Economia

Sobrou poeira
para a região

ANDRE MARCEL DE LIMA - 10/03/2005

O museu automotivo que o Grande ABC tanto merece — mas ainda não teve competência para materializar — é a maior atração turística da gaúcha Canoas, cidade de 306 mil habitantes vizinha à capital Porto Alegre. Com acervo de 270 veículos expostos em moderno prédio de 10 mil metros quadrados, o Museu da Tecnologia da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) representa um passa-moleque no berço da indústria automobilística, que responde por 25% dos automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus produzidos no País. 

O museu gaúcho atrai 75 mil visitantes por mês, sinaliza o comprometimento do Rio Grande do Sul com uma das indústrias mais importantes do mundo em geração de empregos e tributos e consolida precocemente a imagem estadual de fabricante de automóveis a partir da instalação da General Motors em Gravataí, no ano 2000.

Por mais absurdo que pareça, o Grande ABC nunca arregaçou as mangas para converter a concentração de sedes nacionais da Volks, Ford, GM, Scania e DaimlerChrysler em plataforma institucional para a criação de museu dedicado à espinha dorsal da economia regional. Apenas a General Motors foi um pouco mais longe nessa estrada inexplorada ao anunciar, há três anos, o lançamento do próprio acervo em São Caetano. O local determinado foi um terreno cedido pela prefeitura na Avenida Kennedy. O projeto não foi adiante porque as parcerias necessárias não vingaram, conforme as palavras protocolares do vice-presidente José Carlos Pinheiro Neto. 

Desilusão em São Caetano 

Desiludida com São Caetano, a GM encontrou guarida na Ulbra. A universidade luterana havia construído prédio para o museu multimarcas e a GM aproveitou para encaixar a própria coleção sem precisar arcar com custos de construção e manutenção. 

O convênio para preservação da história da GM no campus da universidade de Canoas foi assinado em 17 de setembro de 2002, data oficial da inauguração do museu. Além de cômoda, a iniciativa foi revestida de marketing corporativo já que a montadora havia instalado a moderna fábrica do compacto Celta em Gravataí, também na Grande Porto Alegre. 

Por que a Ulbra resolveu criar museu automotivo? O reitor Ruben Becker é aficcionado por carros antigos e queria centralizar a coleção pessoal pulverizada em vários endereços. Quando concretizou o sonho, recebeu ofertas dos mais variados cantos do Brasil e do mundo. “Dos 270 veículos em exposição, cerca de 40 são da GM, e o restante foi cedido pelo reitor e outros colecionadores de dentro e fora do País” — explica Fernando Viero Filho, diretor do Museu da Tecnologia. 

Relíquia doada 

Viero lembra o caso de estrangeiro que ofereceu um Rolls Royce porque acreditava que os filhos não cuidariam tão bem da relíquia quanto o espaço especializado. “Ruben Becker é um herói por ter concretizado este museu” — exaltou ao microfone o vice-presidente José Carlos Pinheiro Neto, durante celebração dos 80 anos da GM no Brasil, comemorada com exposição especial no museu no final do mês passado, com presença do governador do Estado, Germano Rigotto. 

Sobre a importância turística para Canoas não pairam dúvidas. “Somente o convênio com a CVC garante mil visitantes por final de semana. A maior operadora de turismo do País transformou o museu em parada obrigatória para grupos de turistas que desembarcam no aeroporto de Porto Alegre e seguem para Gramado e Canela” — lembra Fernando Viero, referindo-se à empresa sediada em Santo André.

O museu instalado a seis quilômetros do aeroporto de Porto Alegre ocupa moderno edifício de quatro pavimentos, cada um dedicado a uma categoria de produto. O térreo concentra veículos utilitários, o primeiro andar reúne automóveis americanos e europeus de 1908 a 1982, o segundo é reservado a veículos americanos de 1934 a 1997 e o quarto andar é dedicado a veículos nacionais e especiais, incluindo modelos de Fórmula 1 e Indy pilotados pelo ex-campeão brasileiro Émerson Fittipaldi. 

