Economia

Comércio estiloso
reforça apartheid

ANDRE MARCEL DE LIMA - 11/05/2005

A evidente fragilização das áreas centrais no inglório embate com os shoppings não encerra o panorama do comércio a céu aberto no Grande ABC. À distância do abismo que coloca centros planejados de compras e endereços tradicionais como Coronel Oliveira Lima e Marechal Deodoro em campos opostos — como mostrou recente reportagem de capa de LivreMercado — reluzem pólos comerciais e de prestação de serviços mais sofisticados que parecem passar ao largo da crise detonada pela desindustrialização. 

Essa é a impressão que se tem ao caminhar pelas ruas arborizadas do Bairro Jardim, pelas Avenidas Lino Jardim e Portugal, em Santo André, ou pela Avenida Kennedy, em São Bernardo. Mas que ninguém se engane: essas áreas são ilhas de prosperidade que — longe de descaracterizar a segregação comercial — reforçam a divisão por classes socioeconômicas. 

Afinal, os eixos de terciário bem recortado fora dos grandes shoppings estão incrustados nos bairros mais ricos, honrosas exceções na região de 2,5 milhões de habitantes. Resumo da história: o Grande ABC conta com vias comerciais de Primeiro Mundo mas que, pela quantidade restrita em comparação ao todo, representam grãos de areia.

Paraíso urbanístico 

O Bairro Jardim, em Santo André, é espécie de paraíso urbanístico no Grande ABC. Com índice de arborização muito superior à média regional, ruas largas e calçadas bem cuidadas, é celeiro de edifícios requintados que fazem a festa do mercado imobiliário e de moradores exigentes que não abrem mão de sofisticação. 

Um apartamento de 330 metros quadrados de área útil, quatro suítes, cinco vagas de garagem e ampla infra-estrutura de lazer no luxuoso edifício Maison Champs Elysees, instalado na Rua Padre Vieira, é vendido por R$ 1,3 milhão. A cifra é estratosférica em relação ao padrão do trabalhador médio, mas se situa abaixo do valor correspondente a imóvel similar instalado na Capital paulista.

O perfil habitacional talhado na fração populacional mais abastada forjou comércio de vizinhança igualmente sofisticado. O Bairro Jardim é pródigo em butiques especializadas em roupas de grife, barzinhos da moda, danceterias agitadas, restaurantes concorridos, colégios conceituados, pet shops, farmácias de manipulação de medicamentos, clínicas estéticas, clínicas médicas, escolas de línguas, cafés, salões de beleza, bufês e outras opções voltadas a quem tem padrão de consumo superior e investe em qualidade de vida. 

Diversidade de oferta

Não é à toa que o bairro conta com duas unidades da Padaria Brasileira, uma franquia da Chocolates Kopenhagen, a sede regional da escola de línguas Cultura Inglesa, além de alguns dos restaurantes mais sofisticados do Grande ABC como Baby Beef Jardim, Mazza Ristorante, Questo Pasta e o recém-inaugurado Bella Fiore. 

Com profusão de boas ofertas a alguns passos, o único grande problema enfrentado pelos moradores é a algazarra noturna que converte alguns bares em usina de dor de cabeça para quem deseja dormir em paz. Prova de que nem tudo é perfeito no mundo encantado do Bairro Jardim.

Da mesma forma como a concentração de moradores de alta renda guindou o terciário do Bairro Jardim a patamar superior, as avenidas Portugal e Lino Jardim desenvolveram feições correspondentes ao nível da população do entorno. Ao lado do Bairro Jardim, Vila Bastos e Jardim Bela Vista formam o pelotão de elite de bairros nobres de Santo André — constatação que pode ser conferida pela elevadíssima taxa de verticalização residencial de alto padrão. 

É justamente na órbita desses prédios de apartamentos concebidos para ocupantes do topo da pirâmide socioeconômica que comerciantes e prestadores de serviços diferenciados se instalaram para colher frutos da proximidade física importante nestes tempos de correria e de alta criminalidade.

Marco do adensamento 

O adensamento comercial da Avenida Lino Jardim toma corpo a partir da Praça Kennedy, em frente à tradicional Pizzaria Jóia, e se estende até o limite com a Rua Gonçalo Fernandes. No trecho de cerca de 500 metros encontram-se lojas de móveis sob medida, pet shops, loja de revelação de filmes, lavanderia, clínicas médicas, salão de cabeleireiros, agências de câmbio, viagens e turismo, videolocadora, butiques, barzinhos requintados, lojas de presentes infantis, escola de inglês, colégio, belas padarias e açougues chiques, e até um centro comercial que reproduz pequeno shopping, além de várias sedes de imobiliárias sintomaticamente atraídas pela valorização à volta. 

