O comércio, ascendente primo pobre da economia de um Grande ABC ainda consideravelmente industrial, pode começar a encontrar soluções para boa parte de seus problemas. Não será nada fácil a missão que o Consórcio Intermunicipal, Legislativos Municipais, lideranças da classe empresarial, empreendedores e também sindicalistas têm pela frente. Mas o horizonte que se traça para a região, onde comércio e serviços gradualmente vão ocupar parte dos espaços cedidos pela indústria que se descentraliza rumo a outras paragens, exige a bandeira da largada de tomadas de posições, porque só dá mil passos quem decide dar o primeiro.
E foi isso que Celso Daniel, presidente do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e prefeito de Santo André, o secretário de Desenvolvimento Econômico e Emprego de Santo André, Nelson Tadeu Pereira, presidentes das Associações Comerciais e Industriais, menos o dissidente Ivan Cavassani, de São Caetano, além do presidente do Sindicato do Comércio Varejista, José Carlos Buchala, promoveram no final de junho, em encontro na Acisa, Associação Comercial e Industrial de Santo André.
O resultado mais importante é a decisão de formar grupo de estudos com representantes do Poder Público, das entidades empresariais e dos Sindicatos de trabalhadores diretamente envolvidos, para elaborar propostas que coloquem o comércio do Grande ABC em posição avançada e segura.
Avançada no sentido de que a legislação seja permanentemente atualizada e estimule a formalização de novos empreendedores. Segura no sentido de que grandes empreendedores, sempre bem-vindos porque acrescentam modernos parâmetros aos consumidores e novos desafios à concorrência de menor poderio, não massacrem os geralmente despreparados micros e pequenos comércios.
A pauta inicial dos estudos não é nada simples. A começar pelas feiras itinerantes, que desembarcam na região sem cerimônia e compromisso e cujos expositores gozam de vantagens comparativas em seus Municípios, dá para sentir a temperatura de alguns temas.
A Feira das Malhas, rastilho de pólvora que fez com que os presidentes das Associações Comerciais se mobilizassem recentemente num manifesto público, seria repetição cabocla dos invasores asiáticos com suas bugigangas eletrônicas e produtos têxteis e calçadistas.
Wilson Ambrósio, membro do Conselho Superior da Acisa e um dos principais responsáveis pela integração das Associações Comerciais, sugeriu regras claras que enquadrem essa promoção alienígena. Valter Moura, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, diz que a programação é uma cadeia de rebaixamento privilegiado de custos que desequilibram qualquer sentido de livre-comércio.
Os expositores da região serrana de São Paulo seriam em grande parte empresas de fundo de quintal que não seguem as legislações trabalhista e fiscal e gozam de benesses legislativas municipais especificamente voltadas para a competitividade a qualquer preço. As lideranças das entidades pretendem mostrar isso ao Consórcio Intermunicipal com dossiê que está sendo preparado cuidadosamente.
Filipe dos Anjos Marques, presidente da Associação Comercial e Industrial de Diadema, propôs parceria com o Poder Público para que o Grande ABC disponha de espaço especial para feiras e exposições que valorizem empresários locais. O grande problema é encontrar área apropriada. Maria de Lourdes Zampol, da Associação de Ribeirão Pires, comentou que seu Município soube como resolver o problema recentemente: negou o alvará de funcionamento a uma feira forasteira.
José Carlos Buchala, presidente do Sindicato do Comércio Varejista, que congrega perto de 35 mil estabelecimentos, ofereceu a Celso Daniel três cardápios apimentados. Primeiro: o fim da terrível burocracia pública para o funcionamento de qualquer novo empreendimento comercial, principalmente de pequeno porte. Segundo: legislação mais cuidadosa para a recepção de grandes empreendimentos comerciais, cujos impactos muitas vezes provocam alta mortandade de pequenos negócios no entorno e transtornos urbanísticos. Terceiro: que novos grandes empreendimentos sejam capazes de gerar receitas a um fundo que possibilitaria o preparo de donos de pequenos negócios a ter o mínimo de intimidade com gestão administrativa. Uma política hobbinwoodiana.
O liberal Saul Gelman, presidente da Associação Comercial e Industrial de Santo André, inicialmente considerou a quebra dos pequenos lei natural da livre-iniciativa, um darwinismo econômico. Mas em seguida, diante das explicações de Buchala, engrossava o coro favorável a considerações mais detalhadas para amenizar o choque. Acabou sorrindo quando Celso Daniel anunciou disposição de buscar iniciativas para valorizar os corredores comerciais tão sofridos diante do instrumental de sedução dos shoppings.
Já Luiz Augusto Gonçalves, presidente da Associação Comercial e Industrial de Mauá, defendeu a regionalização da Campanha de Natal, tema do qual os presidentes das demais Associações Comerciais já estão se ocupando. Ele propôs a Celso Daniel a composição de grupo de trabalho para estudar a promoção, priorizando-se aspectos como estacionamentos, segurança e iluminação. Wilson Ambrósio completou, reivindicando estratégicas áreas públicas para exibição de outdoors da campanha. O prefeito de Santo André e líder do Consórcio foi econômico mas contundente na resposta: “Houve salto na qualidade das reivindicações” — disse, comparando as propostas atuais às antigas, permeadas de paternalismo.
Por fim, Valter Moura solicitou a Celso Daniel o apoio logístico das Prefeituras para produção de vídeo institucional do Grande ABC, com evidente exclusividade dos pontos considerados positivos, de modo a sensibilizar possíveis investidores. Também anunciou a possibilidade de a região passar a ser incluída no roteiro de negócios de delegações internacionais de empreendedores que inicialmente visitam as principais entidades empresariais da Capital. O encontro também reuniu Nilton Carlos de Paula, presidente da Associação Comercial e Industrial de Rio Grande da Serra, que assistiu a tudo atentamente, mas calado.
A liberdade de abertura do comércio aos domingos na região, o mais delicado dos assuntos do momento porque está cercado de paradoxos, contradições, perdas e ganhos para muitos dos envolvidos, acabou superficialmente analisada. Os participantes do encontro entenderam que nenhum encaminhamento ou decisão deve ser dado sem que o Sindicato dos Trabalhadores integre-se à discussão. Afinal, sem funcionários a grande maioria das empresas dos principais pólos comerciais não terá como funcionar.
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04/02/2026 OSASCO E VIZINHANÇA GOLEIAM GRANDE ABC