Regionalidade

Consórcio pragmático

DANIEL LIMA - 05/08/2004

Coluna Contexto, do Diário do Grande ABC


Os sete municípios do Grande ABC bem que poderiam aprender uma lição coincidentemente de sete megacorporações privadas, várias das quais concorrentes entre si: Intel, IBM, HP, Microsoft, Telefônica, Cisco e Time Warner decidiram jogar a competição predatória na lata do lixo do desperdício e se juntaram num clube que deveria servir de inspiração renovadora ao Consórcio de Prefeitos.


Detentoras de valor de mercado próximo de US$ 974 bilhões, perto de dois terços do PIB  brasileiro neste ano, as sete multinacionais vão discutir em conjunto com governos de países da América Latina políticas públicas para estimular o desenvolvimento econômico e social sob a perspectiva tecnológica.


Está aí na concentração de esforços num determinado foco o ovo de Colombo que as sete multinacionais oferecem de bandeja aos sete prefeitos do Grande ABC. Aliás, esse conceito não é nada revolucionário. Ainda recentemente o prefeito de Paris esteve em São Paulo, em encontro no qual se debateram problemas metropolitanos, quando deu gratuitamente uma lição de praticidade com o suporte de experiência vivida.


Disse aquele prefeito que é gigantesco o risco de se perder tempo, disposição e mobilização quando se apresenta uma imensidão de metas. O Consórcio de Prefeitos é a crônica anunciada de exageros verbais e programáticos sem a necessária contribuição prática. Por isso poucos representantes que gravitaram em sua órbita triunfalista enxergaram o boi na linha da desindustrialização.


As  multinacionais que compõem o Flitic (Fórum Latino-Americano da Indústria de Tecnologia da Informação e Comunicações) não esfregam na cara do Consórcio de Prefeitos apenas o princípio do tiro certeiro de um determinado objetivo a ser superado. Vão mais longe, muito mais longe.


Em  vez do centralismo burocrático dos chefes de Executivos públicos, donos absolutos do poder de decisão em contraponto com o distanciamento do cotidiano das ações do Consórcio, o Fórum Latino-Americano da Indústria de Tecnologia da Informação e Comunicações coloca em primeiro plano um comitê executivo formado de um ou mais representantes indicados pelas empresas associadas. É o comitê que vai conduzir as operações do dia-a-dia. A instância dos executivos-chefes de cada empresa será o Conselho de Administração, cuja própria inclusão hierárquica explicita a importância que as companhias dão à instituição cooperativada.


As multinacionais do Flitic estão inquietas com algumas questões vitais para seus negócios, casos da propriedade industrial, do custo do acesso à tecnologia, normas e estruturas legais e também o papel do investimento em tecnologia no desenvolvimento do País.


Insistindo no núcleo gerador dessa cooperação — o desenvolvimento tecnológico — chamamos a atenção para o fato de que as sete megacorporações já se armaram da munição da informação qualificada para sensibilizar o Estado. Citam que enquanto países ricos destinam 5% do PIB à tecnologia da informação e os asiáticos aplicam 3,5% em média, na América Latina o investimento anual é de 2,5%.


Uma das veredas pelas quais pretendem elevar o índice é a inclusão do Brasil na Alca. Os membros do Fórum, afirma um manifesto da instituição, estão convictos de que a Alca pode acelerar a adoção da tecnologia e torná-la mais barata à população.


Sem qualquer juízo de valor sobre a inserção do Brasil no acordo comercial liderado pelos Estados Unidos, até mesmo para que não se desvirtue o objetivo destas linhas, está impactantemente claro nessa analogia entre o G-7 empresarial e o G-7 municipal o quanto há de diferença entre a objetividade privada e a tortuosidade pública quando há exigência de coletivização de diagnóstico, planejamento e execução.


Nem mesmo é possível execrar as multinacionais da cruzada em favor da tecnologia como estrategistas de poder porque também está no horizonte das propostas o estímulo à área educacional. Pretende-se atuar vigorosamente na massificação e na redução do custo dos equipamentos, software e serviços, sempre respeitando a propriedade intelectual.


Há muito tempo defendemos um Consórcio de Prefeitos completamente diferente do paquiderme que está por aí entre outros motivos porque despreza o núcleo programático sintetizado em competitividade. Estaremos todos fritos se a roda da competitividade não girar além dos muros das empresas automotivas e petroquímicas que se modernizaram à revelia de políticas públicas.


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