Um passado preservado 

Em ambiente climatizado, impecavelmente limpo, de pisos caprichadamente lustrados e protegido por seguranças, os visitantes conhecem relíquias como Oldsmobile, Thunderbird, Jaguar, Chase Mod, Mercedes-Benz, Corvette, Marmon e outros ícones da indústria internacional. “Todos os veículos expostos rodam. Não são apenas enfeites” — orgulha-se o diretor Fernando Viero. Ele faz questão de ressaltar que os veículos passam por restauração, e não reforma. E explica a diferença fundamental: “Restauração resgata o frescor sem afetar a originalidade. Temos grande preocupação museológica” — enfatiza. 

Os veículos são agrupados de acordo com a década de fabricação. E cada década é contextualizada com fatos que marcaram o Brasil, o mundo e a trajetória da GM no País. A placa alusiva aos anos 40 informa o fim da Segunda Guerra Mundial, a Declaração dos Direitos Humanos, a inauguração do Museu de Arte de São Paulo (Masp) e a produção cumulativa de 200 mil veículos na fábrica da GM de São Caetano, o que obrigou a montadora a investir na ampliação naquele período. 

A década de 90 é contextualizada ao nascimento da ovelha Dolly, o primeiro animal clonado do mundo, ao lançamento do Plano Real, que trouxe a inflação galopante a patamares mais civilizados, e ao acordo entre a GM e o governo gaúcho para instalação da fábrica de Gravataí, em 3 de maio de 1999. As visitas são realizadas de terças a domingos, das 10h00 às 17h00, e o ingresso custa R$ 10,00.  

Muito mais museu

O Grande ABC não deu a sorte de contar com a figura resoluta do reitor Ruben Becker, mas tem obrigação moral de unir forças institucionais e corporativas para encarar com seriedade a proposta de museu regional que cristalize a cultura automotiva e catalise recursos financeiros com turismo. 

Mesmo atropelada pelos gaúchos, a região tem condições de recuperar o tempo perdido. Ao museu do Sul, interessantíssimo, mas voltado exclusivamente à exposição de veículos, o Grande ABC poderia contrapor exemplar muito mais completo que contemplasse a dinâmica da variada cadeia automotiva, além do mero resultado das linhas de montagem. 

Assim, além de conhecer veículos de antigamente, os visitantes poderiam desvendar as relações de fornecimento que compõem a engrenagem da indústria mais competitiva e ramificada do planeta. Compreender, por exemplo, como componentes fabricados em pequena autopeça familiar integram conjuntos mais complexos elaborados por poderosos sistemistas internacionais, antes de aterrissar nas linhas de montagem das montadoras e se transformarem em objetos de desejo que reluzem no horário nobre da televisão. 

O museu regional poderia agregar também a cadeia petroquímica, o que ajudaria a compreender como insumos obtidos pelo processamento do gás nafta na Petroquímica União tomam forma de painéis e pára-choques nas indústrias de terceira geração. Essa interligação entre diversos elos da cadeia não está presente no museu gaúcho e poderia ser o diferencial da região que reúne a quinta parte das 460 associadas ao Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Peças).

Realidade virtual 

Novas tecnologias de projeção de imagens e sons também seriam aliadas na disputa com os gaúchos pela primazia da memória sensorial automotiva. Em vez de simplesmente expor produtos, o museu regional utilizaria realidade virtual para inserir os visitantes no fantástico universo automobilístico. Poltronas que trepidassem na medida em que o carro imaginário avançasse sobre trilhas exibidas em telão simulariam as emoções de rally sem que os visitantes precisassem se expor aos perigos da selva. 

Um filme em três dimensões que proporcionasse a sensação de acelerar pelas impecáveis rodovias européias causaria filas como as que se formam para os brinquedos do Playcenter e do Hopi Hari. Para vencer a disputa com o museu gaúcho, considerado o maior da América Latina, e se solidificar de vez como a capital brasileira do automóvel, o Grande ABC precisaria de parque temático, uma usina de sonhos sobre rodas que ecoasse como programa imperdível pelo País e pelo mundo. Utopia? 

A região responsável por um de cada quatro veículos fabricados no País e por 42% do saldo das exportações na unidade mais rica da Federação tem obrigação de pensar grande, de romper paradigmas ultrapassados e saltar à frente com plano ambicioso, mas conectado à base produtiva local.   



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