A Lino Jardim também acolhe a maior e mais completa banca de jornais e revistas do Grande ABC, a Super Banca que, além de leitura periódica, oferece loja de conveniência, artigos de papelaria, revelação de filmes, livraria, videolocadora e unidade da Padaria Brasileira. 

De tão bem elaborado, nem parece que a diversidade da Lino Jardim é fruto do acaso. E não é mesmo. É resultado da mão invisível do mercado, figura de linguagem eternizada por Adam Smith, autor da Bíblia do capitalismo A Riqueza das Nações. 

A Avenida Portugal, paralela à Lino Jardim, também oferece cenário que contrasta com o comércio predominantemente de preços baixos na Oliveira Lima e na Marechal Deodoro. A diferença em relação à Lino Jardim é que, além de reunir clínicas médicas, farmácias de manipulação de medicamentos, barzinhos descolados e escolas de inglês, entre outros, a Portugal concentra lojas de móveis, decoração e design de interiores — o que a transforma em um dos principais corredores de opções para montagem de casas e apartamentos de médio e alto padrões. Difere da Jurubatuba porque enquanto a tradicional rua de São Bernardo é a rainha do mobiliário, a Portugal reúne ofertas voltadas a acessórios de decoração.

Muitas lojas do ramo 

São quase 20 lojas do ramo: R&C Design em Madeira, Arte na América, Better Homes, Casaidea, De Canto em Canto, Buquê Decorações, Luri Decorações, Neumann Cozinhas Planejadas, Portobello Shop, revestimentos cerâmicos, Todeschini Móveis Planejados, Originalle, decorações e presentes, Cláudia Macedo, arquitetura e design, Pisoart, assoalhos, By Cla, design e arquitetura, Delanno, cozinhas e dormitórios, Yasmin Tapetes, Ellus Baby, dormitórios infantis, Padã Anã, objetos para decoração, PI 4, estofados e Archi & Forma, decoração de interiores. 

A Portugal também concentra estabelecimentos de vestuário infantil. Quem percorre a avenida pode optar entre quatro lojas amplas e bem fornidas: Belli Bambini, Happy Garden, Armazém da Criança e Baby Mania.

Assim como no caso da Lino Jardim, a mão invisível cunhada por Adam Smith é responsável pela orientação temática do comércio da Avenida Portugal. Os edifícios que despontam no Jardim Bela Vista, Vila Bastos e vizinhança pedem tapetes, móveis e artigos de decoração. E os jovens casais geram filhos e passam a se socorrer de lojas especializadas. 

Já a realidade da Kennedy, em São Bernardo, é bem diferente. 

A vocação da avenida paralela à Via Anchieta, que margeia bairros de alta classe como Jardim do Mar, Chácara Inglesa e Parque Anchieta, está visivelmente projetada ao entretenimento noturno, com profusão de bares, choperias e restaurantes que encantam pelo bom gosto e capricho das instalações. Na avenida e proximidades estão opções como Pharello, Bar Central, Choperia Liverpool, Pimenta Bar e Giramundo. A efervescência noturna afugenta moradores em direção a regiões mais tranquilas.

Residências convertidas 

Imóveis residenciais remanescentes são convertidos em estabelecimentos comerciais e prestadores de serviços. Mas a Kennedy ainda precisa espantar um fantasma para se transformar no valorizadíssimo endereço comercial apregoado por representantes do setor imobiliário: o Golden Shopping tenta se reerguer com a força gravitacional da Dicico, rede de materiais para construção instalada desde fevereiro. 

Seria ótimo se a totalidade do setor terciário regional tivesse o formato do Bairro Jardim, das avenidas Lino Jardim e Portugal ou da badalada Avenida Kennedy. Pena que a realidade do comércio fora dos shoppings é preocupante. Dos 35.465 estabelecimentos de varejo legalmente registrados no Grande ABC em 2002, 23.896, ou 67%, correspondiam a negócios que não tinham sequer um funcionário com carteira assinada, de acordo com pesquisa do boletim Observatório Econômico, editado pela Secretaria de Desenvolvimento e Ação Regional de Santo André. São microempresas de estrutura mais que franciscana, cujo quadro se esgota no próprio dono e em poucos ajudantes informais, normalmente da família. Trata-se de retrato cristalino de sobrevivência exercitada não apenas na periferia, mas no comércio central periferizado pelos shoppings. 

