Regionalidade

Um antídoto eficaz
contra charlatanismo

DANIEL LIMA - 09/05/2003

Um exemplo dos efeitos de cidadania, de capital social, que advirão da constituição de uma entidade cerebral no Grande ABC: não ficaremos mais indefesos, ou quase indefesos, nem precisaremos de eventuais mártires, diante de atiradores estatísticos tão certeiros quanto o vocabulário do seu Creisson, aquela caricatura de político brasileiro que o Casseta & Planeta popularizou e, analisado com atenção, longe está de ser caricatura, mas síntese de boa parte da classe sobre as quais invariavelmente depositamos nossos destinos.


Na medida em que o Grande ABC for capaz de tapar os buracos por onde geralmente penetram convidados indesejáveis que nos fazem de otários, estará na verdade se livrando de pestes que insidiosamente nos tiram a necessária pitada de indignação e inconformismo, armas indispensáveis para que uma sociedade se mantenha alerta, democraticamente madura e comprometida com o fluxo de informações.


É praticamente impensável que outros atentados sejam perpetrados contra a realidade factual do Grande ABC por gente contratada para promover dissimulações se a entidade cerebral com que sonhamos viceje para valer o sentimento de responsabilidade regional.


Uma entidade cerebral vai colocar ordem no galinheiro de bobagens que, industrializadas, emburreceram a coletividade mesmo que bem intencionada. A massificação de conceitos econômicos regionais, portanto, ganha ares de salva-vidas.


Precisamos sepultar ramificações do nosso Complexo de Gata Borralheira. Um dos quais, que não é exclusividade nossa mas de toda comunidade que se sujeita ao colonialismo cultural, está na estupidez de acreditar em tudo que nos dizem os visitantes ilustres ou ricamente diplomados, contrapondo-se a constatações enraizadamente históricas e consagradas pelos nativos de berço ou por adoção.


Numa entrevista ontem à noite ao amigo Glenir Santarnech, na TV São Caetano, lembrei-me de um fato envolvendo o ex-ministro e hoje deputado Delfim Netto, reconhecida sumidade em macroeconomia. Em palestra no Tênis Clube de Santo André para platéia predominantemente empresarial, Delfim Netto, ignorante em Grande ABC, simplesmente disse que não contávamos com áreas livres para novos investimentos industriais.


Já faz uns bons pares de anos esse encontro, mas a realidade daquela época não comportava tamanha imprecisão porque já se abriam imensas clareiras de áreas industriais de deserções à espera de investimentos. Infelizmente, o efeito das declarações de Delfim Netto foram terríveis.


Se fosse um consultor internacional que se expressasse no idioma de Sheakspeare, então, o dilúvio seria muito maior. Mesmo que jamais tivesse botado os pés no Grande ABC e que tivesse se expressado com a probabilidade de acerto de quem joga na loteria, só o fato de exigir um tradutor ou mesmo de pronunciar-se em inglês aportuguesado lhe conferiria a distinção de oráculo. Não é assim, afinal, que estrelas internacionais levam lideranças paulistanas e nacionais a considerarem gol de placa todo tipo de chute de canela avaliativa?


É assim que somos -- um bando de nativos que se encantam com espelhinhos de visitantes graduados. Para mudar essa cultura de servilismo só existe o remédio da consolidação de um projeto de coletivizar, doutrinar, estimular e fazer expressar as cabeças mais preparadas da região. E, como escrevi ontem neste espaço, não falta esse insumo no Grande ABC.


Além da dispersão, há também muita gente escondida simplesmente por omissão ou porque nossa sociedade seletivista pela consagração material em detrimento do intelectual sufoca os talentos subjacentes em várias esferas.


Os conceitos de capital social que poderiam forjar um Grande ABC diferente da Gata Borralheira que temos passam necessariamente pela força da intelectualidade regional num fórum unificador de comportamentos, propósitos e estratégia.


Longe de nós qualquer pretensão de estabelecer o ritual de batalhão nos movimentos que se vislumbram. Nada disso. O que se espera é que se estabeleçam procedimentos técnico-operacionais que sejam tão eficientes na identificação imediata de charlatães locais ou não quanto na descoberta de pedras preciosas desprestigiadas, locais ou não.


Nossa seleção de cérebros está tão desentrosada quanto desunida. Quem ganha com isso são os pernas-de-pau oportunistas.


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