O mais famoso detetive da literatura mundial costumava dizer que a arte no sangue está sujeita a tomar as formas mais estranhas. Sherlock Holmes encarava a habilidade investigativa como consequência do dom artístico herdado do parentesco com o pintor francês Vernet. Foi também o DNA que fez um espanhol radicado em São Bernardo ser respeitado como um dos maiores restauradores do mundo. A semelhança entre Luis Martin Sarasá e Sherlock Holmes é mínima. Um nasceu em Barcelona, na Espanha, e, dizem, é gente de sangue quente. O outro é polido, perspicaz, se fez nos metódicos costumes ingleses. Os dois, no entanto, souberam como poucos utilizar a criatividade, a pesquisa e os detalhes para compor a essência do trabalho.
Certamente Luis Martin Sarasá jamais parou para pensar se a vida imita a arte ou a arte imita a vida. A elucubração analítica cairia como luva nos tratados sobre o detetive que supostamente teria vivido em Londres. No caso do pintor e artesão espanhol, os detalhes ganham outra dimensão e são traduzidos por horas a fio de trabalho na recomposição de monumentos históricos e artísticos por todo o País. Luis Sarasá só se afasta dos pincéis quando dorme, reconhece que aos 54 anos deveria diminuir o ritmo de trabalho, mas não sossega. É enfático ao afirmar que ainda não fez nem metade do que gostaria.
O falante espanhol não parece ser o tipo que se prende a reflexões intimistas ou precise de isolamento para encontrar o eixo do trabalho. Também não demonstra ser adepto do estilo musa inspiradora. Sua arte vem do berço e do convívio com o pai, entalhador de madeira e restaurador que imprimia a grife da família nos móveis de Barcelona. Eram os primeiros anos do século XX e foi lá que Luis Sarasá nasceu e viveu até os oito anos, antes de vir para o Brasil.
A casa que a família ocupou em Rudge Ramos, na Rua Helena Jacquey, tornou-se agência de turismo, mas ainda pertence ao clã. Luis Sarasá continua no bairro e trabalha no ateliê instalado na vizinha Vila Paulicéia. A maioria dos pedestres desconhece o que há por trás do prédio da Rua Martins. Há apenas uma pista sobre os deslumbrantes vitrais, murais e painéis produzidos do lado de dentro daquele muro para guarnecer espaços como Museu de Arte Sacra de São Paulo, Catedral da Sé e monumentos e igrejas da Itália. O nome da rua e o número do ateliê estão pintados em pequeno painel de azulejo, uma das marcas do trabalho de Sarasá.
Por pouco, Luis Martin Sarasá não se tornou metalúrgico. Formou-se ferramenteiro na juventude e tinha disposição de seguir carreira. Não colocava muita fé no talento artístico. Os dias de integrante da principal categoria profissional do Grande ABC foram interrompidos pela insistência de Gerardo, irmão mais velho já falecido. Era o primogênito que literalmente o arrastava para as exposições de arte, como se tentasse arrancar-lhe o dom adormecido. As visitas realmente funcionavam como estímulo, pois a cada retorno Luis Sarasá sempre se punha a pintar quadros.
Com o tempo os quadros passaram a despertar a atenção dos clientes que frequentavam o ateliê da família, até que em 1968 montou a primeira exposição na Prefeitura de São Bernardo. Acabavam-se ali os dias de ferramenteiro. Do óleo sobre tela passou para os vitrais, depois vieram os painéis de azulejos e cerâmica e, por fim, o restauro. A atividade tornou-se o foco do Ateliê Artístico Sarasá, comandado por Luis Sarasá desde que o irmão Gerardo e o pai morreram. O primeiro há 15 anos e o segundo há oito. Por uma dessas armadilhas do destino, Luis Lisbona foi atropelado por um ônibus em Barcelona quando visitava monumentos históricos.
"Hoje sou mais empresário do que artista. Há campo muito grande na área de restauro e onde há um monumento para ser recuperado, lá estamos nós" -- entusiasma-se Sarasá, que conta com assessoria do filho e de dois sobrinhos na empresa. A profissão de restaurador não é reconhecida legalmente. Mas talento não precisa de lei para se fazer respeitado. Há murais e vitrais de Sarasá espalhados por residências e igrejas do Brasil, dos Estados Unidos e de Roma, na Itália.
