Imprensa

Veja consolidada a Entrevista
Especial com Orlando Morando

DANIEL LIMA - 30/06/2017

Estamos concluindo o ciclo de produção, respostas e análises da Entrevista Especial com o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, também prefeito dos prefeitos da região, à frente que está do Clube dos Prefeitos. Esta edição é consolidada. Ou seja: tudo o que está nos respectivos capítulos inicialmente em forma de perguntas e respostas e, na sequência, como perguntas, respostas e análises, ganhou encaixotamento técnico-editorial específico. Para ser lido num final de semana, por exemplo. A vantagem desse tipo de leitura é que a integração editorial facilita o entendimento. 

Não que houvesse necessidade de compactação para encontrar algum nexo perdido em meio à fragmentação já explicada. Vista sob ótica estritamente jornalística, ou sob ângulo do leitorado, a Entrevista Especial com Orlando Morando não deixa dúvida: o titular do Paço Municipal de São Bernardo deixou muito a desejar. Não apenas pelo que expôs, mas também pelo que deixou de expor. Orlando Morando admitiu essa possibilidade. 

Por isso, colocamos à disposição, quando entender importante, nova rodada de indagações. Não custa nada esperar uns seis meses, por exemplo, e, quem sabe, fazer um balanço do primeiro ano de mandato tanto na Prefeitura como no Clube dos Prefeitos. 

Grandes entrevistas 

Se cataloguei a Entrevista Especial com Orlando Morando uma das mais frágeis – sinceramente, a mais frágil de todo o histórico de CapitalSocial e de LivreMercado, em quase 30 anos – nem tudo está perdido. Há sempre possibilidade de recuperação.

Recorrentemente me perguntam qual, entre tantas entrevistas especiais de CapitalSocial e LivreMercado, tornou-se a mais marcante. Foram muitas, como a mencionada ainda outro dia aqui, de Enrique Lozzano, executivo da Volkswagen do Brasil. Ele projetou o destino da fábrica da Anchieta rigorosamente alinhado à realidade destes dias. 

Se a pergunta for direcionada aquela que mais me tocou, escolheria a que me colocou literalmente lado a lado com o então prefeito de Santo André, Celso Daniel, publicada na edição de abril de 2001 da revista LivreMercado. Conversamos durante todo o trajeto de ida a São Carlos. Um ônibus lotado de torcedores Vips do Santo André acompanhou a equipe num jogo da Segunda Divisão. 

Duas horas de gravação 

Lembro-me da sugestão de Klinger Souza, o então menino de ouro do prefeito, do qual seria sucessor se os Três Tombos não aparecessem no caminho da Pajero dirigida por Sérgio Gomes da Silva, bode expiatório de um assassinato cometido por marginais pés-de-chinelos, como constataram forças policiais. 

Klinger Souza sugeriu que levasse um gravador. O prefeito estaria disposto e decidido a me conceder uma entrevista. Seguramente, foi a melhor entrevista com um gestor público que já realizei. Pela forma rodante e pelo conteúdo estonteante. Durou por volta de duas horas. Uma viagem de ida inesquecível.

Bem, mas voltando ao que interessa agora, acompanhem pergunta por pergunta o que reservamos a Orlando Morando na Entrevista Especial, o que ele respondeu e o que avaliamos de suas respostas. Sem falsidade, acho que salvei o trabalho jornalístico. 

A pergunta de CapitalSocial

O trecho sul do Rodoanel teve no senhor, então deputado, o principal agente divulgador e propagador de efeitos extraordinários que se dariam no campo econômico em benefício da Província do Grande ABC. O que temos, passados muitos anos, é a comprovação material, estatística, formal, de que a obra, entre outros fatores, por conta de características funcionais, afugentou e transferiu investimentos. Já não passou da hora de discutir mudanças com instâncias do governo do Estado? A então chamada “melhor esquina do Brasil” se tornou uma fraude. 

A resposta de Orlando Morando

O trecho Sul do Rodoanel teve muitos benefícios à região, comprovadamente se tornando um fluxo que viabilizou negócios e avanços aos municípios. Algo que pauta meu trabalho é a discussão constante por melhorias em diversos segmentos e seus programas vigentes. Na ocasião exercia mandato de deputado estadual e era integrante da Comissão de Transportes na Assembleia Legislativa. Contribui para que a obra se tornasse realidade. O Rodoanel potencializou o Grande ABC como uma das maiores esquinas do Brasil.

