Sociedade

Mauricio Soares, triprefeito
e 187 vezes no CapitalSocial

DANIEL LIMA - 29/03/2021

O corpo do triprefeito de São Bernardo, Mauricio Soares, foi enterrado ontem no Cemitério de Vila Euclides. Ex-advogado do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, quando Lula da Silva era um desconhecido, Maurício Soares morreu aos 81 anos. Ao longo de 30 anos da história de LivreMercado/CapitalSocial, Maurício Soares consta de 187 matérias.  

É possível que pelo menos uma dezena de registros seja incorporada a este site tendo Maurício Soares como protagonista ou coadjuvante de análises, reportagens e entrevistas. O acervo de LivreMercado, revista de papel que circulou no Grande ABC durante quase duas décadas, a partir de 1990, ainda não foi integralmente transportado para CapitalSocial.  

A Editoria de Administração Pública de LivreMercado/CapitalSocial registra apenas 29 das 187 matérias relacionadas a Mauricio Soares. É na Economia que o ex-triprefeito prevalece, com 49 registros. A primeira das quais exatamente na edição de lançamento de Livre Mercado. Sob o título “Esvaziamento industrial da região compromete poderio econômico”, Maurício Soares aparece apenas uma vez. Veja os trechos daquela análise feita por este jornalista numa LivreMercado ainda em papel sulfite e no formato tabloide. O formato e o papel-revista vieram em novembro de 1996. 

 (..) É preciso tornar o incentivo à produção marca efetiva da administração. No ABC, principalmente onde o PT elegeu prefeito, é notório o estremecimento com os empresários. Os índices de aumento de IPTU têm forte conotação corretiva, de anos e anos de política tributária nocivas de administradores relapsos, bem como um ranço ideológico que tem alguma semelhança com a Ilha do Caribe frequentada por Fidel Castro e seus companheiros. É verdade que não há identidade comum entre as administrações petistas. O prefeito Celso Daniel, de Santo André, por exemplo, tem tido pessoalmente bons contatos com representantes empresariais. Maurício Soares também não é símbolo de radicalismo. Entretanto, falta a ambos e à estrutura de recursos humanos do primeiro escalão que os cerca o apetite próprio dos capitalistas, sintetizado na constante volúpia de proporcionar investimentos. Facilidades para a implantação de novas unidades fabris poderiam soar como heresia ao partido. Já os prefeitos da região fora da órbita petista pecam mesmo pela omissão. Sem a boa vontade dos políticos, os empresários procuram encontrar saídas individuais para superar os obstáculos. Raramente questões que afligem o setor industrial na região são debatidas em grupos de empreendedores — e quando o são não têm a devida repercussão ou continuidade. 

Preciosidade jornalística  

Uma das maiores preciosidades de LivreMercado/CapitalSocial quando se refere a Maurício Soares é a reportagem/análise da jornalista Malu Marcoccia para a edição de setembro de 1997 da revista LivreMercado. O Grande ABC vivia efervescência institucional com a criação do Clube dos Prefeitos, da Câmara Regional e do Fórum da Cidadania. Leiam alguns trechos da matéria sob o título “Maurício Soares já não tem ilusões sobre ação do Estado”.  

 O prefeito Maurício Soares está preparado para grandes batalhas que vêm por aí e conta para tanto com o suporte dos vereadores. Esse ex-socialista e ex-petista que ganhou fama e prestígio como advogado dos metalúrgicos de São Bernardo já não tem mais ilusões sobre os limites de atuação do Estado. A Prefeitura deve investir em infraestrutura social e deixar atividades empresariais para quem é do ramo, no caso a livre-iniciativa. Por isso, transporte coletivo, entreposto de mercadorias e até mesmo água e saneamento vão ser privatizados. O que seria uma heresia há 20 anos, quando Maurício Soares e Lula compartilhavam ideologia, tornou-se pragmatismo. O prefeito simplesmente entende que o mundo mudou o suficiente para revelar as diferenças entre teoria e prática. E que o Poder Público é operador ineficiente. 

Mais LivreMercado 

 Não seria exagero dizer que Maurício Soares mudou na mesma proporção de São Bernardo dos últimos 20 anos. A diferença é que enquanto o Município de 660 mil moradores teve deteriorada sua qualidade de vida, o prefeito ampliou conhecimentos e não se fechou às evidências. A São Bernardo de 20 anos atrás, de baixo adensamento vertical, de morros virgens, de trânsito quase interiorano e de 300 mil habitantes a menos só existe no enorme pôster plantado atrás da cadeira no gabinete do chefe do Executivo desde Tito Costa. Mas esse pôster está com os dias contados. Maurício Soares não vai destruí-lo, evidentemente. Prefere tirá-lo dali. Vai continuar no gabinete, mas à sua frente. Cederá lugar a outro com as mesmas dimensões que mostrará, do mesmo ângulo, mas colorido, o que duas décadas podem provocar de transformações. Serão favelas subindo os morros, trânsito complicado, prédios e mais prédios a disputar cada metro quadrado. 

Apoio à iniciativa 

Naquela mesma edição de setembro de 1997 (portanto há 24 anos) redigi o “Editorial” de LivreMercado. Dei destaque especial à decisão de Maurício Soares, retratada no texto de Malu Marcoccia. Reparem os leitores que um quarto de século atrás LivreMercado expressava conceitos que ainda hoje estão no palco de debates de um País que insiste em perder tempo e em desperdiçar oportunidades de crescimento econômico e avanços sociais. Leiam:  

 A sensibilidade social que falta à maioria dos empreendedores é a contraface da obtusidade dos administradores públicos, legisladores e acadêmicos quanto ao real papel reservado ao Estado. É tão equivocado considerar que empresa foi feita exclusivamente para ganhar dinheiro como exercitar retórica ideológica contrária ao enxugamento da União, dos Estados e Municípios. O que espanta é que estão entre os defensores de teses tão furadas tanto empreendedores privados de lastro e tecnicamente bem-preparados como executivos públicos mais talentosos e que não se identificam com métodos ultrapassados de gestão de recursos dos contribuintes. Há entre eles, numa contraposição de pensamentos, o que se poderia chamar de escassez e excesso de sensibilidade. Uns entendem que a mão invisível do mercado resolve tudo; outros que a mão grande do Estado Interventor oferece as melhores garantias de equilíbrio socioeconômico.   