O toque artístico do espanhol radicado em São Bernardo também contempla pontos históricos do Grande ABC. Foi ele quem restaurou todos os monumentos da Serra Velha do Mar e produziu a Via-Sacra em vitral para a Igreja Sagrado Coração de Jesus no Bairro Campestre, em Santo André, entre outros. Valores sentimentais à parte, o cemitério da Vila Paulicéia, vizinho ao ateliê, pode ser considerado a maior galeria a céu aberto de obras do artista. Mesmo que a referência seja inusual, cerca de 500 inscrições e murais em azulejo feitos por Sarasá estão no local.
Se os exemplos regionais forem insuficientes para convencer os mais céticos, a lista pode ser engrossada com obras que enobrecem o currículo do profissional. Há o toque de Sarasá na fachada da Pinacoteca do Estado, no Teatro São Pedro, no Museu de Arte Sacra, no Teatro Paramount, na Sala São Paulo, no Shopping Pátio Higienópolis, no Shopping Light e nos vitrais da Catedral da Sé, todos na Capital paulista.
Uma das mais antigas obras que chegaram às mãos do artista ocupa as mesas e prateleiras do ateliê em São Bernardo. O artista está em plena fase de recuperação dos monumentos sacros da Igreja Imaculada Conceição de Maria em Itanhaém, construção de 102 anos. Paralelamente, prepara projeto para o antigo prédio do Dops, prestes a ser transformado em escola de música. A obra completará o Complexo Cultural Júlio Prestes, formado pela Sala São Paulo, Pinacoteca do Estado, Estação e Parque da Luz. Até agora a reconstrução de todo o conjunto consumiu R$ 45 milhões.
"Restaurar monumentos é como viajar pela história. Cada trabalho é único. Exige muita pesquisa e traz riqueza de informação impressionante" -- conta. Recentemente, ao examinar o prédio do Dops no Largo General Osório, centro velho de São Paulo, Sarasá e equipe encontraram fichas de alguns hóspedes estrangeiros que frequentaram os obscuros porões da ditadura militar. As provas estavam no lixo, local que os restauradores costumam encontrar pistas importantes para a reconstrução. São os detalhes da profissão.
O segredo da restauração é preservar ao máximo as características originais. Parece óbvio, mas quando a ação do tempo ou dos cupins se mostra implacável, os profissionais não têm saída senão utilizar réplicas. É nesse momento que o talento precisa ser exercitado ao máximo. Não se concebe reconstruir peças de madeira com enxertos de massa corrida. São incontáveis as reproduções de azulejos ingleses e portugueses no currículo de Luis Sarasá.
O amor dedicado a cada trabalho impede o artista de eleger o preferido. Mesmo assim, não esconde a admiração pela restauração dos elevadores, escadas e vitrais do Shopping Light. A ex-sede da Light & Power e da Eletropaulo na esquina da Rua Xavier de Toledo com o Viaduto do Chá foi transformada no final de 1999 em centro de compras com 240 lojas. Foram necessários R$ 50 milhões para a remodelação do antigo prédio.
Dificuldade -- Sempre há um trabalho que o artista nunca consegue esquecer. A restauração do painel da pintora Djanira, feito em homenagem aos mortos durante a construção do túnel Catumbi-Laranjeiras, no Rio de Janeiro, entrou para a história profissional da vida e da arte de Luis Sarasá. A obra estava numa capela sob o túnel, onde não havia acesso para visitação pública. Sarasá e equipe precisaram armar operação de guerra para remover o painel. Foram 10 dias de trabalho sobre andaimes, escoras e energia elétrica fornecida por meio de gerador. "Quando acabava a luz, a escuridão era tanta que não enxergávamos absolutamente nada. Foi o trabalho mais difícil que já realizamos" -- lembra com ponta de saudade. A restauração do painel, que está exposto no Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, demorou seis meses.
"Ainda me falta encontrar um tesouro" -- brinca Sarasá. O portfólio do artista não inclui restaurações submarinas. Ele sequer sabe mergulhar, mas não descarta a hipótese de equipar-se com pés-de-pato, snorkel e outros apetrechos para aventurar-se no fundo do mar. A vitalidade que emana dos olhos do simpático espanhol não deixa dúvidas de que ele seria bem capaz da proeza. A arte que corre no sangue de Luis Sarasá vai certamente enchê-lo de coragem, se houver a oportunidade. Parece que mais uma vez Sherlock Holmes tinha razão. Quem sabe um velho navio naufragado ainda não reserve a Sarasá a grande surpresa da vida.
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12/02/2026 REDES SOCIAIS BEM AO GOSTO DOS PODEROSOS