Sociedade

Balanço geral: Grande ABC é
goleado e não reage ao vírus

DANIEL LIMA - 14/12/2020

Nem a mais pura das almas e o mais generoso dos corações negariam a realidade do balanço da temporada do Coronavírus no Grande ABC: perdemos de goleada para o vírus chinês e não reagimos. A medição se dá por meio de referenciais consistentes, sem chutometria. Estamos no topo do mundo. Temos comorbidades urbanas, econômicas e sociais que nos infligem derrotas inquestionáveis. Mas também colecionamos erros próprios, estruturais e culturais que nos tornam reféns da pandemia.  

Passo de imediato a alguns números que, mais que qualquer outro elemento de sensibilização, desnudam o quadro socio-sanitário em que nos situamos. 

Chegamos a 3.272 mortos, segundo emissão diária do balanço do jornal Reporter Diário. O resultado para cada grupo de 100 mil é de 115,21 óbitos. Bem mais que a média nacional de 85,57 mortes. Precisamente 25,74% acima. A região conta com 1,32% da população brasileira, mas nos registros de mortes pela pandemia alcançamos 1,80%.  

São Caetano em primeiro  

O endereço regional mais suscetível aos estragos do Coronavírus é São Caetano desde os primeiros momentos. Os 283 mortos representam 175 casos fatais para cada grupo de 100 mil habitantes. O dobro da média nacional. E 34,28% acima da média do Grande ABC. Diadema desgarrou-se da segunda colocação com 531 mortes para um total de 426.727 moradores. São 124,65 mortes para cada 100 mil habitantes. Está em terceiro lugar. São Bernardo lidera em números absolutos com 1.130 óbitos e assumiu a vice-liderança na métrica mais ajuizada. Morreram 1.130 de uma população de redondos 844 mil habitantes. São 133,88 mortes para cada 100 mil habitantes. 

Santo André segue estranhamente com números muito abaixo de São Bernardo, embora quase nada as diferencie em vários vetores. No campo sanitário, do universo de potencial de atendimento em saúde. São Bernardo é mais efetiva. São 105 mortes em Santo André para cada 100 mil habitantes. Muito acima, como se vê, da média nacional. Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra completam a lista com o total de 570 óbitos até agora, ou 17,42 do total regional.    

O caso de São Caetano é singular no Brasil e em níveis internacionais. A tempestade perfeita de estar numa região metropolitana de elevadíssima mobilidade urbana, contar com uma população expressiva de idosos e ter alta densidade demográfica, instala São Caetano no topo do ranking nacional. Os 175 mortos por 100 mil habitantes colocam a cidade à frente do Rio de Janeiro, que contabiliza 173.    

O problema central é que não somos uma região. Somos um arquipélago de sete ilhas que não se comunicam. O vírus, integrado ao globalismo sanitário, não reconhece fronteiras. Nem a segunda onda (ainda primeira segundo muitos especialistas) possibilitou a arrumação da casa regional. Somos teimosos, cegos e surdos quando se trata de ganho de escala que o regionalismo de complementaridades oferece.  

O fracasso do Grande ABC se mede no placar de óbitos pelo Coronavírus quando contraposto à população geral. Essa é a métrica mais ajuizada e sem conotação política e partidária que a mídia em geral despreza nestes tempos de fake news que vão muito além do mundo-cão das redes sociais.  

A chamada Grande Mídia que faz tudo para demonizar as mídias sociais também pratica à exaustão trambiqueiras informativas. E isso vem de longe. Muitos que acreditavam na preciosidade ética da mídia tradicional abandonaram o barco da ingenuidade. Os interesses são múltiplos.  

Terreno da ficção 

E na métrica de confronto entre mortos e respectivas populações que o Grande ABC se dá muito mal. Era previsível que se desse mal. O que não se esperava, apesar do histórico de isolacionismo institucional, é que a integração regional mesmo ante um terrível inimigo, seria mantida no terreno da ficção.  

Os eventuais arroubos de ajuntamento regional não passaram mesmo disso. Cada Município cuidou das próprias fronteiras. Ganhos sinérgicos na formulação e execução de medidas cooperadas entre os municípios jamais alcançaram dimensão sequer razoável. Perdemos feio para praticamente todos os concorrentes.   

As chamadas comunidades no Rio de Janeiro, especialmente da Favela da Maré, são muito mais articuladas no combate ao vírus chinês do que o Grande ABC cantado em verso e prosa por usurpadores da verdade.  

Não existe combustível mais apropriado para o desequilíbrio no combate à pandemia do que deixar às forças incontroláveis do próprio vírus a disposição de fazer vítimas.  

Quarteto da morte  

As condicionalidades que o Grande ABC apresenta como alertas à uniformização do que for possível na trincheira de enfretamento do Coronavírus deveriam ser estampadas diariamente pela mídia e em forma de cartazes e faixas em todas as repartições públicas, com adesão em campanhas de entidades privadas. Temos um quarteto da morte a nos rondar mais que na maioria dos territórios brasileiros: 

 Densidade demográfica elevada. 

 Focos de populações mais idosas.  

