Sociedade

Já passou da hora de mudar
o hino oficial de Santo André

DANIEL LIMA - 30/10/2020

O prefeito Paulinho Serra, a dois meses do fim do primeiro mandato, que pode ser único, entra na lista de coveiros dos chefes de Executivo de Santo André na área de Desenvolvimento Econômico. Com exceção de Celso Daniel nos anos 1996-2001, a maioria dos titulares do Paço Municipal seguiu a mesma rota de descaso com o setor industrial. Se Paulinho Serra resolvesse criar uma trilha sonora para a atuação no setor, a marcha fúnebre seria apropriadíssima. E incontestável. 

Mudar o hino oficial de Santo André, que remete a “viveiro industrial”, é providência cívica. Estão ensinando equivocadamente meninos e meninas de escolas públicas e privadas quando a ordem é cantar o hino da cidade. Quem perde o equivalente a 15 fábricas da antiga Pirelli, ou 65 de cada 100 empregos industriais desde janeiro de 1987, não pode arvorar-se reduto da indústria de transformação. Somente 11 de cada 100 empregos com carteira assinada nas empresas de Santo André estão diretamente ligados ao setor industrial. Nos anos 1980 passavam de 60%.  

Possivelmente não haveria exagero algum caso instalasse Paulinho Serra na primeira fila, de liderança, no ranking de prefeitos de Santo André que se mostraram insidiosos em relação à depauperação econômica por conta da desindustrialização em forma de Valor Adicionado e de empregos com carteira assinada.   

Centros logísticos  

Puxo pela memória e não vejo de imediato algum prefeito que tenha sido tão provocativo. Querem um exemplo? 

Esta breve análise salta logo de manhã ao ler o Diário do Grande ABC. O que vejo de manchetíssima (manchete das manchetes de primeira página) é de lascar: a Prefeitura de Paulinho Serra fornece ao jornal, que repassa porque a notícia é verdadeira, a informação de que a antiga Pirelli, agora Prometeon, vai construir um centro logístico que gerará 200 empregos de serviços. Na página interna da edição do jornal, Paulinho Serra se derrete como salvador da lavoura.  

É muita desfaçatez. Outro dia ele fez o mesmo em relação a outro centro logístico prometido, agora pela MBigucci. Um anúncio requentado, porque se repete desde 2013. A Avenida dos Estados seria a nova instalação empresarial da MBigucci.  

Por mais que um gestor público tenha a obrigação ética de informar à sociedade, também lhe cabe a responsabilidade de contextualizar as informações. Mas o que esperar do tucano de Santo André que, desde os primeiros dias de mandato, correu atrás de manchetes com informações falsas, meias-verdades e mentiras inteiras no campo econômico? Tudo isso está registrado nesta revista digital.  

Mudança indispensável  

Apenas se for mais mal-informado do que imagino, Paulinho Serra teria uma proteção ética ao alardear empregos da antiga Pirelli. Não acreditem nisso, entretanto. Paulinho Serra é mesmo ofensivo à cidadania na medida em que trapaceia informações em forma de omissões e manuseios impróprios para quem comanda uma sociedade inteira enviuvada industrial.  

A mudança do Hino Oficial de Santo André é necessidade histórica ditada pelas transformações econômicas. Nos anos 1950, quando foi concebido, a situação era bem diferente. Santo André transbordava crescimento.  

A mentira cabeluda que se acentua a cada ano de inépcia no campo de Desenvolvimento Econômico dos prefeitos de plantão exige a atualização da letra sem ferir o hino.  

Recordista nacional  

Nos últimos 34 anos e oito meses (ou 416 meses, a partir de janeiro de 1987), Santo André perdeu 65 de cada 100 empregos industriais com carteira assinada. Eram 64.491 e sobraram 22.580, até agosto último. Queda de 64,99%. Não há nada parecido na região, no Estado de São Paulo e no Brasil. No Grande ABC fortemente desindustrializado, foram 50% de baixas – de 337.634 para 170.511. Ou seja: a desindustrialização em forma de empregos formais é 23% mais grave em Santo André.  