Meus comentários 

Uma análise que publiquei no final do ano passado nesta revista digital sintetiza textos anteriores sobre estragos provocados na economia da região pelo traçado do Rodoanel Mário Covas: “Rodoanel é cada vez mais presente de grego regional” – enunciou o título. Daí, é inconcebível que o titular do Paço Municipal da Capital Econômica da Província do Grande ABC não tenha conhecimento do histórico problemático. É incrível que auxiliares na Secretaria de Desenvolvimento Econômico não tenham sido consultados sobre isso. E se o foram, é inimaginável que tenham sido coniventes com a fantasia do prefeito. E seria ainda mais incrível Orlando Morando, o maior propagador da inserção da obra na geografia regional, desconhecer os resultados da obra. 

O Rodoanel é um dos temas prioritários de CapitalSocial. A importância logística, com repercussão econômica e social, jamais poderá ser desconsiderada em qualquer análise que trate a Província do Grande ABC com responsabilidade. Mais que isso: jamais poderá deixar de constar de estudos de competitividade da região. 

Ao dedicar à resposta soma de palavras ou caracteres aquém da pergunta formulada por CapitalSocial, Orlando Morando deixou escapulir duas especulações pertinentes: ou está crente de que o que afirmou é tudo de conhecimento sobre o Rodoanel ou tergiversou sobre o desastre do Estado ao conceber um projeto sem levar em conta aspectos econômicos muito além da logística – como analisamos em tantas outras oportunidades. 

Escrevi em dezembro do ano passado que os oito municípios à Oeste da Região Metropolitana de São Paulo continuavam a dar um show de bola na Província do Grande ABC. “O anúncio e a construção do trecho oeste do Rodoanel Mário Covas, inaugurado seis anos antes do trecho sul que tangencia a Província do Grande ABC, e também muito antes do trecho leste, ainda mais distante do centro econômico da região, tornaram-se um divisor de águas. A realidade que projetamos há muito tempo com base em dados técnicos (...) é que o Rodoanel virou um presente de grego para quem mora na região” – escrevi. 

Mais adiante, prossigo na análise. “Desde 2002, quando foi inaugurado o trecho oeste do Rodoanel, a economia da Grande Osasco supera para valer e sem dó a economia da Província do Grande ABC. Aquele que foi o último ano do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso apresentou a Província com superioridade de 23,81% sobre a Grande Osasco no medidor do PIB, que pode ser sintetizado como referência maior de produção de riquezas. (...) Doze anos e três trechos depois do Rodoanel Mário Covas, o G-8 liderado por Osasco e também por Barueri passou a contar com PIB nominal (relativo a 2014, o mais atualizado) de R$ 138.382.863 bilhões. Nada menos que 13,15% do PIB da Província do Grande ABC de R$ 120.188.959 bilhões” – escrevi em dezembro do ano passado. 

Também lembrei naquele texto que a economia da Grande Osasco avançou sempre em termos nominais a velocidade 43,13% maior no período de 12 anos. “Ou seja: a cada nova temporada, a Grande Osasco avança 3,60% a mais na velocidade de produzir riqueza em relação ao conjunto dos sete municípios da Província” – escrevi. 

Numa Entrevista Especial em setembro de 2009, na condição de deputado estadual, Orlando Morando concordou com a ponderação deste entrevistador sobre os limites do Rodoanel: “Só com a chegada do trecho sul não existe ferramentas para fazer a reversão da perda do Valor Adicionado na nossa região”, respondeu Orlando Morando. “O discurso de entusiasmo que o parlamentar costuma propagar ganha tons de comedimento quando se coloca o paradoxo de que o traçado sul tanto pode favorecer como prejudicar o fluxo de investimentos econômicos de produção no Grande ABC” – escrevi há quase oito anos. 

