Regionalidade

Em nome de Deus

DANIEL LIMA - 29/01/2005

Não poderia ter sido mais providencial a abertura da série de entrevistas deste Diário com membros do Conselho Editorial em fase final de nomeações. O pastor Levi Corrêa de Araújo não deu trégua aos desperdícios de uma região que não soube preparar, incentivar e mesmo armazenar recursos humanos durante o fértil período de desenvolvimento econômico e social.


Mais que isso: beneficiadíssimo por acidentalidade governamental federal, que escolheu as terras locais para o desabrochar da indústria automotiva, e também bafejado pela sorte do Pólo Petroquímico de Capuava, o Grande ABC se comportou com perdularismo típico de jogadores de futebol que se imaginam eternamente nos gramados a recolher salários e luvas em dólares.


As elites do Grande ABC, que dissolveram parte do materialismo capitalista e se mantêm distantes do radar de intelectualidade, vivem ainda mais em guetos, quando não se escafederam em definitivo, esticando para o período anual, agora em outras terras, as férias sempre prolongadíssimas que começavam antes das festas de final de ano e só terminavam depois do Carnaval.


Em compensação à falta de responsabilidade social e de coletivismo de grande parcela daqueles que vivenciaram os melhores momentos econômicos do Grande ABC, há leva de profissionais das mais diferentes áreas prontas para assumir compromissos com a comunidade.


Não é por outra razão a oportunidade que lhes está sendo oferecida por este jornal na formulação do Conselho Editorial. Esperamos que outras instâncias regionais sigam o exemplo e instalem gente interessada em mudanças de organogramas diretivos. Que tal, por exemplo, o Consórcio de Prefeitos sair do casulo dos sete mandatários?


Pela qualidade das respostas do pastor Levi é possível projetar o grau de apetrechamento técnico e de cidadania dos conselheiros editoriais deste jornal. O princípio indestrutível de que um veículo de comunicação vale pelo que publica mais e mais nos desafiará a garimpar na sociedade regional pedras preciosas geralmente sem vez e sem voz nas instâncias de poder ou que, mesmo quando lembradas, não se lhes oferecem espaços ao exercício do conhecimento.


Da mesma forma que não escondo orgulho de ter organizado a publicação do livro “Nosso Século XXI”, em dezembro de 2000, com compêndio que reuniu 29 articulistas do Grande ABC, obra cuja coordenação coube à brilhante jornalista Malu Marcoccia, ouso antecipar que o Conselho Editorial deste jornal será mais um marco na história do jornalismo local.


A diferença é que, desta vez, os efeitos diretos e indiretos do selecionamento de talentos versados em Grande ABC não se diluirá após a festa de lançamento editorial. O Conselho Editorial é obra permanente deste veículo, independentemente de quem esteja em seu comando, porque traduz o compromisso que os veículos de comunicação devem manter com a comunidade a que servem e não apenas com os amigos de sempre do rei.


Deva-se entender como compromisso a humildade de reconhecer nos próprios quadros dos profissionais desta casa a impossibilidade de concentrar mosaico de informações especializadas que ajudam a aperfeiçoar um projeto de comunicação.


Em tempos de cavalgada cibernética no lombo de globalização econômica, financeira e cultural, seria insidiosamente arrogante qualquer corporação editorial se considerar o supra-sumo do domínio informativo. Este Diário se reconhece na condição de agente integrador e metabolizador da sociedade regional na medida em que, em sintonia igualmente responsável, possa contar com representantes comunitários de variadas especificidades.


A pregação do pastor Levi Corrêa de Araújo na edição de domingo deste Diário sinaliza, portanto, o que deveremos encontrar nas páginas de entrevistas com os membros do Conselho Editorial. Há convergência de inconformismo, indignação, irritabilidade, preocupação, inquietação e muitos outros sentimentos que podem ser extratificados senão na baixa estima regional pelo menos na sensibilidade à flor da pele por dias mais construtivistas.


Saímos do forno de um sindicalismo bravio dos anos 70 e 80 e caímos no congelador de abertura econômica desastrada dos anos 90 com repercussões até agora. Quem viveu esses dois períodos, depois dos anos de ouro da industrialização acelerada, não tem reservas de paciência para procrastinações que elites improdutivas transformaram em instinto de sobrevivência.


Ou reagimos ordenadamente, positivamente, sem artifícios verbais e sem triunfalismos insustentáveis, ou viveremos num mundo de fantasias que, exatamente por serem fantasias, desembocam em pesadelos.


Pastor Levi deu o tom. Em nome de um Grande ABC que precisa se reoxigenar e com o aval celestial que a patente lhe confere.


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