Aproveitei o final de semana para matar uma curiosidade que precisava ser morta. Andava encucado com a necessidade de resolver uma questão que não é tão simples quanto o enunciado da manchetíssima aí em cima sugere: afinal, nos últimos 40 anos possíveis de medição, entre 1985 e 2025, quem foi o pior presidente da República da história do Grande ABC tendo-se como centro da indagação a quebra de empregos industriais com carteira assinada, ativo valioso do capitalismo e o centro nervoso e de equilíbrio social da Economia regional?
Em números absolutos, levando-se em conta o período de mandato e de extensão de mandato de dois impeachments, a resposta é Fernando Collor de Mello. Em números relativos, que explico em seguida, foi Fernando Henrique Cardoso. Em termos de impacto num recorte do tempo no interior do período, a resposta é Dilma Rousseff.
Os três presidentes associados numa única bitola de medição acumularam o afundamento de 207.744 empregos industriais com carteira assinada. Você tem ideia do que isso significa? Números gigantescos só são números gigantes quando transformados em porções dimensionáveis.
BURACO IMENSO
Trata-se, como é fácil entender, de vácuo terrível. Seria algo como 376 fábricas desativadas pela Toyota em São Bernardo ainda outro dia. A Toyota produzia autopeças. Se a Ford do Taboão, que também se escafedeu, for a referência de empregos diretos, o resultado seria a desativação de 80 unidades.
Vou fixar as estacas dessa análise nos dados daqueles três presidentes. Entretanto, no período que começa em 1985 com José Sarney e chega até 2025 do presidente Lula da Silva , o que vivemos foram três etapas que ocuparam metade do total do tempo sob observação. Foram demissões de trabalhadores de forma escalonada. Os quatro anos de Fernando Collor de Mello (contando os anos complementares de Itamar Franco, pós-impeachment) entre 1990 e 1994, os oito anos posteriores de Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, e os seis anos de Dilma Rousseff, de 2011 a 2016, contando o período pós-impeachment com Michel Temer têm em comum uma sincronia de ataque à Economia do Grande ABC. Só não chegamos ao tetracampeonato seguido de descarte de emprego industrial por conta dos oito anos de Lula da Silva.
Empregos industriais valem muito mais que empregos de outras categorias. Só em assalariamento médio são 30% superiores. E carregam agregados de valor que se espalham por todas as cadeiras produtivas com repercussão geral na economia regional.
CONTAS DIFÍCEIS
Não é possível traçar com segurança técnica uma linha paralela e interativa entre a queda do emprego industrial e a queda do PIB do Grande ABC nos respectivos períodos. Há vácuos de dados oficiais. O PIB dos Municípios Brasileiros só começou a ser apurado e divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) a partir de 1999. Acompanho essa bagaça desde sempre.
Dados anteriores que poderiam auxiliar em tentativa relativamente segura de conciliação entre uma coisa chamada emprego industrial e outra coisa chamada PIB Tradicional talvez sejam os indicadores da redistribuição de cotas do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Trataremos disso em outra análise. Há enraizamentos que auxiliam interpretações factíveis entre uma coisa e outra coisa. Afinal, o ICMS conta com influência de 76% do Valor Adicionado, base do PIB Tradicional. Mais que isso: Valor Adicionado é o PIB sem impostos.
De qualquer forma, os números dos três períodos sob o comando direto ou influenciados fortemente por Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff são suficientemente robustos para que não fiquem pedra de dúvida de consistências sobre pedra de dúvida de configuração. Os 18 anos intercalados desses três presidentes são terríveis na história do Grande ABC.
AGENTES LOCAIS
Claro que não se pode colocar exclusivamente sobre os ombros dos três governantes todas as responsabilidades dos fracassos econômicos da região. Houve durante todos esse período de tempestades uma quase que completa ausência de mobilização reativa e reestruturante que mexesse com a sociedade regional. E já tratamos disso em centenas de artigos.
Entretanto, é preciso lembrar e reforçar que políticas macroeconômicas e efeitos da globalização são externalidades sobre as quais agentes políticos, sociais e econômicos têm baixíssima possibilidade de interferências. Nada, entretanto, que limpe a barra da negligência exacerbada. Outras localidades do País enfrentaram problemas semelhantes ou não e souberam ir a campo. Sempre existe uma fresta de resistência em meio à invasão dos bárbaros.
