Regionalidade

Sem lenço nem documento

DANIEL LIMA - 27/06/2004

Da coluna Contexto, do Diário do Grande ABC


O nó górdio que imobiliza o Grande ABC econômico precisa de transpiração e inspiração para ser desatado. Da industrialização por acaso, passamos pela desindustrialização por desleixo e agora surge no horizonte a reestruturação por necessidade. Não temos tempo a perder, mas já perdemos tempo demais.


O mundo gira rapidamente a engrenagem de competitividade, mas insistimos em cometer o equívoco de julgar a exceção pela regra. Estamos antenados economicamente com o mundo moderno apenas nas corporações que resistiram ao vendaval globalizador da última década.


Muitos cadáveres empresariais tombaram no meio do caminho, na maioria dos casos sem manchetes a anunciar a longa intempérie.  A discriminação ao pequeno negócio é rotina que alimenta o banco de dados de mortalidade.


Mesmo depois do vendaval fernandohenriquista que retirou dois quintos do nosso poder industrial, o Grande ABC não se deu conta de que é bem mais embaixo o buraco do abortamento e também da recomposição do processo. Agora o Consórcio de Prefeitos se mobiliza para uma dieta de emagrecimento das ineficiências há muito denunciadas. Acredita-se que deixará o figurino bizarro de um centralismo gerencial que desdenha a participação da comunidade mais esclarecida. Afinal, de que serviria a proposta entregue à Fundação Getúlio Vargas para esquadrinhar um novo formato institucional?


Seria a FGV suficientemente preparada para virar o jogo do Grande ABC e, na sequência, embalar o sonho de uma reviravolta econômica e social? Qualquer que seja a resposta, o reforço de uma consultoria internacional especializada em competitividade é indispensável. Mais que um Consórcio de Prefeitos comprometido com a integração regional além dos discursos e de ações acessórias, o Grande ABC precisa costurar um plano de ação de fato retemperador da economia.


O passo inicial é uma embocadura econômica que, ao mesmo tempo em que potencialize o setor industrial com novas alternativas de produção, retire o terciário da indigência de baixo valor agregado.


Precisamos, portanto, de muito mais que uma instituição saída do forno da experiência de conhecimentos acadêmicos. Carecemos também de uma visão empreendedora que enquadraria os governos locais, as entidades empresariais e a própria sociedade num foco certeiro de restabelecimento gradual das riquezas perdidas. Se a prefeita Marta Suplicy foi à luta para esculpir uma zona leste da Capital na perspectiva de descoberta de potencialidades industriais, por que perderemos a oportunidade de, com medida análoga, impedir que a nau do Grande ABC continue sendo levada pelos ventos da improvisação?


Financiada pela livre iniciativa, Marta Suplicy recorreu a empresa especializada para detectar as competências da zona leste, um universo de 3,7 milhões de habitantes historicamente divorciado do crescimento da Capital. Por que haveremos de insistir na visão importante mas caolha de entregar apenas a especialistas do setor público a responsabilidade de reduzir a velocidade do descarrilamento socioeconômico?


A fera ferida da regionalidade incompleta, quando não apenas caricata, em que se transformou o Grande ABC deve ser atacada com engenho institucional mas também com pragmatismo. É decisivo ao encurtamento das rédeas da dispersão um planejamento estratégico que combine experiências nacional e internacional de especialistas em regionalidade. E claro que não se deve descartar o armazenamento de conhecimentos de protagonistas locais imunes a partidarismos políticos.


A ausência de compromisso com o que os economistas chamam de resultados sistêmicos — e que o povo menos letrado entenderia como a simples enunciação de políticas públicas que não morram na esquina mais próxima dos interesses individuais — é uma armadilha estendida em forma de tapete vermelho de triunfalismo. Enquanto o Grande ABC se negar, por vaidade ou despreparo, à compreensão de que não está mais sozinho, e faz tempo, no jogo do desenvolvimento econômico, serão cada vez mais intensas e impactantes as repercussões sobre seu território.


É muito provável que os números da temporada passada que revelarão o comportamento da economia local na produção de riqueza apontem para a quebra do ciclo de perdas e registrem estabilidade. Mesmo assim, será muito pouco porque o passado recente é condenatório. Precisamos reagir. A plataforma de embarque está na definição dos caminhos a seguir. Por enquanto, estamos no meio de um nevoeiro, parados, sem o lenço da integração e sem o documento da organização estratégica.


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