Sociedade

Quantos mandachuvas estão
no controle do Grande ABC?

DANIEL LIMA - 05/07/2021

Em abril de 2014 (portanto, há mais de sete anos), escrevi um artigo que valeria um milhão de dólares de comprometimento social: “Não mais que 30 mandachuvas dão cartas na Província. Como mudar?”. Como estou próxima de anunciar um novo livro, com uma característica muito especial (não o lerei pós-publicação impressa e digital), volto no tempo para reproduzir aquele texto. Não apenas isso: vou intercalar cada grupo de parágrafos com o que temos hoje em dia. Uma atualização mais que necessária.

Se o leitor quiser saber, portanto, quantos mandachuvas temos no Grande ABC, é melhor ler o que se segue. Garanto, antecipando a resposta, que o grupo de mandachuvas diminuiu substancialmente de tamanho. O que isso significa? Significa que estamos piores em cidadania do que antes.

Como é possível compreender que com menos mandachuvas na praça, mais sinais de empobrecimento de capital social registramos? Simples: nesse caso, menos é muito mais probabilidade de controle da sociedade desorganizada.

Quem lê a expressão “sociedade desorganizada” sabe que a introduzi no léxico de rebeldia mais que justa, em contraposição aos áulicos dos poderosos de plantão que de vez em quando botam a cabeça de subserviência de fora para exaltar suposta sociedade organizada. Uma falácia sem tamanho.

Então, vamos ao que interessa? Vou reproduzir aquele texto que já completou sete anos (e que é candidato seríssimo a integrar o novo livro de minha autoria, cuja edição não tem data de lançamento e não a verei entregue em forma impressa a pelo menos cinco mil leitores na região. Vamos lá:

O artigo de 2014

Sem exagero, não mais que 30 pessoas mandam e desmandam na Província do Grande ABC. E olhem que estou esticando a corda. Se adotasse quantificação mais seletiva, o número seria reduzido à metade. Mas fiquemos nos 30 mandachuvas que comandam a política, a economia, a institucionalidade, os meandros sociais. Esses elementos, em larga maioria, estão preocupados apenas com os próprios bolsos. A entidade cerebral que pretendemos ver reluzir, e contra a qual muitos desses 30 mandachuvas já estão de olhos arregalados, loucos para dinamitar, seria uma maneira de ampliar exponencialmente o universo de decisões, democratizando informações a camadas de formadores de opinião imobilizadas, quando não desnorteadas.

O que temos hoje

O número de mandachuvas para valer no Grande ABC, de gente que influencia as decisões quer porque a sociedade desorganizada é uma lástima, quer porque se vende gato por lebre, quer porque quem poderia oferecer resistência está acovardada ou acomodada, o número de mandachuvas na região não chega a uma dezena.

O artigo de 2014

Não me lancei ainda a produzir a lista dos 30 mandachuvas da região, muitos dos quais diretamente responsáveis pela condição de Província que ostentamos. Se me dedicasse à tarefa, teria de traçar um breve perfil de cada um. Conheço todos eles de forma direta ou indireta. Eles estão sempre à espreita. Perseguem quem ousa não lhes dar trégua. Muitos se detestam, porque ocupam espaços muitas vezes conflitantes, não se suportam até, mas quando se trata de acomodar situações, cerram fileiras em torno de medidas nem sempre republicanas. Não confio nem a pau nesses 30 mandachuvas, e tampouco nos estimados 200 mandachuvinhas que os cercam, que os servem, que os bajulam e que os protegem.

O que temos hoje

A situação se deteriorou além da conta previsível com o rebaixamento da quantidade de mandachuvas. O escárnio reservado à Operação Lava Jato, cujo símbolo de herói virou vilão, é a coroação das roubalheiras que se institucionalizam no Grande ABC, particularmente em Santo André onde mais que em qualquer outro endereço as forças externas do que existe de pior na política se tornaram espécies de mandachuvas especiais a tutelar gataborralheiras locais. O afrouxamento da sociedade elevou-se e se configura nestes dias ao que historicamente mais se assemelha ao regime escravocrata convencional. A diferença é que nestes tempos os escravos não têm apenas uma cor. São multicoloridos na fraqueza e na disputa por um naco qualquer de proteção em forma de mandachuvinhas, estes sim em maior número que antes, o que significa que digladiam por menos subpoderes relativos.

