Sociedade

Convicção e responsabilidade,
irmãos siameses em ética

DANIEL LIMA - 20/04/2005

Não existe antagonismo ético e prático entre convicção e responsabilidade. A dialética pode procurar virar do avesso esse princípio, mas não resistirá à tabelinha Pelé-Coutinho que exala do arco da convicção que aciona a flecha da responsabilidade. A idéia de que o primeiro possa subordinar o segundo e conduzi-lo ao desastre despreza a essência etimológica do verbete. Convicção é a certeza sustentada em experiência, em fatos, em demonstração. Não tem nada a ver, por exemplo, com idolatria, messianismo, fanatismo.


É provável que os leitores estejam a perguntar o porquê dessa erudição num espaço em que temários geralmente mais digeríveis são rotina. Não é por nada não. Apenas algo que resolvi pensar com o auxílio das digitais porque, ainda outro dia, um interlocutor, desses ao qual já dediquei convicção com responsabilidade, enquanto outros lhe transpassaram a lâmina do fanatismo com irresponsabilidade, me instigou com suposta incompatibilidade entre uma coisa e outra que viraram o enunciado do título deste artigo.


Reconheço que associar convicção e responsabilidade não é tarefa à qual a maioria se dá ao desafio porque pode custar caro. Quando se tem convicção e o destino que se dá ao sentimento é o acovardamento, o individualismo, o comodismo, o que encontramos de fato é algo apodrecido, porque não exercitado. Uma espada de Dâmocles se ergue sobre a consciência dos convictos retraídos. Para o bem ou para o mal, a convicção precisa ser aplicada em toda plenitude. Mantê-la aprisionada para não ferir melindres, para obedecer cegamente enredo de patetices, para ser politicamente correto, significa a negação pragmática de algo que se consagra na própria morfologia etimológica.


Imagine o leitor alguém que tenha absoluta convicção, porque reúne elementos irrebatíveis para tanto, de que um inocente tenha sido acusado de determinado crime. O que faria o leitor se, dada as circunstâncias, com manipulações semânticas geradas por interesses diversos, inclusive ideológicos, fosse colocado em xeque para se manifestar sobre o assunto. O leitor assumiria o compromisso de expor suas convicções ou, astutamente, medindo prós e contras, substituiria a fidelidade de informações por qualquer tipo de vantagem?


Insisto ao leitor que não abandone estas linhas aparentemente herméticas. Tente correlacionar situações do cotidiano, no trabalho, em casa, na rua. Faça espécie de gincana intelectual que coloque simetricamente posições em que convicção e responsabilidade sejam questionadas quanto ao encaixe intrínseco.


É possível alguém ter convicção e, ao proclamá-la, renunciar à responsabilidade? Ou melhor: é possível alguém ter convicção e não responsabilidade? Aceitar que essa equação seja verdadeira, factível, é algo como negar a própria vida. Só tem convicção, repito, quem tem conhecimento, provas, fatos. Onde houver convicção, haverá um caminhão de responsabilidade como contraponto indescartável. Irresponsável não é quem pratica convicções, mas quem as sonega.


Quantas e quantas vezes enaltecemos quem exercita a junção indestrutível de convicção e responsabilidade? Só enxergamos complicações nesse casamento quando interesses enviesados se sobrepõem às convicções. Complicado entender? Qual nada.


Convicção e responsabilidade são a frente e o verso do mesmo material irremovível de promoção de compromisso ético, não alegoria carnavalesca que se recicla na temporada seguinte. Por qualquer ângulo que se observe, tanto um atributo quanto outro estarão direta ou indiretamente relacionados. Para que a imagem seja ainda mais contundente e explicativa, diria que esse mesmo material de promoção de compromisso ético e equidade entre convicção e responsabilidade atinge a plenitude se oferecido à imagem de um espelho de cristal. A frente e o verso serão vistos simultaneamente, integralmente, contundentemente.


Só existe uma maneira de cercear o poder imantador gerado pela convicção e encorpado pela responsabilidade: quando se destrói inequivocamente todo o arrazoado que sustenta a certeza.


Entretanto, para chegar a isso, o desconhecimento e a subjetividade de argumentos não são suportes ao contraditório saudável e regenerador. Dar elasticidade e transfigurar os genes siameses que ligam convicção e responsabilidade é assassinato.


 


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