Economia

Trabalhador industrial é mais
vulnerável em São Bernardo

DANIEL LIMA - 09/03/2017

Mais da metade da montanha de demissões de trabalhadores da indústria de transformação da Província do Grande ABC nos últimos 12 meses tem origem e destino em São Bernardo, nossa Capital Econômica. Isso não é novidade, mas se agrava.  A retórica sindicalista, sobretudo dos metalúrgicos, está indo para o vinagre. Eles podem até tentar enfeitar o pavão da eficiência operacional, mas os dados comparativos destroem prestidigitações. 

O que ao longo dos tempos teria se consumado como suposto arcabouço de proteção ao emprego formal industrial de fato é um incentivo às demissões e, principalmente, à debandada empresarial. A rigidez das normas não dialoga com a instabilidade macroeconômica. Nem mesmo durante o governo federal petista por trás dos panos. 

Que empresário com juízo no lugar quer um comitê de fábrica questionando a tudo e a todos, por exemplo? Sobretudo porque a conectá-los estão réplicas mal-acabadas de sindicalistas avessos ao capital.  

O modelo de sindicalismo rebelde de São Bernardo, repassado com nuances aos demais municípios da região, está esgotado há muito tempo, mas se deteriora na medida em que nichos resistem às intempéries. Só não vê esse quadro de esvaziamento contínuo quem não quer ou tem olhos vendados pela ideologia esquerdista, que se confunde com o anticapitalismo cutista/petista. 

Números implacáveis 

Os dados do Ministério do Trabalho são implacáveis. No balanço de janeiro, que abarca os últimos 12 meses, São Bernardo reúne o maior índice de demissões de empregados industriais da região, com rebaixamento de 9,38%. Nem a Região Metropolitana do Rio de Janeiro,  atingida por hecatombe na indústria do petróleo, sofreu tanto. É verdade que a diferença é mínima (os cariocas perderam 9,34% do estoque de trabalhadores do setor), mas o dado só reforça a dimensão da catástrofe. 

São Bernardo se rivaliza, portanto, com o setor mais frontalmente abalado pela Operação Lava Jato. O carro-chefe da indústria de São Bernardo, a indústria automotiva, é semelhantemente vulnerável em relação às companhias que giram em torno da Petrobras. 

Nem mesmo Diadema sofreu tanto nos últimos meses como São Bernardo, embora seja em larga escala satélite da vizinha mais poderosa. Diadema perdeu 7,17% do estoque de trabalhadores industriais em 12 meses. Ou seja: 23,56%. Bem menos que São Bernardo, cujo total em números absolutos foi de 7.831 empregos eliminados. Nada menos que 52,28% do total regional. 

Santo André que conta com um setor industrial quase estabilizado por baixo após décadas de golpes cortantes do maior esvaziamento estadual, juntamente com São Caetano, perdeu em 12 meses 1.518 postos de trabalho, ou 5,27% do total. 

Mais queda no horizonte

O impacto da perda de emprego industrial em Santo André quando contraposto a São Bernardo é bem menos impactante ao conjunto da economia. Enquanto os 27.286 trabalhadores industriais do estoque das empresas de Santo André representam apenas 14,39% dos empregados com carteira assinada, os 75.655 industriários de São Bernardo são 30,46% dos assalariados formais. Santo André conta com 189.567 trabalhadores em todos os setores. São Bernardo registra 248.319. 

O que aparentemente é uma vantagem de São Bernardo porque o setor industrial paga os melhores salários da praça torna-se ameaça constante que ganha corpo de desfalque permanente. Ninguém segura a barra da queda do efetivo de trabalhadores industriais no País, sobretudo em localidades que contam com maior incidência da atividade na geração de valor adicionado. São Bernardo e os demais municípios da Província do Grande ABC ainda não se deram conta de que essa aritmética aponta a novas ondas de decréscimos do estoque de trabalhadores do setor. 

Alguns soluços de avanços vão enganar o distinto público. O peso relativo do emprego industrial será cada vez menor em confronto com o conjunto dos trabalhadores. Nos anos 1970 contávamos na região com perto de 60% do total de empregos formais originários da indústria. Hoje não passam de 28%. Houve desabamento também em números absolutos, ou seja, perda líquida de trabalhadores. 

A tendência de perda de participação em número absolutos e principalmente relativos do emprego industrial em São Bernardo vai causar mais estragos no PIB local, com efeitos deletérios na economia e na sociedade da região como um todo. Afinal, aonde a vaca automotiva de São Bernardo vai, a vaca econômica dos demais municípios vai atrás. 

Perdendo de goleada 

Comparar o desempenho do emprego formal industrial de São Bernardo pretensamente protegidíssimo pelo sindicalismo da CUT com, por exemplo, a média encontrada no território nacional, é tornar a situação ainda mais dramática. Nos últimos 12 meses a indústria de transformação do Brasil registrou perda líquida de 3,84% dos postos de trabalho. Foram para o chapéu 290.175 empregos formais de um total de 7.556.640 milhões.