O artigo de 2014

Duvido que se cada um dos leitores mais conhecedores da Província do Grande ABC resolver fazer uma lista com um número mesmo que inferior de mandachuvas que se enquadrariam no perfil de detentores de poderes na região, não existir uma grande margem de coincidências, que não são coincidências, quando confrontada com a relação que ainda não me dei ao trabalho de preparar.

Está na cara quem são os protagonistas mesmo que dissimulados da cena de mandonismos da Província do Grande ABC. Gente do bem mesmo, gente que pensa em gente, gente que olha além do próprio umbigo para valer, esse tipo de gente é expressiva minoria nesse agrupamento.

O que temos hoje

Os mandachuvinhas, ou seja, aqueles que direcionam holofotes de entreguismo da alma aos mandachuvas, são cada vez mais perniciosos porque disputam entre si e cada vez em maiores proporções o resto do resto de poder. Os mandachuvas, aliviados em larga escala pelo desenlace da Operação Lava Jato, acreditam que podem fazer o que bem entenderem. O Grande ABC é uma província sem importância maior no contexto estadual e nacional, tornando-se, portanto, campo fértil às barbaridades.

O artigo de 2014

Se levar a ferro e fogo o conceito de mandachuvas, que implica mais para a banda do pecado do que da virtude, não haveria mesmo gente do bem, porque os mandachuvas eliminam qualquer resquício de benevolência, de solidariedade, de cidadania, temerosos de reviravolta no placar. Daí a importância de a entidade cerebral sair da mente de cada um de nós e virar realidade. Mesmo sem enfrentá-los diretamente, porque essa não é a melhor tática, quanto menos a melhor estratégia, as atividades da entidade cerebral poderiam impactá-los. Eles dependem decisivamente da passividade social, da falta de lideranças sérias, do engate de iniciativas que encontrem o futuro como ponto de honra.

O que temos hoje

Levei adiante um projeto de entidade cerebral. Pintou-se quadro de transformações, mas logo se descobriu que, para cada dois dos convidados sobre os quais depositava e deposito inteira confiança, porque são cidadãos de verdade, havia um oportunista de plantão, espécie de observador dos mandachuvas. Ou seja: gente infiltrada que se fazia de honrada e dedicada às causas do Grande ABC, mas que pretendia bisbilhotar aquele ensaio de organização da cidadania. Muitos desses malfeitores se lançaram nos braços de mandachuvas e se tornaram mandachuvinhas empedernidos.

O artigo de 2014

Os mandachuvas da Província são como todos os mandachuvas de tantas outras geografias: eles temem o coletivismo organizado e dão de ombros, quando não sussurram sarcasmos, ao coletivismo disfarçado de organização, mas que no fundo não quer outra coisa senão a valorização do passe de algumas individualidades sempre prontas à cooptação regiamente compensada. Eles, os mandachuvas, também praticam o jogo da falsa participação, da falsa comoção, porque inventam cases com o intuito de ludibriar os incautos. Criam fantasias em forma de marketing para sugerir solidariedade social.

O que temos hoje

Como são quantitativamente menos, mas qualitativamente mais poderosos, os mandachuvas estão leves e soltos para perpetrarem no campo de marketing as mais insidiosas mentiras e meias-verdades. Jamais em toda a história o Grande ABC comportou dualidade tão exasperante: de um lado estão os falastrões mandachuvescos e seus mandachuvinhas amestrados e de outro uma sociedade congelada por um contexto diversionista que tem como plataforma de alienação as redes sociais voltadas principalmente à política nacional.

