A Imprensa desmemoriada não associa as repercussões nacionais e internacionais do assassinato do prefeito Celso Daniel em janeiro de 2002 ao rebaixamento drástico de casos de homicídios dolosos no Estado de São Paulo, inclusive no Grande ABC, a partir de então. Trata-se de amnésia causada pelo sucateamento das redações e pelo fastfoodiano método de produzir notícias burocráticas, subestimando-se a inteligência dos leitores com produtos pobres em análises, pesquisas e massa cinzenta.
Tendo-se como referência 2001 — quando Celso Daniel ainda vivia — e chegando a 2010 recém-encerrado, contabilizamos exatamente 49.401 vidas poupadas por conta da reação ao escândalo da falta de segurança pública entre os paulistas naquele período de empobrecimento escandaloso da Região Metropolitana de São Paulo. Tempos de abertura econômica desastrada, de juros elevadíssimos, de guerra fiscal e muito mais. Tempos de uma metrópole entregue às baratas.
Celso Daniel também serviu de bucha de canhão para uma das manobras mais mesquinhas da história da criminalidade nacional, ou seja, a busca desesperada de um bode expiatório, no caso Sérgio Gomes da Silva, pautado pelo Ministério Público como mandante do assassinato.
Ao final deste texto os leitores terão a oportunidade de verificar um dos muitos trabalhos que realizamos à frente da revista LivreMercado. Naquela edição de maio de 1999 — portanto, já se passaram praticamente 11 anos — ouvimos o que era de mais importante no setor de Segurança Pública no Grande ABC, no caso o coronel Roberto Nogueira, titular do 6º Comando de Policiamento de Área-6 da Polícia Militar, com atuação nos sete municípios do Grande ABC, e os delegados seccionais de Santo André, João Gilberto Pacífico, e de São Bernardo, Pedro José Liberal, responsáveis pela Polícia Civil. Menos de dois anos após aquela entrevista, Celso Daniel estava morto. Uma morte comprovadamente de ocasião, como tantas outras.
A leitura daquela entrevista é obrigatória para quem pretende entender o caso Celso Daniel. A Grande São Paulo era uma terra sem lei. Sequestros abundavam. O prestígio da cúpula da Segurança Pública do Estado escorria pelos ralos do descrédito. Viviam-se situações de tensão. Até que veio o assassinato de Celso Daniel, marco zero no restabelecimento da lei e da ordem não só na Grande São Paulo, mas em todo o Estado. Os índices de criminalidade foram reduzidos drasticamente. Ainda estão um pouco acima dos níveis internacionais de civilidade, mas houve avanços consideráveis.
O governador Geraldo Alckmin é responsável pela ação desencadeada no dia seguinte ao sepultamento de Celso Daniel. A comoção nacional determinou mudança havia muito solicitada pela cúpula da Polícia Civil e da Polícia Militar do Estado. O PT não desperdiçou a oportunidade política e eleitoral ao partidarizar o assassinato de uma de suas maiores estrelas. Com isso, abriu uma vereda imensa ao contragolpe tucano de imputação do caso a possíveis propinas na administração municipal em Santo André. O resto da história todo mundo conhece. O que era um crime comum, virou crime de encomenda.
Vejam o que disse a então prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, indignada com o sequestro:
A Capital chegou no limite de tolerar, de conviver com essa onda de violência e sequestro. Providências mais sérias têm de ser tomadas. O governador Geraldo Alckmin tem de agir. Ninguém aguenta mais, desabafou Marta, em Santo André, num texto publicado pelo Estadão.
O governador Alckmin não quis rebater as afirmações da petista: “Não vou fazer debate político sobre isso, afirmou em Barretos, no Interior do Estado, à tarde, ao afirmar que estava em contato permanente com o secretário de Segurança Pública, Marco Vinício Petrelluzzi, naquela tarde de sábado, 19 de janeiro de 2002. O corpo de Celso Daniel foi encontrado na manhã seguinte em Juquitiba, na Grande São Paulo.
O secretário Marco Vinício Petrelluzzi, nomeado em fevereiro de 1999 pelo então governador Mario Covas, não agradava às forças policiais. As tropas estavam desaparelhadas, os soldos seguiam ritual ofensivo às responsabilidades funcionais e à qualidade de vida do efetivo, mas a contrapartida a eventuais excessos nos embates com facções criminosas era extremamente desestimulante.
A demissão de Marco Vinício Petrelluzzi pelo governador Geraldo Alckmin, candidato à reeleição, foi apenas uma face da moeda da reviravolta da política de Segurança Pública do governado do Estado. Petrelluzzi foi substituído pelo implacável promotor público Saulo de Castro Abreu Filho. Adeus política de Direitos Humanos. É verdade que colaborou para a queda dos casos de homicídios e sequestros, entre outras iniciativas, o acordo entre facções criminosos e policiais civis e militares de preservação das cidadelas de tráfico de entorpecentes.
A contabilidade que permitiu chegar ao total de 49.401 vidas poupadas desde o assassinato de Celso Daniel é simples. Começa com o total de homicídios em 2001 no Estado de São Paulo (exatamente 12.475). Mantido esse total em cada um dos nove anos subsequentes (os números avançavam ano a ano no Estado, mas fiquemos com a estabilização), chegaríamos a 112.275 casos registrados. Como houve o efeito Celso Daniel, durante todos os demais anos que se seguiram, até 2010, os homicídios caíram drasticamente no Estado. Nesse período, foram assassinadas 62.874 pessoas. A diferença entre a projeção e os registros (112.275 menos 62.874) é de 49.401.
Já quanto ao Grande ABC, que registrou 949 assassinatos em 2001, a conta de 5.093 vidas poupadas segue a mesma linha. Seriam 8.541 homicídios nos nove anos seguintes, ante 3.448 de fato ocorridos. Uma queda de 60%.
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