Regionalidade

Luiz Marinho é articulador
do governo Lula na região

DANIEL LIMA - 30/10/2002

Mesmo sem fornecer maiores detalhes, o sindicalista Luiz Marinho, vice na chapa de José Genoíno ao governo do Estado de São Paulo, tem missão especial que pretende operacionalizar a partir de meados de novembro: articular com forças representativas ou supostamente representativas da sociedade regional espécie de pauta de propostas que levaria ao governo federal do amigo Lula da Silva. É alvissareira a perspectiva para Luiz Marinho, sindicalista da linha moderada e potencial candidato à Prefeitura de São Bernardo. Como provável articulador regional do governo federal, numa empreitada que pode estar acima do partidarismo, o caminho de produtividade de reivindicações da região será automático. Desde, evidentemente, que a comunidade regional saiba o que quer.


 


Ainda outro dia, na semana passada, escrevi neste espaço sobre a importância de o Grande ABC mobilizar-se e planejar-se com competência para usufruir -- no sentido nobre do termo -- da proximidade que pela primeira vez na história terá com o Palácio do Planalto. Ao acenar com a possibilidade concreta de ser o canal das prioridades regionais, Luiz Marinho não só projeta a materialização de antigo sonho de a região ser ouvida em Brasília como se apresenta como porta-voz principal dessa empreitada.


 


Por mais paradoxal que possa parecer, está exatamente na concretude de o Grande ABC ter acesso privilegiado a Brasília o novo desafio. Afinal, que pauta qualitativa será apresentada? O Fórum da Cidadania, o Consórcio de Prefeitos e a Câmara Regional se perderam exatamente porque seus representantes tentaram agarrar o mundo. Confundiram quantidade com qualidade de propostas. Priorizaram a diversidade atomizadora em detrimento da seletividade restauradora.


 


Há pontos essenciais e estruturalmente indispensáveis a serem atacados. Denomino-os de megaproblemas macroeconômicos e macrossociais. As limitações orçamentárias do governo federal precisam ser levadas em conta para que eventuais voluntários na produção da pauta de propostas não caiam na tentação de ser traídos pela máxima de que quem jamais comeu melado, quando come, se lambuza. Até porque o melado não é abundante como alguns imaginam. Muito pelo contrário.


 


A escolha de Luiz Marinho para a gestão negociada dos pontos básicos da pauta regional é perfeita na medida em que esse sindicalista está mais que acostumado a interlocuções recheadas de ataques e contra-ataques ostensivos ou sutis. Mas é evidente que a obra será coletiva. E é aí que mora o perigo porque, insisto, a sede pela abundância sempre obscurece a racionalidade.


 


Sindicalista descarta mistério


 


Tudo indica que Luiz Marinho será o principal e permanente interlocutor do Grande ABC junto ao governo federal. A interpretação deriva de rápidos comentários que fez ao microfone ontem à noite, durante happy-hour em que amigos o homenagearam pelo desempenho eleitoral ao lado de José Genoíno. Nos bastidores, pouco antes de subir ao palco, Luiz Marinho disse que descarta a possibilidade de assumir o Ministério do Trabalho, como se especula. Prefere -- garantiu-me -- dar suporte ao governo Lula da Silva no território regional. "É aqui que precisamos dar retaguarda ao nosso presidente" -- disse.


 


Tudo indica, entretanto, que a versatilidade e a flexibilidade de Luiz Marinho e de seu grupo de apoio vão alcançar extremos inimaginados. No evento de ontem a presença de Valter Moura, presidente da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo, foi realçada no palco inclusive com discurso inflamado de apoio ao PT. Já na semana anterior, o mesmo Valter Moura declarou seu voto ao sindicalista, em oposição ao candidato Geraldo Alckmin.


 


A conversão de Valter Moura ao petismo choca mas está-se transformando em caso corriqueiro entre nubentes progressistas e conservadores. O fato de ser centro-direitista não diz tudo do perfil do titular da Acisbec. Há dois meses ele e os demais presidentes das associações comerciais e industriais da região, além das diretorias dos Ciesps, deixaram a ver navios o prefeito petista João Avamileno, titular da Agência de Desenvolvimento Econômico.


 


Como se sabe, aquilo que resolvemos chamar de Grupo dos 11 apostou infantilmente na vitória de candidatos situacionistas ao governo federal e ao governo estadual, afastando-se do quadro associativo da Agência. A maioria dos rebeldes estava inadimplente há muito tempo com os cofres da instituição, mas agiu como se fosse cliente que, depois de degustar o melhor prato, resolve apanhar uma mosca e, aos gritos, reclamar da falta de higiene e asseio da casa, só para dar o calote.


 


O caso Valter Moura é emblemático das transformações que se cristalizam no Partido dos Trabalhadores. As alianças que Lula da Silva fechou com forças direitistas e centro-direitistas provavelmente vão se reproduzir em larga escala não só no Grande ABC. Trata-se, ao que parece, de ação coordenada para atrair as mais diferentes representações ao seio petista. A tradição de que na esteira da vitória eleitoral vem a arrogância não parece ter contaminado o Partido dos Trabalhadores no Grande ABC, a julgar pela receptividade oferecida a Valter Moura.


 


É verdade que soou constrangedor o cumprimento pouco efusivo do dirigente empresarial ao prefeito João Avamileno, quando se cruzaram no palco. Por mais generoso que seja, Avamileno provavelmente não esqueceu que lhe deram um passa-moleque não exatamente porque o Grupo dos 11 abandonou a Agência, mas porque seus dirigentes não tiveram a elegância de comunicar pessoalmente a confirmação do afastamento quixotesco pela forma e pelo conteúdo.


 


PT à direita


 


Se Luiz Marinho, velho amigo de João Avamileno, passou por cima desse incidente diplomático e deu a Valter Moura tratamento exageradamente importante para um dirigente cuja representatividade se assemelha à densidade da torcida do América do Rio de Janeiro, capaz de lotar uma Kombi, o que dizer então quando eventuais e indispensáveis novos colaboradores se dispuserem a multiplicar esforços pelo Grande ABC? 


 


A mensagem desse caso mostra não só que o Partido dos Trabalhadores deu guinada à direita para valer como está decidido a facilitar o futuro complicado que se apresenta para o Grande ABC, principalmente depois que Fernando Henrique Cardoso resolveu fazer deste endereço o alvo de porta-aviões estrategicamente posicionado para abater a economia regional predominantemente automotiva, sob vistas grossas de toda a sociedade.


 


Os conservadores que sempre condenaram a radicalidade petista agora têm com que se divertir. A governabilidade produtiva de Lula da Silva está em jogo e o País merece qualquer sacrifício. Só não podem exagerar na dose, evidentemente, senão o PT vai transformar-se em uma Arena rediviva -- como se revelou o happy-hour de ontem no salão de festas do Sehal (Sindicato das Empresas de Hospedagem e Alimentação do Grande ABC). 


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