O artigo de 2014

Por que o caro leitor não faz uma experiência? Prepare sua listinha dos mandachuvas que têm poderes muitas vezes sobrenaturais, porque imunes a qualquer tipo de penalidade legal. Pensem bem. Analisem os acontecimentos dos últimos anos, vejam o que eles andam fazendo, verifiquem o que já fizeram e imaginem o que possam fazer. É tão fácil chegar a um número razoável deles. Algo como tirar doce da boca de criança.

O que temos hoje

Os mandachuvas que comandam o Grande ABC estão cada vez mais poderosos. Nada mais lógico e natural porque, cada vez mais poderosos, eles capturam e transformam em vassalos os mais diferentes setores da sociedade. Fazem da cidadania um verbete muito especial em significado reestruturado. Vendem a ideia de que são magnânimos, inquietos com as iniquidades sociais quando, de fato, se refestelam em prazeres materialistas e mundanos. São os piores exemplos a uma sociedade que não os identifica com o senso crítico adequadamente punitivo.

Mais artigo de 2014

Os 30 mandachuvas da Província do Grande ABC manobram de tal maneira os escaninhos dos podres poderes públicos, porque boa parte deles é integrante dos podres poderes públicos, e se especializaram tanto em marketing pessoal, corporativo, social e político, que, muitos deles, passam a imagem de que são magnânimos e, portanto, merecedores de reverências, referências, comendas e outros badulaques. Não faltam filantropos entre os mandachuvas, porque filantropia confere selos de seriedade e de respeitabilidade. Há marqueteiros especializados em assessorar mandachuvas para tornar algo pretensamente comovedor a imagem difusa, quando não tormentosa, de que desfrutam.

O que temos hoje

O que torna paradoxal a miniaturização seletiva e repulsiva da leva dos mandachuvas do Grande ABC é que por mais que a sociedade desorganizada emita sinais de que está mortinha de silva, subsiste nas entrelinhas da vida de cada inconformado silencioso a expectativa de virar a canoa de tranquilidade delinquencial dos canastrões que se pretendem absolutistas ao longo dos tempos. O aparato dos mandachuvas sempre assessorados por mandachuvinhas pretende empurrar goela abaixo dos súditos estáticos o impraticável convencimento de que tudo corre às mil maravilhas na região. Como se o Coronavírus, por exemplo, não expusesse com montanhas de mortes muito acima da média nacional, e pau a pau com os piores endereços internacionais, o despreparo geral e irrestrito na aplicação de políticas públicas.

O artigo de 2014

Por conta desses 30 mandachuvas a Província do Grande ABC está como todo o mundo sabe como está. Há décadas que eles, os 30 mandachuvas, estão aí na forma de atuar, de manipular, de doutrinar, de avacalhar. Eles são apenas replicantes de cópias que já se foram desta vida ou estão no banco de reservas provisório ou não, ditado principalmente por resultados eleitorais. Encontrar os originais mandachuvas só mesmo com rastreamento da história regional. Não vale a pena perder tempo. Que o tempo seja despendido em minimizar e quem sabe neutralizar tantos podres poderes que eles manipulam. Os mandachuvinhas possivelmente sejam piores que os mandachuvas, porque são os primeiros a lhes conferir atributos mais que ofensivos ao conjunto da sociedade, induzindo-a a acreditar que vorazes mercantilistas, quando não corruptos, podem ser anjos também.

O que temos hoje

Se havia há sete anos o ensaio geral de que os mandachuvinhas poderiam ser piores que os mandachuvas, porque tratavam da lubrificação da engrenagem de incompetências e incorreções, nestes dias de início de terceira década de um Grande ABC duramente abatido no campo econômico, tornando-se endereço em decadência mais acentuada, os mandachuvas são mais perniciosos. Eles se atribuem poderosos locais com ampla proteção de caciques políticos de biografias vinculadíssimas a escândalos geralmente impunes. Os mandachuvas locais destes tempos são mais resilientes. Fazem parte da industrialização da malandragem sem limites.

 



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