Notem os leitores (e sempre me refiro a Santo André como um caso de coletivismo de desprezo público, não especificamente de um determinado prefeito) que a referência é histórica e não conheceu no período de 48 meses de Paulinho Serra qualquer reação. Pelo contrário: a marcha fúnebre industrial seguiu em frente.  

Mais humildade, prefeito 

Então, pergunta o leitor mais incisivo: por que a crítica ao prefeito Paulinho Serra? A resposta é simples: ao invés de ir à luta para iniciar uma virada desse jogo, o tucano não só se omite como, pateticamente, procura elementos de marketing barato para vender aos consumidores de informação a mentira deslavada (não dá para ser mais polido quando se trata de uma nova tentativa de enganação) de que supostos novos 200 empregos de serviços demarcariam o sucesso de sua gestão.  

Tenha a santa paciência! Seja mais humilde, caro prefeito. Faça como o prefeito de São Caetano, José Auricchio Júnior, que tem mais culpa no cartório de destroços do setor industrial, porque está no fim do terceiro mandato: fique em silêncio. Admita que é incompetente na gestão do futuro em forma de investimentos econômicos e manutenção do emprego do setor.  

Tenho arquivada toda a carreira ainda imberbe de Paulinho Serra à frente de Santo André. Como tenho também dos demais prefeitos atuais e dos antecessores, desde 1995. A sistemática tentativa do prefeito de Santo André de procurar enganar a sociedade com informações falsas, imprecisas, manipuladas, é agressão ética.  

Colegiado descartado  

Paulinho Serra trata a todos os consumidores de informações como otários juramentados. A proteção que a sociedade encontra está na forma do jornalismo independente que Paulinho Serra tanto detesta.  

Estou a cavaleiro para execrar a gestão de Paulinho Serra no setor econômico (sim, é isso que faço questão de fazer porque o contrário seria a submissão à inutilidade) entre outras razões porque fiz de tudo para colaborar em busca de alternativas sustentáveis.  

Lembram-se os leitores que até mesmo um grupo de voluntários, sugerido e nomeado por mim há dois anos, foi colocado na mesa de colaboração? E aprovado por Paulinho Serra? Aprovado e, em seguida, olimpicamente descartado. Sem dar a mínima satisfação aos profissionais que colaborariam com a Administração Municipal. Um grupo de trabalho enxuto. Seria a ponte que ligaria a Administração de Paulinho Serra à solução mais inteligente e providencial não só para Santo André como ao Grande ABC como um todo: a contratação de consultoria internacional especializada em competitividade econômica. 

O prefeito Paulinho Serra sabe quais eram as intenções daquele grupo. Sabe também que, de imediato, me ofereceu emprego na Prefeitura. Sabe, igualmente, que recusei. E que reiterei aquele trabalho como compromisso com a cidade. Sem protagonismo público. Sem intenções outras que não fossem a contribuição com o futuro.  

Letra desgastada  

É por essas e outras que ao ver Paulinho Serra mais uma vez desfilando ilusões nas páginas de jornais, aflora um sentimento legítimo de indignação como profissional de imprensa e cidadão regional.  

“Viveiro industrial” no Hino Oficial de Santo André é um acinte com inserção de cores fortíssimas do prefeito Paulinho Serra. Fosse minimamente realista e ao mesmo tempo exercesse análise da gestão, o tucano deveria correr para enviar ao Legislativo um projeto de lei requerendo mudanças na letra do hino.  

Se em tantos lugares do mundo, inclusive na França, hino nacional não resiste às transformações, não tem sentido Santo André seguir mentindo para a sociedade. Sobretudo à juventude estudantil.  

Mexer no hino da cidade é uma forma de cair na real de que os bons tempos da indústria de transformação não voltarão jamais. Mas convenhamos que os dias atuais não precisariam ser tão tempestuosos. Os prefeitos desde antes e depois de Celso Daniel, fraudaram todas as necessidades.   

No passado de fartura, porque a atratividade industrial era compulsória e os prefeitos não se davam ao trabalho de sequer dialogarem com os empresários.  Não tiveram, portanto, compromisso com o futuro que veio. No período de perdas cumulativas, por outro lado, prefeitos não se dignaram sequer a prepararem antídotos para reduzir as perdas a níveis civilizados.



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