Economia

Novidades para
todos os bolsos

ANDRE MARCEL DE LIMA - 27/07/2005

O apartheid no universo regional de consumo ganhou contorno mais acentuado com novos empreendimentos em São Bernardo: a Rua Marechal Deodoro consolidou vocação com a abertura de duas galerias comerciais voltadas à base popular da pirâmide social. Não muito longe dali, no requintado Jardim do Mar, mini-shopping de grifes, decorações e serviços sofisticados de beleza e estética abriu portões de olho no público privilegiado que habita o retângulo superior. 

As novidades refletem os dois lados da moeda de uma região que ostenta o quarto potencial de consumo do País mas exibe chagas sociais à altura da explosão demográfica nos primórdios da industrialização e da perda de 39% do Valor Adicionado nos oito anos do governo Fernando Henrique. 

Quem caminha pelas galerias Marechal e São Bernardo abertas em pleno eixo comercial de rua em uma das cidades mais ricas do Estado e visita o Espaço Único, em um dos bairros nobres do Município, percebe o quanto a realidade socioeconômica do Grande ABC é complexa. 

As galerias reúnem dezenas de boxes de dimensões limitadas em instalações despojadas. Oferecem roupas, calçados, bolsas e outros produtos a preços e qualidade modestíssimos — uma calça jeans sai por R$ 10,00. 

Reverso da medalha 

Já o Espaço Único é o reverso da medalha. O mini-shopping foi concebido em mansão reformada e concentra 15 grifes de vestuário adulto e infantil, moda íntima, calçados, lojas de decoração, cafeteria, floricultura, acessórios para noivas, perfumaria, escritório de arquitetura, clínica estética e estúdio de cabeleireiro e maquiagem. São 1,5 mil metros quadrados de requinte paisagístico e arquitetônico ao estilo dos bulevares franceses. 

As galerias comerciais estão nas proximidades de pontos de ônibus e trólebus porque atraem principalmente público de baixa renda não-motorizado. Já o Espaço Único dispõe de manobristas de terno e gravata, além de estacionamento para acomodar veículos que reluzem à distância, muito dos quais importados. 

Não é por falta de gosto mais apurado que os empreendedores Alessandro Vinícius e Caio Dantas investiram em galerias deliberadamente despojadas. Eles foram guiados por senso de oportunidade e sensibilidade comercial. Se tivessem apostado em formato mais sofisticado destoariam do conjunto. Assim como a Coronel Oliveira Lima, em Santo André, a Marechal Deodoro foi jogada ao acostamento pelos shopping centers que magnetizam público mais exigente e de maior poder aquisitivo. 

Tanto no centro de São Bernardo quanto na área central de Santo André proliferam centros comerciais de boxes, lojões de bancada e redes de utilidades domésticas que oferecem produtos por R$ 1 — além de bingos e empresas de crédito pessoal que literalmente caçam clientes pelas ruas. Mas o fato de os sócios das galerias comerciais terem investido em negócios encaixados à realidade não é garantia de sucesso. A concorrência pelo bolso dos menos aquinhoados é voraz.

No lugar certo

Assim como as galerias Marechal e São Bernardo, o Espaço Único também está no lugar certo. O universo regional do consumo segregado entre os shoppings e os centros voltados ao comércio popular comporta ainda o terciário mais sofisticado na órbita de bairros de alto poder aquisitivo, casos de Vila Bastos, Jardim Bela Vista e Bairro Jardim, em Santo André, e Jardim de Mar, em São Bernardo. É exatamente na categoria de empreendimentos incrustados em áreas nobres que o Espaço Único melhor se adapta.  

Eventuais dúvidas sobre o nível de sofisticação dos condôminos do Espaço Único podem ser dirimidas com visita à clínica estética WH Wellness Center. Ao passar pela porta espelhada, os visitantes ingressam em mundo à parte de atendimento impecável, bom gosto e sofisticação. Atendentes simpáticas e sorridentes servem vinho branco, oferecem docinhos e entregam kits com toalhas caprichosamente amarradas com laços verdes. 

Após a ducha, clientes passam alguns minutos em sala de relaxamento com cadeiras de madeira e teto de vidro transparente. Tomam chá e recebem massagem nos pés com água morna e sais de banho. Só depois do ritual é que são submetidos a tratamentos facial e corporal exclusivamente com equipamentos e cosméticos importados da Espanha. “Como muitos vêm direto do trabalho é importante dar boas vindas para que possam entrar no clima” — explica a diretora Roseli Aragão Casari.

