Economia

Dib prepara tudo
para mudanças

DANIEL LIMA - 13/12/2005

O prefeito William Dib sabe que o último trimestre do ano não é o melhor período para deflagrar medidas que pretendem reverter sentenças de que o Grande ABC não é mais o eldorado para investimentos automotivos. Sabe também que o ano começa depois do carnaval. Por isso, está preparando o terreno para que, superadas as festas de fim de ano, de um janeiro sempre malemolente e de um fevereiro de momo, a Prefeitura de São Bernardo lance de vez o projeto mais ambicioso que um homem público regional já empreendeu: reunir forças multilaterais para retomar a musculatura do corpo, da alma e do espírito econômico e social do Grande ABC, especificamente da indústria automotiva, responsável direta e indiretamente por 70% do PIB (Produto Interno Bruto) da região. 


Também presidente do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos e uma das alternativas ministeriais de um possível comando presidencial do tucano Geraldo Alckmin, William Dib tem feito muitas reuniões para preparar o lançamento oficial do projeto de recomposição do setor automotivo do Grande ABC. No final de novembro recebeu em seu gabinete o reitor da FEI (Centro Universitário da Faculdade de Engenharia Industrial), Marcio Rillo. Dib fez um convite pessoal para que a FEI esteja entre as instituições responsáveis pela preparação e execução da proposta de retomada econômica do Grande ABC sob bases menos dependentes dos humores macroeconômicos nacionais e internacionais. 


O sorriso de Marcio Rillo no abraço apertado que consagrou mais um parceiro do empreendimento institucional que nenhum outro prefeito do Grande ABC teve a iniciativa ao longo de 20 anos de perdas econômicas é o que William Dib definiu como nova sinalização de que a história econômica de São Bernardo e da região poderá mudar. Entusiasmado, Dib resolveu revelar um de seus planos:

“Vamos, entre outras iniciativas, visitar as principais indústrias de São Bernardo que estão no mundo automotivo. Levaremos todos os nossos secretários municipais. Sim, vou levar todo mundo para que façam radiografia de tudo que eventualmente incomode o desempenho de cada empresa em nosso Município. Queremos ter diagnóstico completo. De problemas estruturais que eventualmente estão sob a jurisdição da Prefeitura até questões tópicas, como poda de árvores. Vamos fazer um mutirão para provar que nosso interesse em relação ao atendimento de reivindicações das indústrias é política de governo” — disse o prefeito. 


Vários parceiros


O envolvimento de William Dib com o projeto de restabelecimento de força automotiva já o levou a parceiros inimagináveis para quem acredita que o Grande ABC sairá do encalacramento de competitividade internacional apenas pela casualidade de políticas públicas governamentais fora de seu controle. Dib já visitou a Bolsa de Valores, a USP (Universidade de São Paulo), a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a Anfavea (Associação dos Fabricantes de Veículos Automotores), o Sindipeças (Sindicato das Indústrias de Autopeças) e a presidência da Febraban (Federação dos Bancos). 


Todos esses agentes ficaram entusiasmados com a perspectiva de recuperação automotiva do Grande ABC. “Quando começo a imaginar o que será possível fazer com o cruzamento de tantas instituições, todas voltadas à formulação de programas que dinamizem o setor industrial da região, que melhorem a qualidade da população e que acrescentem riqueza nos indicadores de potencial de consumo, mais me sinto comprometido com a necessidade de colaborar para traçar o rumo e efetivar série de medidas com vistas aos próximos 20 anos” — afirma Dib. 


O prefeito de São Bernardo está levando a ferro e fogo o desafio implícito da “Reportagem de Capa” de LivreMercado de setembro. Numa fotomontagem sob o título “Dib, nosso JK?”, o executivo público tomou o lugar de Juscelino Kubitschek no memorável flagrante em que o então presidente da República saudava diretores, trabalhadores e autoridades públicas a bordo de um Fusca quando da inauguração da linha de produção da Volkswagen, em São Bernardo, em 1959. 


Antes mesmo de iniciar na prática um novo modelo de organização institucional que procurará atacar de frente os problemas que afligem o parque produtivo do Grande ABC, William Dib festeja o sucesso das relações com a Ford. A multinacional que há alguns anos chegou a cogitar fechamento da fábrica de veículos de passeio em São Bernardo e que, em seguida, transferiu a linha de produção de caminhões do Ipiranga, na Capital, para as margens da Anchieta, anunciou há dois meses que erguerá na mesma área uma unidade de veículos populares que falta na grade de produtos para ganhar pontos preciosos no mercado nacional. 


A participação de William Dib para que a unidade local superasse intrincadíssimo labirinto de sensibilização do comando internacional da Ford foi decisiva. “É preciso lembrar que a luta por uma nova unidade fabril no setor automotivo não passa mais pelas condições especiais que outros territórios nacionais oferecem às companhias. Hoje a competição é mundial. Isso quer dizer que estamos comemorando uma nova planta depois de termos vencido uma disputa internacional” — explicou William Dib ao reitor da FEI.


Disputa encardida


O jogo de bastidores que determinou a vitória da Ford de São Bernardo envolveu não só o rebaixamento de valores do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) como também remanejamentos de áreas públicas e privadas para a construção de um piscinão. Os efeitos da obra no sistema viário, com consequentes ganhos logísticos, tem o mesmo significado de racionalidade prática de chegar ao gol adversário através de jogada mortalmente treinada.


William Dib transborda entusiasmo quando recorre ao exemplo da Ford para demonstrar que é possível reverter a tendência de perdas industriais em São Bernardo e no Grande ABC, independentemente do comportamento macroeconômico. Novos investimentos estão no horizonte do prefeito porque o estreitamento de relações institucionais com as montadoras indica que há potencialidades de complementação produtiva que podem ser exploradas. 


Um exemplo: mapeamento preliminar dos maiores fornecedores individuais das montadoras da região já teria revelado que apenas uma parcela minoritária está instalada no Grande ABC. Reunir um banco de dados que instrumentalize ações cirúrgicas de sensibilização de importantes unidades de autopeças é uma das sugestões informalmente explicitadas. 


É certo que o prefeito William Dib não está dormindo de touca, como alguns poderiam sugerir depois do entusiasmo com que apareceu como JK redivivo. Até mesmo uma empresa especializada em organizar eventos do setor automotivo já teria sido contratada para preparar o seminário previsto para quando colombinas e arlequins desaparecerem das passarelas carnavalescas em fevereiro. O evento será realizado no Cenforpe (Centro de Formação dos Profissionais da Educação) e reunirá a nata de quem vive sobre-rodas. Entre os quais especialistas e estudantes da FEI do reitor Marcio Rillo. “E nossos alunos famosos, como o ministro de Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, o presidente da Anfavea, Rogelio Golfarb e tantos outros que saíram de nossos bancos universitários” — comenta Marcio Rillo. 


Para satisfação de um William Dib que não quer comparações com JK, mas se prepara para conquistar internamente, no Grande ABC, o mesmo grau de importância do ex-presidente, num contexto mundial muito mais complexo, no qual o protecionismo estatal-nacionalista virou sucata. Tempos mais difíceis que exigem novo modelo de gestão pública.  


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