Leiam com atenção a resposta do então deputado estadual à primeira pergunta daquela Entrevista Especial (como agora, portanto) sobre condicionantes ao sucesso do traçado do trecho sul do Rodoanel: 

“Não pode se descaracterizar que a chegada do trecho sul do Rodoanel ao Grande ABC é de vital importância para o desenvolvimento econômico. Também não quero acobertar os riscos. Agora, a responsabilidade dos riscos não recai sobre o beneficio da obra e sim sobre a falta de agilidade ou a inoperância das administrações municipais que seguramente terão que ousar para que o Rodoanel não se torne uma via de duas mãos quanto a levar as riquezas do Grande ABC. Resumindo, o Rodoanel é sim o grande passaporte do desenvolvimento econômico das últimas décadas do Grande ABC, porém se não tivermos administrações ousadas, com coragem de discutir carga tributária, adequação logística interna dos municípios, plantas de produção à altura do ABC, seguramente poderemos perder para outras cidades, inclusive do Interior, que, também com o Rodoanel, passarão a estar perto do Grande ABC. Acima de tudo destaco o Rodoanel como obra fundamental e de vital importância para o crescimento econômico – afirmou Orlando Morando naquela Entrevista Especial já distante no tempo.

Seis meses após assumir a Prefeitura de São Bernardo, e mesmo alertado por CapitalSocial sobre as complicações econômicas geradas pelo trecho sul do Rodoanel -- sobretudo no campo de investimentos industriais -- não há notícia alguma de efetivo interesse de Orlando Morando atacar para valer os danos colaterais da obra, tanto à frente do Executivo do Município mais poderoso da região como no comando do Clube dos Prefeitos.

Por isso, a resposta à Entrevista Especial de CapitalSocial é espécie de desprezo ao interesse público subjacente no trabalho jornalístico. 

A pergunta de CapitalSocial

Seu antecessor deixou uma herança que chamaríamos de muito preocupante no uso e ocupação do solo. Trata-se dos chamados Cepacs, aprovados e ao que se informa ainda não tornados efetivos. Em suma, haveria superocupação do tecido espacial de São Bernardo, a favorecer fortemente grandes incorporadoras. O senhor pensa em revogar aquela legislação?

A resposta de Orlando Morando

Estamos avaliando essa questão. O Cepacs foi criado quando havia um boom no mercado, diferentemente do que ocorre com o atual cenário. A discussão é justamente para definir solução mais adequada.

Meus comentários

Não existe a menor possibilidade de os Cepacs ganharem constitucionalmente a roupagem de segredo administrativo, daí a incompreensão do distanciamento do prefeito Orlando Morando de uma resposta satisfatória. Que tipo de discussão está sendo realizada para definir solução mais adequada? Por que eventuais debates que se estão realizando, se de fato o estiverem, não contam com foro de múltiplos agentes privados e sociais para corrigir, inclusive, o desinteresse do antecessor de Orlando Morando em dar transparência a temáticas que impactam a qualidade de vida da população?

Quem disser que o uso e a ocupação do solo não são relevantes ao futuro de uma comunidade está alheio às consequências do crescimento urbano desordenado que se opõe ao desenvolvimento econômico. Fosse o que se espera de um dirigente público, Orlando Morando teria providenciado medidas transparentes para que os Cepacs saiam da seara corporativista do mercado imobiliário, expandindo-se ao conjunto da sociedade.

A evasiva contradiz os novos tempos anunciados pelo prefeito de São Bernardo. Mais que isso: fosse diferente do que se está apresentando, ou seja, um comandante público que rompesse com a mesmice dos antecessores e também com um padrão de gestor público ultrapassado, teria tomado iniciativas tanto à frente da Prefeitura quanto do Clube dos Prefeitos para romper os grilhões que tornam o mercado imobiliário enorme ponto de interrogação em moralidade e ética.

A pergunta de CapitalSocial

O então prefeito William Dib, num dos mandatos, tentou e não conseguiu harmonizar dentro do possível as relações entre capital e trabalho em São Bernardo. Encontrou barreiras esperadas de um lado que não abre mão de chamadas conquistas trabalhistas e de outro que prefere transferir os negócios a outros endereços no País a se desgastar em contendas que pareçam impraticáveis. O senhor projeta alguma iniciativa para tornar a relação capital e trabalho menos traumática em São Bernardo ou acredita no marketing de que o relacionamento melhorou muito nos últimos anos e, portanto, não carece de iniciativas nesse sentido?

A resposta de Orlando Morando

Nossa forma de atuação é pelo acompanhamento constante e fiscalizador em todos os relacionamentos que buscam o melhor resultado para São Bernardo.

Meus comentários

O histórico de relacionamento entre capital e trabalho em São resultou no caldeirão de improdutividades, privilégios e baixíssimo grau de aderência de investimentos. Esperava-se que o prefeito respondesse com algo a provocar algum entusiasmo. Ao lavar as mãos, o que Orlando Morando passa aos leitores é que não lhe apetece mexer nesse vespeiro.