Hidroterapia 

Entre as vedetes do Wellness Center — ou centro de bem-estar em bom português — estão a banheira de hidroterapia. Clientes passam por hidromassagem, ozonioterapia, massagem sub-aquática e cromoterapia em sessão de 30 minutos. O equipamento Cellutec executa drenagem mecânica para espantar o inimigo número um das mulheres. Outros tipos de massagem com produtos à base de algas marinhas retiradas da costa francesa estão entre as especialidades. 

Fiel ao conceito de day-spa, a clínica oferece diversidade de tratamentos suficiente para manter clientes por até 12 horas sob cuidados especiais. “Clientes não, spazianos” — corrige Roseli Casari. “Aqui as terapeutas são terapistas e as especialistas em nutrição são nutrólogas” complementa. 

Além de dirigir o Wellness Center, Roseli é porta-voz do Espaço Único. Ela transmite informações sobre o empreendimento no lugar do investidor que prefere se manter no anonimato. Roseli não tem dúvida de que o Espaço Único trilhará caminho de sucesso. “O Grande ABC conta com faixa seleta de público muito carente de opções bonitas e agradáveis” — considera. Os números lhe dão razão. A região de 2,5 milhões de habitantes registra 50.581 residências permanentes com renda familiar superior a 31 salários mínimos, ou R$ 9,3 mil por mês. Traduzindo: a quantidade de residências com rendimentos de Primeiro Mundo é maior no Grande ABC do que a população total de 80% dos municípios brasileiros — e cada residência tem em média quatro integrantes. 

Maioria em duas cidades

Do total de mais de 50 mil famílias, 68% estão em São Bernardo e em Santo André. Como o Grande ABC tem 723.838 residências permanentes, as famílias ricas não chegam a 8% do total. As informações são levantamento realizado pela Target Marketing com base no Critério de Classificação Econômica Brasil desenvolvido pela ABA (Associação Brasileira dos Anunciantes), Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa) e Abipeme (Associação Brasileira dos Institutos de Pesquisa de Mercado). 

Ainda pelo levantamento da Target, o Grande ABC tem 11.137 famílias de miseráveis, cujos rendimentos não ultrapassam um salário mínimo por mês. A faixa larga que compreende as famílias que recebem de 11 a 30 salários mínimos é representada por 233.029 famílias, ou quase um milhão de habitantes.  

Ironicamente, nas proximidades do Espaço Único estão dois gigantes abatidos pela competitividade do vizinho Shopping Metrópole, pela consolidação do Shopping ABC e pela chegada do ABC Plaza, em Santo André. O prédio que sediou o Best Shopping continua vago e sem perspectivas de ocupação. Já foram divulgados planos para conversão em universidade e megaaquário, mas nenhum projeto ultrapassou a fronteira da especulação.

No Golden Shopping a situação também não é digna de festejos. O centro de compras que foi sensação entre jovens e adultos até o início da década de 90 ainda não conseguiu espantar o fantasma da ociosidade e da escassez de consumidores. Nem a chegada da rede de materiais para construção Dicico resgatou um pouco do brilho do passado. A vacância se estende pela maioria esmagadora da ABL (Área Bruta Locável).

As poucas lojas abertas sofrem com visível falta de clientes. No pavimento superior, o cenário é de devastação. Há apenas uma opção na praça de alimentação, para atender funcionários das poucas lojas abertas. Nem sinal da choperia em estilo germânico que hipnotizava consumidores com canecas gigantes de um litro. Muito menos da saudável algazarra na pista de patinação. Em vez do colorido e da alegria, o ambiente escuro e deserto transmite sensação de abandono.

Alterações radicais 

Não é preciso ser expert em varejo para deduzir que o Golden precisaria passar por radical atualização de instalações. A estrutura física satisfazia consumidores no passado em que não havia tanta concorrência, mas se tornou obsoleta diante de novos e modernos contendores. Mas reformas demandam investimentos. Além disso, seria necessário desembolsar com marketing e divulgação para espantar a imagem de decadência e acompanhar o passo de grandes anunciantes como Shopping ABC, ABC Plaza e Metrópole. Quem se habilita?

Nem a recomendável adequação física aos padrões da atualidade representaria garantia de reabilitação. Prova disso é o pequeno Marechal Plaza, aberto em dezembro último na principal via comercial de São Bernardo. Apesar de instalações impecáveis, o empreendimento enfrenta dificuldades refletidas na ociosidade superior a 50% dos espaços. Na praça de alimentação a contabilidade é mais negativa, com apenas duas opções entre oito programadas. E o fato de o estacionamento ter firmado convênio com empresas próximas sinaliza ingresso na zona de desespero por receitas. A lição transmitida pelo Marechal é que não basta ter estrutura nova em folha. É preciso ter competência para tirar consumidores da concorrência num quadro de aumento da competição e redução do bolo de consumo.



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