre as cidades que conseguem ganhar competitividade:
É preciso ter claro o significado de competitividade. Para nós, quer dizer um grupo de fatores e condições que aumentam a produtividade da economia. Isso inclui desde a elevação da qualidade das instituições até o reforço da infraestrutura.
Mais uma pergunta da revista Exame respondida por Daniel Gómez: os temas abordados não seriam da alçada do governo estadual e do governo federal?
Em alguns casos, é verdade, que os prefeitos têm pouca ou nenhuma margem de manobra. Um exemplo disso é a política macroeconômica. Mas em vários outros temas eles podem fazer muito. Falo do combate à corrupção, da diminuição da burocracia, da melhoria da infraestrutura, do aumento da qualidade dos serviços de saúde e de educação. Até mesmo na área do trabalho os prefeitos podem ajudar.
Qualquer semelhança com o que tenho apresentado exaustivamente neste espaço e anteriormente na revista Livre Mercado não é coincidência. Mas tem mais. Vejam a resposta do especialista do Fórum Econômico Mundial sobre a área em que as cidades podem ter um papel mais relevante:
Sem dúvida é na área de sofisticação do ambiente de negócios e de estímulos à inovação. Esses fatores dependem de um ecossistema e da cooperação entre instituições. Um bom exemplo é o que acontece em Medellín, na Colômbia. Lá foi criado um comitê entre prefeitura, universidade e empresas. Um dos resultados foi a criação de uma rede de apoio a startups. A tecnologia também tem um papel importante como ferramenta para o poder público.
Reitero, portanto, a sugestão aos prefeitos eleitos na Província do Grande ABC: chamem um especialista, ouçam-no, contratem-no e faz de conta de que tudo que escrevi ao longo de décadas não influenciou em nada a descoberta da pólvora de que sem competitividade não há futuro. Para que não afirmem que estou a agir como oportunista, o verbete em questão, utilizado pelo especialista do Fórum Econômico Mundial, consta de 730 matérias e analises desta revista digital.
A goleada de Sorocaba
Para completar, vamos então aos dados comparativos da derrocada econômica de Santo André e o sucesso de Sorocaba. Em 2002, o PIB Industrial de Santo André, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) era 21,24% superior ao de Sorocaba – R$ 2.303.332 bilhões ante R$ 1.813.987 bilhões, em valores nominais, que não consideram a inflação. Já em 2014, Sorocaba consolidou a virada de jogo com superioridade do PIB Industrial de 32,65% sobre Santo André, com R$ 7.984.020 bilhões ante R$ 5.377.274 bilhões -- também em valores nominais de dezembro daquele ano.
Já no PIB Geral dos dois municípios, que leva em conta todas as fontes de produção de riqueza, em 2002, início da pesquisa, Santo André contabilizava vantagem de 22,55% ante Sorocaba, com R$ 8.514.414 bilhões ante R$ 6.594.372 bilhões em valores nominais. Já em 2014, Sorocaba acumulou vantagem de 13,90%, com R$ 32.662.452 bilhões ante R$ 32.662.452 bilhões de Santo André, também em valores nominais.
O que pesou mesmo na grande virada de Sorocaba foi o setor industrial. O PIB Industrial de Sorocaba representava em 2014 o total de 24,44% do PIB Geral, enquanto em Santo André a proporção era de R$ 19,12%. A tendência é de Santo André sofrer cada vez mais perdas no setor que mais agrega valor ao desenvolvimento econômico. Numa comparação ponta a ponta da produção industrial registrada pelo PIB dos Municípios, de 2002 a 2014, e em valores nominais, Santo André registrou avanço de 133,42%, enquanto Sorocaba cresceu 340,13%. Dá para competir?
Provavelmente no caso entre Santo André e Sorocaba, a consultoria especializada sugerida por este jornalista chegará à conclusão que tanto martelo: nosso modelo industrial já deu o que tinha de dar e para sair do encalacramento em que se meteu será preciso reinventar-se. É aí que mora o perigo para quem não é do ramo -- e é aí que mora a oportunidade para quem entende do riscado.
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