Aparentemente é uma decisão sábia à sobrevivência política, mas, no fundo reveste-se de equívoco. Falta uma grande liderança municipal e regional para participar efetivamente do jogo entre capital e trabalho. Nada que sugira um salvador da pátria, mas alguém que aglutine extremidades desse jogo e, quem sabe, registre avanços que, por enquanto, parecem inatingíveis, até porque inexistentes.

A pergunta de CapitalSocial

O senhor pensou alguma vez em reduzir os níveis de demissões industriais em São Bernardo, as mais altas do País? Nos últimos 12 meses, por exemplo, São Bernardo demitiu quase três vezes mais trabalhadores industriais com carteira assinada do que a média do País. É uma expressão clara de esclerosamento das relações entre capital e trabalho. É impossível o Poder Público Municipal mobilizar forças e grupos para amenizar esses números?

A resposta de Orlando Morando

Temos mostrado, com fatos palpáveis, que trouxemos uma gestão que trabalha pela geração de empregos, conseguindo sintonia na relação do empregador e empregado.

Meus comentários

Principalmente pequenas e médias indústrias de São Bernardo sofrem muito com as exigências do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, entre as quais os comitês de fábricas com vícios socializantes. Os estrondos de demissões de trabalhadores industriais, portanto, não estão fora da lógica acaciana de ação-reação. A pactuação de um novo modelo de relacionamento do sindicato com empresas é mais que uma necessidade e não pode prescindir da liderança política de quem ocupa o comando do Paço Municipal. É intolerável que se observe um caudaloso rio de trabalhadores sem emprego enquanto as instituições mantêm-se impassíveis. Até parece que os dramas sociais não têm linha direta com o quadro trabalhista.

A pergunta de CapitalSocial

Como o senhor observa o desencontro entre as notícias que estabeleceram um cronograma otimista para a chegada do monotrilho à região, cortando São Bernardo em larga geografia, e a efetiva demorara à realização da obra? Não parece que houve completo desrespeito aos compradores de apartamentos próximos ao traçado, cujas peças publicitárias das incorporadoras centralizaram mote de vendas nas facilidades logísticas? O que o senhor tem feito nas relações com o governo do Estado para oferecer informações à sociedade, especialmente aos potenciais usuários e aos moradores que foram levados a investimentos residenciais pautados pelo noticiário cor de rosa?

A resposta de Orlando Morando

A geração de riquezas no Grande ABC ultrapassa R$ 120 bilhões, representação de aproximadamente de 4% no País. O Consórcio Intermunicipal do Grande ABC foi idealizado pela busca de garantir ações e resultados para toda a região. É possível garantir isso trabalhando de maneira assertiva em torno de política prioritária.

Meus comentários

Pode parecer erro de edição, mas foi essa mesma a resposta de Orlando Morando. Ou seja, nada a ver com a pergunta de CapitalSocial. O desrespeito, quando não a agressão econômica e social aos novos moradores de São Bernardo que se instalaram no entorno do monotrilho que não chegou, seria um caso de polícia não fosse a solidificação de abusos que ganharam jurisprudência nas relações entre o mercado imobiliário e a sociedade.

Orlando Morando poderia ter respondido à indagação de CapitalSocial com a novidade publicada dois dias antes nos jornais locais: o Clube dos Prefeitos que ele dirige pretende substituir por BRT o monotrilho badalado durante anos e anos como a salvação da lavoura logística para quem quer chegar mais rápido à Capital. O BRT, de corredores de ônibus exclusivo, é uma versão do sistema de trólebus que já contempla alguns municípios da região, casos de Santo André, São Bernardo e Diadema.

Argumenta-se em defesa do BRT que os custos de investimentos seriam menores. Enquanto isso, quem decidiu morar próximo ao traçado do monotrilho que demora a chegar tem de se submeter a uma logística de transporte completamente diferente – e contraproducente – do que imaginava ao adquirir apartamentos cujos incorporadores anunciaram aos quatro cantos as vantagens daquele sistema de transporte sobre trilho. Mais que isso: a maioria das incorporadoras anunciou metrô em vez de monotrilho. O que agrava o estelionato informativo.