A tradução é que as empresas situadas em São Bernardo demitiram em termos líquidos 59% mais que a média brasileira. Esse é um custo social visível da extrema dependência automotiva. A Doença Holandesa Automotiva é uma catástrofe para São Bernardo e a região como um todo. 

O que quero dizer com tudo isso, entre outros aspectos, é que os leitores precisam acautelaram-se com o noticiário econômico. Os sindicalistas vendem ilusões e a Imprensa como um todo assina embaixo, avalizando barbaridades.

Comitês complicadores 

Querem um exemplo? Em fevereiro de 2010 o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Paulo Nobre, declarou ao jornal ABCD Maior que as comissões de fábricas de trabalhadores e sindicalistas no interior das metalúrgicas diminuíam o volume de rotatividade em relação ao restante do País. 

O dirigente sindical afirmou que, de acordo com pesquisa realizada em 2009, 33,1% dos postos de trabalho nas metalúrgicas do Brasil foram cortados e depois recriados, enquanto na Província do Grande ABC o volume foi de 17,6%. “Onde não existe nenhum tipo de comitê que envolva trabalhadores para discutir com os patrões, os empresários mandam os funcionários embora com muito mais facilidade porque as demissões no Brasil são muito baratas” – disse Paulo Nobre. 

É claro que se trata de declaração estapafúrdia quando devidamente radiografa. Os comitês de fábricas (eram 96 em 2010 na área de atuação do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC) são um trambolho na vida dos empresários. Os representantes do sindicato são uma mistura de tiranetes diante dos demais funcionários, estimulam a produção padrão, entendida como algo que não deva supostamente esfolar os trabalhadores, e vendem a ideia permanente de que patrões, como chamam os empresários, são todos ricos e oportunistas. O ambiente de trabalho onde há comitês de fábricas é uma conjugação de idiossincrasia, desinteresse, apatia e inconformismo com os privilégios dos apaniguados dos sindicatos.  Em resumo, tornam as empresas reféns de medidas ditadas pela cúpula sindical. 

Custos subestimados 

Quanto aos custos de demissões, provavelmente o então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos estava fora de sintonia. É exatamente o contrário, segundo especialistas de várias tendências. O sindicalista disse que se exauriu nos dois primeiros anos de aplicação a multa de 40% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) paga ao trabalhador como medida para evitar a banalização das dispensas. Segundo ele, as empresas já teriam incorporado ao preço dos produtos valores projetados com a medida. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.  

Disse mais Paulo Nobre ao jornal ABCD Maior: enquanto na Província do Grande ABC o volume de substituições de trabalhadores (rotatividade) nas montadoras foi de 8% durante o ano anterior, de 2009, no restante do País o índice chegou a 11%. Em outros anos, o volume atingia no máximo 3% na região. “Depois de utilizar todos os instrumentos para não haver demissão, como banco de horas, férias coletivas e licenças remuneradas, as empresas acabaram dispensando os trabalhadores. Mas, se não fosse a organização do sindicato, a gente falaria apenas em demissão e não em rotatividade”, explicou Zeira Camargo Santana, do Dieese, também ouvida pela reportagem do ABCD Maior. 

Tempo coloca tudo no lugar 

A distância temporal que separa a entrevista de Paulo Nobre e os dados de janeiro do mercado de trabalho formal nos últimos 12 meses tratou de colocar as peças desse tabuleiro de manipulações nos devidos lugares. Entre fevereiro do ano passado e janeiro deste ano, as fábricas de São Bernardo contrataram 10.486 trabalhadores com carteira assinada, mas demitiram 18.317, ou 42,75% de índice de sinistralidade, por assim dizer. Em Santo André, foram 6.691 contratações e 8.209 demissões, com índice de sinistralidade de 18,49%. 

Em São Caetano a diferença foi quase zero, com 5.066 contratações e 5.563 demissões. Diadema elevou a margem de cortes, com 7.861 contratações e 11.189 demissões no mesmo período – ou 29,74% de trocas.  Os demais municípios da região colecionaram resultados semelhantes. Ou seja: São Bernardo é campeã regional em rotatividade. E bem acima da média nacional nos últimos 12 meses, de 10,89%, com 2.373.265 contratações e 2.663.440 demissões. 

Os comitês de fábricas são uma  peça de marketing que a concorrência locacional, sobretudo no Interior do Estado, torce para que São Bernardo espalhe por toda a Província do Grande ABC. Não é o fato de uma ideia ser potencialmente positiva que se torne favorável ao desenvolvimento econômico Principalmente quando a hostilidade ao capital, que vem do passado, está nas entranhas dos agentes designados a atuar em cada chão de fábrica. 



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