Mais LivreMercado 

 Fosse o Estado nacional, em suas três esferas, menos perdulário, arrogante e voraz, provavelmente a livre-iniciativa faria aflorar sua veia social de forma menos tímida. O gerenciamento pelo Estado de parte dos recursos obtidos pelas empresas no concorrido jogo do capitalismo, cuja massa de impostos no Brasil alcança a 31% do Produto Interno Bruto, é um descalabro. O notório caudal de falcatruas originárias na União, nos Estados e Municípios bastaria para destruir devaneios quanto ao tamanho do Poder Público, mas o infantilismo dogmático dos pretensos socialistas é mais resistente que os replicantes de filmes de ficção. Eles insistem em defender o gigantismo do Estado operador, quando o bom senso indica que deveriam redobrar esforços pela robustez do Estado gestor.  

 O problema todo é que o jogo duro da realidade não permite mais romantismo. A quebradeira pública, em larga escala e em todas as faixas de atuação, apenas começou. Ou os homens públicos se dão conta disso e começam a agir, ou vão ver o que os espera lá na frente, antes que seus respectivos mandatos se encerrem e eles possam ser levados a sério numa eventual disputa pela reeleição.  

Mais LivreMercado 

 O prefeito Celso Daniel, de Santo André, bem assessorado no setor de administração e finanças, teve a lucidez de enxergar o trem-bala que vinha em sentido contrário, mesmo tendo contra si fósseis sindicais e do funcionalismo público stalinista. Mas há outros prefeitos sem o necessário discernimento técnico-operacional que vão ter o prestígio esmagado se insistirem em manter castelos de areia. Entre os quais, pelo visto, não estará Maurício Soares, de São Bernardo, vertiginoso na proposta de privatizações que só a Câmara Municipal poderia abafar diante de pressões localizadas de autopreservação dos privilegiados.  

Mais LivreMercado 

 Reformas administrativas em âmbito federal e estadual são mais complexas do que as municipais. Mas todas são igualmente improváveis quando não há vontade política para executá-las. Uma equação que envolva custos e benefícios sobre a providencialidade de se meter a mão na cumbuca que Celso Daniel, por exemplo, meteu e Maurício Soares está metendo, não deve levar em conta simplesmente os imediatos dividendos político-eleitorais, linguagem que normalmente os administradores públicos alçam como prioridade nos planos estratégicos. Não há passivo maior que a combinação de demagogia e imprevidência tanto no jogo eleitoral quanto administrativo. Os contratempos de agora, decorrentes de medidas corajosas e de aniquilamento de paradigmas fora de moda, podem ser compensados mais à frente pelo saudável equilíbrio entre custos operacionais e investimentos em qualidade de vida dos contribuintes.  

Mais LivreMercado 

 O fim da inflação estratosférica não quebrou só empresas mal-geridas e não interrompeu apenas o processo macunaímico que tinha na correção monetária sua correia de transmissão. Virou passado a farra-do-boi dos preços de amanhã serem garantidos pela lucratividade de ontem, sempre com a salvaguarda das aplicações financeiras. O Poder Público, beneficiado de imediato pela estabilidade, porque deixou de ver a arrecadação corroída pela desvalorização da moeda, descuidou-se das perdas decorrentes do outro lado da moeda, em forma de compromissos financeiros igualmente protegidos pela estabilidade. O jogo de empurra-empurra estimulado pela inflação, cujo mico invariavelmente era o sucessor da autoridade de plantão, agora vai estourar no colo de quem estiver na chefia do Executivo, porque já não há a menor folga orçamentária para protelar compromissos e, muito menos, ambientes propícios a novas irresponsabilidades administrativas.  

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 Desta forma, o novo figurino dos Poderes Públicos pauta por medidas que determinam dieta rigorosa. Foi assim que ocorreu e ainda ocorre nas empresas que resistiram ao Plano Real. Foi assim que ocorreu e ainda ocorre nos Sindicatos de trabalhadores e de empresários à esquerda ou à direita da globalização, cujas medidas saneadoras, como se sabe, nos casos dos representantes dos trabalhadores, geralmente são mais contundentes que as dos patrões. As Prefeituras locais não podem agir com a mesma cara de pau e dissimulação do penetra de um grande espetáculo. E é isso que alguns prefeitos ainda estão a ensaiar, até que sejam pilhados pela dura realidade de que em regime de moeda estável, mandraquismos não têm vez. É só esperar para ver o que vai acontecer.    

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 Tanto para os gestores de empresas privadas enfeitiçados pelo dinheiro e alheios às questões sociais quanto aos administradores públicos alérgicos a equações matemáticas que estabeleçam relações responsáveis entre receitas e despesas, está a faltar o ponto de equilíbrio que o premier britânico Tony Blair, do Partido Trabalhista e que (atenção nem sempre bem-informada produção do Programa Jô Soares Onze e Meia) nada tem de marxista, evocou recentemente numa entrevista. Vejam só o que ele disse: "Acredito em uma sociedade que combine ambição e espírito empreendedor com compaixão e algum sentido de obrigação em relação aos outros".  



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