A pergunta de CapitalSocial

Já não passou da hora de o Clube dos Prefeitos abrir-se a integrantes da sociedade que tenham visão técnica sobre descaminhos da região na área econômica?

A resposta de Orlando Morando

Presido o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e desconheço essa denominação de Clube dos Prefeitos. Uma unidade do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC em Brasília foi pautada com objetivo de buscar mais projetos da União, de forma macro, a contemplar todas as sete cidades do Grande ABC. O trabalho é estruturado e foi estruturado na busca por resultados efetivos.

Meus comentários

Nada, absolutamente nada de resposta ao enunciado de CapitalSocial. Provavelmente Orlando Morando não se interessa pela participação efetiva e com valor agregado de representantes da sociedade desorganizada da Província do Grande ABC.

A pergunta de CapitalSocial

Especialistas experientes em organizações coletivas como o Clube dos Prefeitos afirmam que a melhor maneira de alcançar resultados que retroalimentem novos resultados positivos é a escolha prioritária de cinco temáticas que mais afligem municípios e transformá-las em focos especiais de atuação. Por que o Clube dos Prefeitos insiste em tentar agarrar o mundo regional, com uma imensidão de programas que patinam, patinam e não saem do lugar?

A resposta de Orlando Morando

Presido o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e desconheço essa denominação de Clube dos Prefeitos.

Meus comentários

De novo o prefeito ignora o questionamento de CapitalSocial.

A pergunta de CapitalSocial

Por que o senhor não adotou em São Bernardo critérios semelhantes aos utilizados pelo prefeito Paulinho Serra, de Santo André, que trocou dívidas de empresas privadas por atendimento médico? O senhor teria sido desaconselhado porque a legalidade da iniciativa poderia ser contestada ou a medida embutiria aspectos éticos que não seriam convenientes? 

A resposta de Orlando Morando

Nossa gestão tem a forma de priorizar e trabalhar projetos. Não me cabe como prefeito de São Bernardo avaliar gestões vizinhas. Além disso, cada um tem situação financeira em seu Município.

Meus comentários

Possivelmente Orlando Morando não pretendeu colocar em xeque a robustez legal do projeto em execução em Santo André porque, em São Bernardo, numa campanha semelhante de queixa da fila de espera no atendimento médico, optou-se por uma força-tarefa utilizando-se dos equipamentos públicos disponíveis. Ou seja: sem reciprocidade fiscal com empresas privadas para supostamente desafogar o atendimento público. Se não existe equívoco na política adotada por Paulinho Serra, provavelmente Orlando Morando estaria em desvantagem por descartar a iniciativa que reduziria os custos efeitos já que em Santo André as empresas parceiras da Prefeitura estão trocando dívidas ativas por prestação de serviços. 

A pergunta de CapitalSocial

Quando o senhor anunciou que passaria a cobrar pela assistência médica de acidentados no sistema Anchieta-Imigrantes, acionando a concessionária, completou dizendo que somente quem morava em São Bernardo não seria incluído na conta. Para quem dirige o Clube dos Prefeitos e defende a regionalidade, não parece que a medida configurava-se contraditória?

A resposta de Orlando Morando 

Nossa intenção é cobrar de quem já recebia por isso, que são as concessionárias. As rodovias atendem todo o Brasil e não somente o Grande ABC. Prova do sucesso da Lei são as cópias delas, feitas por outras cidades.

Meus comentários 

Orlando Morando deixou de informar que as concessionárias responsáveis pelas rodovias obtiveram sucesso no Judiciário contra a medida que ele anunciou. Isso quer dizer que Orlando Morando implantou algo como uma jabuticaba legislativa sem o correspondente amparo técnico-legal. Mas os ganhos políticos se deram durante esse período. Os mesmos veículos de comunicação que destacaram a iniciativa do prefeito sonegaram a contraofensiva das concessionárias. 

Para não restar dúvida sobre o resultado, em 18 de maio último o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu liminar favorável ao pedido de inconstitucionalidade avocado pela Associação Brasileira de Concessionária de Rodovias (ABCR) contra a lei sancionada em 31 de março pela Prefeitura de São Bernardo. 

Em seu despacho, o relator João Carlos Saletti aceitou a argumentação da ABCR, apresentada em 14 tópicos. As principais alegações são de que a atuação das concessionárias já está prevista em edital, que o socorro de vítimas segue critérios técnicos e que interferir nesse processo ofende o direito à vida e à saúde. 

