Apesar da queda de 25,75% da produção industrial entre 1994 e 2004 — o Grande ABC não perdeu status de uma das regiões mais ricas do País, já que em poucas localidades é possível encontrar tamanha concentração de empresas principalmente dos setores automobilístico e petroquímico. Essa constatação realista é a explicação mais convincente para a chegada de mais um megaempreendimento comercial à região, o superatacadista Makro, em operação desde meados do mês passado na Avenida dos Estados, em Santo André.
A região penalizada pela evasão industrial na esteira da guerra fiscal e de inconformidades genuinamente locais ainda ostenta o terceiro potencial de consumo do País. E isso é o que mais importa aos olhos de conglomerados comerciais em busca de densidade populacional e financeira encontrada principalmente nas regiões metropolitanas.
O Makro investiu R$ 15 milhões para fincar bandeira ao lado do Auto Shopping Global. Trata-se da 51ª unidade da rede de origem holandesa que lidera vendas por atacado no Brasil — e a segunda na região, pois já contava com unidade em São Bernardo, no Km 17 da Via Anchieta.
Epicentro do consumo
Com seis mil metros quadrados, 16 mil itens de venda, 11 check-outs, 120 funcionários e 224 vagas de estacionamento, a nova loja marca posicionamento estratégico na medida em que ocupa epicentro de consumo formado por Santo André, São Caetano, Mauá, Ribeirão Pires e partes de São Paulo, como zona leste e Ipiranga. “O Grande ABC mantém poderio econômico e é muito importante para o Makro. Tanto que pretendemos abrir novas lojas na região em futuro bem próximo” — afirma o presidente Sérgio Giorgetti, ao ressaltar que a unidade de São Bernardo, aberta em 1973, foi a segunda da rede no País. A primeira foi a da Vila Maria, na Capital, em 1972.
Giorgetti lembra que a loja de Santo André tinha 20 mil clientes cadastrados mesmo antes da inauguração. “Equipes de marketing passaram seis meses visitando estabelecimentos comerciais de Santo André e cidades vizinhas para divulgar e fazer cadastramento gratuito” — conta o executivo.
O foco do Makro é formado por micros, pequenos e médios comerciantes que não dispõem de escala suficiente para adquirir mercadorias diretamente dos fabricantes, além de hotéis, motéis, restaurantes, bares, lanchonetes e padarias, identificados como transformadores. Tanto que o slogan é “O Estoque do Comerciante”. O grande apelo é a economia no valor dos produtos que, segundo executivos, oscila entre 10% e 15%.
Figurino franciscano
Além de se beneficiar de negociações diretas com as indústrias, a rede adota figurino franciscano para reduzir custos operacionais. Reza pela cartilha do low cost, low price (baixo custo, preço baixo) e está para o comércio assim como a brasileira Gol e a norte-americana Jet Blue para a aviação civil internacional. “Não oferecemos luxo e toda compra é feita com pagamento à vista. Mas garantimos qualidade e economia” — destaca o gerente-geral da unidade de Santo André, Waldir Mariano.
Ao se analisar a compatibilidade da proposta à geografia fica claro que o Makro faz bom negócio ao ampliar tentáculos no Grande ABC. Afinal, provavelmente nenhuma região brasileira testemunhou tamanha explosão de micros e pequenos estabelecimentos de comércio e serviços como a região mais atingida pela globalização.
Milhares de trabalhadores ejetados da indústria automobilística nos anos de chumbo da desindustrialização criaram negócios de subsistência que engrossaram as estatísticas de empreendedorismo. Esse público ávido por custos reduzidos em mercados disputados e até mesmo saturados integra o filão do superatacadista recém-chegado a Santo André.
Informação divulgada no boletim Observatório Econômico é esclarecedora. De uma amostra de 35.465 estabelecimentos de varejo formalizados no Grande ABC, nada menos que 23.896 — ou 67% do total — correspondem a negócios que não contabilizam sequer um empregado registrado. São microempresas cujo quadro funcional se esgota no próprio dono ou no máximo poucos ajudantes informais normalmente da própria família, de acordo com o informativo editado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Santo André.
Especialização em cursos
O Makro oferece cursos de manipulação de alimentos, higiene, gerenciamento de custos e gastronomia para ajudar clientes a se tornar mais eficientes ou agregar valor aos negócios. Afinal, o sucesso dos pequenos é essencial para a sustentabilidade das vendas no longo prazo.
O fato de apontar a artilharia de marketing a comerciantes e aos chamados transformadores não significa que o Makro deixe de atender consumidores convencionais, que vão às compras para satisfazer necessidades próprias ou da família. Eles não dispõem de carteirinhas de associados, como os clientes pessoa-jurídica, mas têm acesso às ofertas mediante autorização expedida de forma ágil e sem burocracia no guichê de atendimento ao público.
Some-se o fato de o Makro vender também em pequenas quantidades, não apenas em caixas fechadas, e chega-se à constatação de que a rede compete marginalmente com grandes redes supermercadistas que superpovoaram o Grande ABC nos últimos anos.
O Makro compete marginalmente com os varejistas, e não diretamente, porque algumas características funcionam como barreira de proteção natural a redes como Pão de Açúcar, Carrefour e Coop. O atacadista exige de clientes não-empresariais que o pagamento seja efetuado à vista e em dinheiro, restrição considerável num País cuja tradição inflacionária consagrou a cultura das vendas a perder de vista — normalmente com juros altos embutidos — e onde boa parte da população não dispõe de poupança mínima e é obrigada a financiar despesas essenciais.
Força do marketing
Além do aspecto financeiro, entram em jogo para salvar varejistas questões essencialmente de marketing. Em vez de gôndolas caprichosamente preparadas por promotores de vendas como ocorre nos supermercados, no Makro os produtos são empilhados em despojadas prateleiras metálicas, o que transmite imagem de armazém. Igualmente em prol da redução de custos, os check-outs da rede holandesa não fornecem as tradicionais sacolinhas plásticas para acondicionar compras.
Os consumidores precisam trazer sacolas de casa. Como acontece, aliás, em pequenos estabelecimentos comerciais da Europa — cuja cultura de aproveitamento total e redução de desperdícios foi consolidada nas privações de duas guerras mundiais.
Entre os 16 mil itens de 1,2 mil categorias de produtos há literalmente de tudo. Equipamentos, programas e suprimentos de informática, mobiliário para escritório, artigos de papelaria, aparelhos telefônicos, eletroeletrônicos, utilidades domésticas, produtos automotivos como pneus e óleos lubrificantes, ferramentas, tintas, colchões, bolsas, bicicletas, cosméticos, roupas, calçados, produtos de higiene e limpeza, além de alimentícios e perecíveis como peixes, carnes, aves, frutas e verduras.
Como se a condição de comprar diretamente dos fabricantes não bastasse, o Makro ainda conta com produtos de marca própria, a exemplo das grandes redes supermercadistas. Os produtos Aro são fabricados por líderes de segmentos e contemplam de ração animal a especiarias como pimenta-do-reino.
A chegada do Makro consolida a vocação da Avenida dos Estados para grandes empreendimentos comerciais. Ali já estavam Auto Shopping Global, Carrefour, Wal Mart e Sam’s Club, somente no trecho que corta Santo André. Entretanto, a transformação do chamado Eixo Tamanduateí em pólo de prestadores de serviços de alto valor agregado, capaz de compensar perdas industriais, continua sonho distante.
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