 Franjas de extrema pobreza.  

 Parte da Região Metropolitana.  

Esses quatro vetores são aliados incondicionais do vírus chinês. Está provado tanto em estudos científicos quanto na numerologia da morte.  

O governo do Estado, tão cioso em definir o grau de risco da pandemia com a distribuição cromática que torna o vermelho evidentemente mais grave e o verde mais esperançoso, deveria ter produzido algo mais explicitamente didático.  

Um mapeamento também cromático, porque explicativo, indicaria as áreas do Estado em que as condições de vulnerabilidade compulsórias deveriam receber tratamento especial, discricionário até.  

O Grande ABC e outros municípios da Grande São Paulo seriam destaques. E teriam de adotar medidas operacionais diferenciadas no campo da prevenção que impactasse menos a economia. Seria ponderadamente combativa na origem dos problemas, ou seja, nos respectivos micro territórios locais. 

Governador e presidente  

Não foi feito nada disso tanto em nível regional quanto do Estado. A burocracia na esteira de interesses políticos e partidários prevaleceu. Faz-se ainda muito marketing em torno do combate e das medidas redefinidoras de combate à pandemia.  

O governo do Estado é especialista em tirar proveito do drama sanitário. Ele ocupa no ranking de oportunismo político espaço semelhante ao do presidente da República em matéria de estupidez permanente. São faces da mesma moeda de despreparo.  

A diferença é que o governador passa a imagem de cientificidade em contraponto aos achismos do presidente. Mas ambos têm o mesmo destino popular – são rejeitados por larga parcela da população. Tanto que se esconderam nas disputas eleitorais. Viraram mico.  

Ao encontro da comunidade 

Quando sugeri (e a contagem progressiva mostra isso) que o Clube dos Prefeitos agisse de forma agressiva no combate ao Coronavírus, não faltaram ignorantes e insensatos que desdenharam das medidas adotadas em várias porções do mundo. Ou seja: a comunidade participando ativamente.  

Em linhas gerais, propus que o bando de comissionados das prefeituras (um exército que ultrapassa a cinco mil servidores públicos sem concurso) fosse preparado para ir ao encontro aos moradores, sobretudo da periferia. O exército de colaboradores, devidamente treinados, poderia detectar na origem os casos da pandemia e orientar os moradores sobre as medidas a serem tomadas. Haveria, com isso, um filtro que desafogaria as unidades de saúde e abortaria muitas mortes.  

Os prefeitos fizeram ouvidos de mercador e os executivos do Clube dos Prefeitos, alienados a ponto de estarem mais preocupados com a inauguração de uma agenda paralela sem a mais ínfima relação com o vírus, além da nova sede do Procon, não moveram uma palha sequer.  

Perdendo o jogo  

O resumo da ópera-bufa é que o Grande ABC não adotou qualquer política preventiva de enfrentamento ao vírus chinês. Houve sim estardalhaços municipalistas que não resistiram às consequências da avalanche de mortalidade.  

Em São Caetano, por exemplo, onde mais morrem moradores do que em quase todo lugar do Brasil, entre outras razões porque um quarto da população é formada por gente com mais de 60 anos, os drive-thrus ganharam muita visibilidade e baixíssima eficiência. Os testes em larga escala passavam a quilômetros de distância da metodologia recomendada.  

O estado de letargia institucional do Grande ABC, que se aplica em todas as áreas, também contaminou o ambiente de inquietação ditado pelo Coronavírus.  

A sociedade desorganizada -- que alguns caras de pau chamam de sociedade organizada -- se manteve distante de qualquer mobilização grupal ou coletiva. Nenhuma instituição saiu da clausura e do raquitismo procedimental.  

A dependência da inércia inovadora do Poder Público Municipal manteve-se intocável. Houve uma outra mobilização para sensibilizar os prefeitos seguidores incontestes do governador no fechamento de estabelecimentos comerciais. Nada mais que ações corporativistas.  

Gênese da derrota  

O vírus chinês fez a festa no Grande ABC (e continuará a fazer) porque o Grande ABC é um vasto campo no qual tudo de nocivo cresce e aparece.  

Somos uma terra sem lei, bem senso e indignação. Aqui tudo de danoso prospera. Somos a Terra do Sempre em forma de consolidação de uma vasta bagagem de impropriedades culturais que o tempo sugere descarte e esquecimento.  

Fingimos que somos uma região quando, de fato, não passamos de sete unidades provinciais que se toleram em nome do politicamente correto de um regionalismo mentiroso e omisso.  

Esperar que o vírus chinês, ante tamanha oferta de desprezo à sociedade, tivesse comportamento diferente do que o cardápio de expansão apresenta, é muita ingenuidade.  

As mortes que se acumulam são a consequência natural do estágio de paralisia social de um Grande ABC tolerante às falcatruas, desídias, enrolações e falsas verdades de todos os tipos.  

Cultuamos a obscuridade. Tratamos uma desgraça sanitária sem um gesto sequer de associativismo de mandachuvas e mandachuvinhas e ante o silêncio acovardado da opinião pública. 



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