A abertura destrambelhada das alfândegas, política do presidente Fernando Collor de Mello, feriu de morte a Economia brasileira então congelada e sob a proteção de elevadíssimas alíquotas de importação. Os danos foram monumentais no Grande ABC automotivo com reflexos nas demais de redes de produção industrial. Perdemos 68.512 empregos industriais. Baixamos o estoque de 306.589 em dezembro de 1989, quando Collor foi eleito, para 238.077, quando Itamar Franco deixou a presidência, em dezembro de 1994 com o Plano Real comandado por Fernando Henrique Cardoso, que seria presidente nos oito anos seguintes.
VELHO DE GUERRA
Resumidamente, as transformações pelas quais passou a Economia brasileira durante o período de FHC, especialmente com o aniquilamento da inflação, e que o colocou na presidência, e o impulso às políticas privatizantes, acrescentaram mais prejuízos ao Grande ABC velho de guerra do regime protecionista de Estado Grande que o moldou. As autopeças foram jogadas abruptamente às feras da competição internacional, enquanto as montadoras de veículos eram preservadas. Com Fernando Henrique Cardoso foram destruídos 72.712 empregos industriais no Grande ABC. Eram 238.077 antes de tomar posse e sobraram 165.365 após oito anos.
A diferença entre os quatro anos iniciados por Fernando Collor de Mello e os oito anos de dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso na estrutura do emprego industrial do Grande ABC foi expressiva. Com Collor e Itamar o Grande ABC perdeu 28,78% dos empregos industriais, num total de 68.512, com queda anual média de 11.418 trabalhadores com carteira assinada. Com Fernando Henrique Cardoso em oito anos foram destruídos 72.712 empregos industriais, com queda média mensal de 9.089 e rebaixamento do estoque de 43,97%.
Acreditava-se ao fim do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso, em dezembro de 2002, que não haveria espaço no século que chegou para o Grande ABC conhecer nova leva de rebaixamento do emprego industrial em níveis alarmantes. O enxugamento das duas principais atividades econômicas da região – automotivas e petroquímicas-químicas – parecia ter chegado ao formato relativamente suportável. O Grande ABC perdera massa gigantesca de trabalhadores em diversos setores industriais, sobretudo porque a abrangência automotiva é elástica.
O balanço final e positivo dos oito anos de dois mandatos do presidente Lula da Silva, de 2003 a 2010, indicava que a desindustrialização aguda em forma de demissões de trabalhadores faria parte do passado. Ajustes nos anos seguintes seriam naturais, como, aliás, tem ocorrido desde a despedida de Dilma Rousseff da presidência, mesmo com os passivos da pandemia do Coronavírus.
Mas os anos de Lula da Silva cobraram caro de Dilma Rousseff. O Brasil lulista cresceu de forma rápida com a balança comercial das commodities que os asiáticos, principalmente os chineses, aqueceram intensamente. Junto com os saldos comerciais o governo Lula da Silva consolidou política pública de extensão de gastos permanentes em contrafluxo com receitas provisórias. Uma gastança sem freios. A bomba caiu no colo de Dilma Rousseff.
A dívida pública explodiu juntamente com os juros. Uma enorme recessão foi contratada para refrear a inflação fora dos trilhos. O saldo dos dois mandatos de Dilma Rousseff, metade do segundo interrompido pelo impeachment, foi assustador: o Grande ABC sofreu perda líquida de 66.520 trabalhadores industriais em seis anos, ou 41,60% do estoque do setor. Dilma Rousseff recebeu de Lula das Silva um Grande ABC com estoque de 226.410 empregos industriais formais (61.045 acima do que recebera de Fernando Henrique Cardoso) e ao fim de 2016 o total não passava de 159.890 trabalhadores. Dilma Rousseff estragou tudo o que Lula conseguiu em oito anos sob forte influência chinesa.
JORNAS ÁRDUAS
Sugiro aos leitores que guardem todos esses dados. Fiz apenas um voo panorâmico. Há tantas camadas quando a questão regional vai para as bandas de empregos industriais e dos demais setores que o aprofundamento pode deixar o leitor baratinado. Preferi, nesta edição, caminhar por um terreno que longe de ser superficial, ajuda a explicar o que somos depois de 40 anos. E não adianta terem expectativas elevadas. A interrupção da trajetória declinante e sistemática é a exceção da regra. Lula da Silva foi o único paraíso em meio ao caos. E mesmo assim foi um paraíso com percurso artificial e prazo de validade letal.
Quem acreditar em caminhos suaves para o Grande ABC reagir à crise econômica que vai além, muito além, do emprego industrial, não conhece o buraco no meio do caminho.
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29/06/2026 AFINAL, QUEM FOI PIOR: COLLOR, FHC OU DILMA?