O decadente Grande ABC está pagando o preço de ter-se transformado num dos piores endereços do Estado de São Paulo em comportamento econômico, negligência institucional e desigualdade social neste século. O presente de grego veio em forma de bumerangue com o vírus chinês. No conjunto de sete municípios, a região supera o distrito de Sapopemba, um dos aglomerados humanos mais pobres de São Paulo, no critério de letalidade. Ou seja: morre mais gente na região a cada grupo de 100 mil habitantes do que naquela área da Capital.
Teria sido melhor a pandemia não aparecer no radar de complicações dos administradores públicos municipais. Daria, por conta disso, fôlego suficiente para os triunfalistas continuarem a enfeitar o pavão com ficções que, agora, não resistem à prova dos nove no que há de mais inquietante, ou seja, a incapacidade de traduzir indicadores sanitários em eficiência administrativa.
Se no âmbito da regionalidade o Grande ABC é um fracasso frente ao desprezado Sapopemba, um dos piores indicadores de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano entre os distritos da Capital) em termos municipais o desastre é semelhante.
São Caetano mais letal
A festejadíssima São Caetano, com o menor estrato municipal de pobres e miseráveis relativamente à população no Grande ABC, ultrapassa de forma ainda mais vexaminosa o território à Leste da Capital. O constrangimento é acompanhado por Santo André e São Bernardo. Ou seja: as peças geoeconômicas mais tradicionais e mais consolidadas da região apanham duramente de um distrito carente da vizinha Capital.
A Folha de S. Paulo dedicou uma página inteira na edição de ontem ao estágio de precariedade de Sapopemba no enfrentamento do vírus. A manchete de página (” Número de óbitos de Sapopemba é maior que o de 626 cidades de SP”) expressava um conteúdo detalhista. Não é preciso dizer que a reportagem seria muito mais bombástica se o confronto fosse entre Sapopemba e a ainda cultuada região do Grande ABC, como a Grande Mídia trata este território outrora avançadíssimo em relação à média brasileira graças sobretudo à chegada da indústria automotiva.
A diferença entre a reportagem da Folha de S. Paulo em relação ao que CapitalSocial publica neste texto é que traduzimos a quantidade de mortes de números absolutos para números relativos, padrão estabelecido pela ONU (Organização das Nações Unidas).
Métrica internacional
Essa métrica-padrão determina a divisão de casos letais pelo número de moradores. A conta mais comum é definir resultado para cada grupo de 100 mil ou um milhão de habitantes. CapitalSocial adota desde as primeiras informações sobre o Coronavírus o padrão por 100 mil habitantes em caso de municípios. Também o utiliza nas comparações entre países, embora estenda os dados ao padrão “por milhão de habitantes”.
Não tem sentido prático e explicativo desprezar a métrica por 100 mil habitantes ou um milhão de habitantes. Exceto quando se pretende trabalhar os números de forma inadvertidamente culposa ou deliberadamente dolosa, Territórios de tamanhos populacionais distintos não podem ser dispostos como se fossem iguais ou semelhantes.
Números absolutos enganam tanto que retiram qualquer resquício de interpretação ajuizada. Exemplos não faltam em todas as atividades. Na área de Segurança Pública, municípios e Estados são uniformizadas com a adoção do critério que leva em conta cada grupamento de 100 mil habitantes. O Estado de São Paulo é em números absolutos campeão destacado em homicídios no País. Entretanto, quando entra em campo a razoabilidade populacional, é um dos pontos da Federação de menor incidência de mortes.
Parece exagero ter de repetir de vez em quando esse conceito, mas a audiência rotativa impõe esclarecimentos. As redes sociais são termômetro desse desconhecimento ou da tática de tergiversar. Sempre que se anuncia em chamada de aplicativo a publicação de determinada análise que leve em conta critério por 100 mil habitantes, não faltam objeções sem fundamentação técnica. A discordância geralmente é político-partidária, quando não ideológica. As redes sociais são um festival de provocações em forma de contestações vazias.
Números desanimadores
O confronto entre o Distrito de Sapopemba e o Grande ABC é ultrajante quando se tem a história de desenvolvimento econômico da região. Badaladíssima pela mídia triunfalista como a sétima maravilha do capitalismo brasileiro, a região registrava ontem, segundo informações do jornal digital Reporter Diário, 6.526 óbitos por causa do vírus chinês. Com 2.807 milhões de habitantes, chega-se ao registro de 232,49 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. Já a Folha de S. Paulo contabilizava 667 mortes em Sapopemba, que, divididas por 300 mil habitantes resulta em 222,33 mortes pelo mesmo padrão populacional.
A situação do Grande ABC, município por município evidencia o que é São Caetano no balanço geral do Coronavírus um ano depois do primeiro caso de óbito. Com população de 161.957 habitantes, São Caetano registra 583 mortes, ou 359,97 para cada 100 mil habitantes. Traduzindo: o morador de São Caetano corre 38% mais risco de morrer do vírus chinês do que o morador do Distrito de Sapopemba.
Embora em outros confrontos São Caetano tenha o respaldo de que conta com alguns vetores decisivos à vulnerabilidade na pandemia, caos de densidade demográfica, população de idosos e localização na Grande São Paulo, na disputa de letalidade com Sapopemba há menos atenuantes.
Morfologia semelhante
Com apenas 13,5 quilômetros quadrados de território e 300 mil habitantes, Sapopemba só tem mesmo de diferencial de São Caetano como passivo compulsório a menor proporção de habitantes com mais de 60 anos. Em São Caetano são 23% da população. Faltam números de Sapopemba, mas a demografia ocupacional sugere que a participação da população idosa é bem inferior.
Santo André também registra mais letalidade por 100 mil habitantes do que Sapopemba. São 1.771 óbitos até ontem para uma população de 721.368 habitantes, o que dá 245,50 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes. Um pouco mais que São Bernardo, também superior a Sapopemba. A Capital Econômica do Grande ABC, um dos endereços que mais se empobreceram no País neste século, registra 1.974 óbitos pelo Coronavírus para uma população de 844.483 habitantes, ou 233,75 por 100 mil habitantes.
Diadema tem características semelhantes à do Distrito de Sapopemba em densidade demográfica, situação geográfica na Grande São Paulo e na ocupação por classes sociais. E registra média por 100 mil habitantes inferior ao distrito da Capital, com 205 mortes. Um pouco acima dos 211 por 100 mil habitantes de Mauá, com população de 477.552 mil habitantes e 1.011 casos letais. Ribeirão Pires de 124.159 habitantes registra 234 óbitos, o que dá 188 por 100 mil habitantes. Rio Grande da Serra de 51.436 habitantes registrou até ontem 76 mortes, o que dá como resultado 147 para cada grupo de 100 mil habitantes.
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02/03/2026 MUITO CUIDADO COM OS MARQUETEIROS