Enquanto Bairro Jardim e avenidas Lino Jardim e Portugal definem traços de terciário majoritariamente sofisticado na franja dos bairros ricos, o calçadão da Coronel Oliveira Lima se consolida como pólo de comércio popular de baixíssimo valor agregado. A rua que foi a passarela de compras da classe média antes do advento dos shoppings se prepara para acolher o quarto centro comercial de boxes. Depois do Plaza Box, Box Direto da Fábrica e do Oliveira Lima Center Box, é a vez do Via 16 se instalar no calçadão. Serão quase 30 boxes no imóvel ocupado durante muitos anos pela Pelicano, rede de lojas de apelo popular.

Comércio popular 

Os centros de boxes não diferem dos camelódromos organizados pelas prefeituras para centralizar ambulantes e informais. A diferença é que os camelódromos normalmente são alocados à distância do comércio formalizado e em espaços públicos, como vãos de viadutos, enquanto centros de boxes tomam forma à sombra da desvalorização imobiliária de imóveis privados.

Os boxes tem em média seis metros quadrados e oferecem basicamente roupas, cintos, bolsas e bijuterias. Para maximizar o aproveitamento do espaço exíguo, as mercadorias são penduradas em todos os cantos possíveis e a circulação fica comprometida. Os centros de boxes atraem pela facilidade de negociação do ponto comercial. Não é preciso pagar luvas nem se comprometer com contratos: o aluguel é renovado mensalmente.

Centros de boxes se tornaram uma febre numa Santo André que perdeu dois terços da arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) nos últimos 30 anos e que polarizou em dois grandes shoppings e nos eixos dos bairros nobres o que restou do consumo mais sofisticado. Além dos quatro centros de boxes na Oliveira Lima, espalham-se um na esquina do calçadão com a Rua General Glicério e um na Rua Bernardino de Campos. Batizado de Shopping de Ofertas, o exemplar da Bernardino de Campos faz vizinhança com o Tênis Clube de Santo André, tradicional reduto dos incluídos de Santo André. 

Metade do espaço interno é ocupado por um brechó que vende por R$ 3,00 saias e calças supostamente importadas. A outra parte reúne boxes de mochilas e Cds, entre outros objetos de consumo popular. O marketing é garantido por locutor que anuncia ofertas amplificadas em caixas de som.

Em frente ao autodenominado Shopping de Ofertas, na esquina com a Rua Carlos de Campos, o concorrente direto Centro Rotativo ABC está de portas cerradas e exibe o prédio pixado. Sinal evidente de dificuldades até para os que apostam no modelo supereconômico.

Sofisticação solitária 

Continuação da Avenida Portugal, a Rua Bernardino de Campos sintetiza o extremo oposto do terciário de alto valor agregado sonhado pelo então prefeito Celso Daniel. A sofisticação se resume ao imponente prédio do Tênis Clube. Comércios e prestadores de serviço populares dominam praticamente toda a extensão. 

Além de agências bancárias, a Bernardino de Campos conta com quatro lojões de produtos de R$ 1 e um salão de cabeleireiro que oferece corte masculino por R$ 5,00 e feminino por R$ 6,00. O slogan na fachada do Corte Legal — que vive lotado — é mais do que bem humorado — Não estamos em crise, estamos com Cristo. 

Menos engraçada é a profusão de clínicas odontológicas que apelam única e exclusivamente ao bolso. Jovens desempregados distribuem panfletos ao longo do dia. O custo de uma extração está cotado a partir de R$ 5,00, obturação, R$ 7,00, consertos na hora, R$ 10,00. Consertos na hora? Como oficina mecânica. Os preços baixíssimos se reduzem ainda mais: “Sobre esses valores ainda tem 10% de desconto” — explica o jovem panfletista. 

A Bernardino de Campos também está repleta de açougues populares. Para se destacar da concorrência, exibem ofertas em grandes cartazes fluorescentes e anunciam ofertas do dia em viva voz com microfones e caixas de som. O quilo de coxão mole e de coxão duro sai por R$ 4,98, que corresponde à metade do valor nas grandes redes supermercadistas.



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