A ABCR disse ainda que a lei municipal liderada por Orlando Morando tem caráter meramente arrecadatório, pretendendo atingir apenas as concessionárias de rodovias. Para o relator, a motivação apresentada pela associação justifica a liminar concedida, pois há “perigo na demora” de uma decisão judicial. 

O complemento da resposta de Orlando Morando, de que outros municípios estariam aderindo ao movimento de São Bernardo, tem o mesmo viés: despertar a atenção dos contribuintes para o que se alardeou como abuso das concessionárias de rodovias. Não custaria nada vender gato por lebre, ou seja, desfraldar uma bandeira técnica e legalmente furada, porque o efeito midiático estará garantido. Até que alguém esclareça a situação. 

A pergunta de CapitalSocial

O senhor entende que compete em larga escala aos prefeitos da região, individual e coletivamente, mudanças econômicas que coloquem o desenvolvimento econômico nos trilhos ou há condicionamentos de políticas e iniciativas estaduais e federais muito acima das forças locais? Ou seja: os prefeitos e as demais instâncias locais são muito pouco para efetivarem resultados? 

A resposta de Orlando Morando

A impulsão pela melhora da economia por todo o aspecto precisa de aglutinação de forças. Sob essa ótica, vejo que os prefeitos e demais instâncias têm força significativa para a contribuição.

Meus comentários 

Embora de forma sucinta, mas fixada em bases corretas, por enquanto Orlando Morando praticamente nada produziu no campo econômico como titular do Clube dos Prefeitos, instância coletiva mais importante da região. Não existe uma agenda sugerida ou implantada pelos atuais ocupantes dos paços municipais da região que consista em atacar para valer o derramamento de sangue econômico que torna os sete municípios referência de complicações geradas pela fuga dos negócios industriais.

A pergunta de CapitalSocial

O senhor assumiu o Clube dos Prefeitos no início deste ano com restrições orçamentárias que induzem à interpretação de que se minimizou ainda mais a capacidade organizacional da entidade. Mesmo se considerando que o modelo que o senhor recebeu compunha-se de excessos de gastos sem direcionamento produtivo, é mais que visível que a entidade não parece encontrar o rumo, até porque rumo jamais foi algo que pudesse ser catalogado como virtude. Não seria melhor entregar a direção técnica do Clube dos Prefeitos a uma consultoria especializada em competitividade, que trabalharia em sintonia com os chefes de Executivo?

A resposta de Orlando Morando

Presido o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e desconheço essa denominação de Clube dos Prefeitos. Mostramos resultados mais efetivos no Consórcio Intermunicipal do Grande ABC ao reduzir custos de forma austera. O modelo de gestão segue em harmonia justamente para trazer a real essência de projetos para o Grande ABC. Trouxemos um assento do governo do Estado (subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Edmur Mesquita), e estamos aproximando a entidade da Capital Federal, com sucursal. Esforços esses para sintonizar a região com projetos macros de Estado e União.

Meus comentários 

Orlando Morando enreda-se na mesmice de um discurso de contenção de gastos como se a iniciativa fosse suficiente para superar as dificuldades do Clube dos Prefeitos. Note-se que nem mesmo tangencialmente o prefeito de São Bernardo e prefeito dos prefeitos aborda o ponto central da pergunta -- relativo à contratação de uma consultoria especializada em competitividade, medida que se espalha entre organizações coletivas lideradas sobretudo por voluntários, caso da direção do Clube dos Prefeitos. 

O experimento anunciado com pompas nesta temporada, de contar com um representante do governo do Estado no Clube dos Prefeitos, já se implantou no passado com resultados pífios. No caso, final dos anos 1990, o então secretário particular do governador Mario Covas, Fernando Leça, com histórico político-administrativo na região, foi nomeado como interlocutor do Palácio dos Bandeirantes. A regionalidade da Província do Grande ABC jamais foi preocupação dos tucanos que estão no aparelho governamental paulista há mais de duas décadas.

A pergunta de CapitalSocial 

Alugar um imóvel em Brasília e transformá-lo em ponto de referência de ação institucional e operacional do Clube dos Prefeitos não parece algo varejista, quando todo o mundo sabe que a Província do Grande ABC é um caso que exige ações estruturadas, as quais, por sua vez, poderiam dar consistência a medidas táticas como a do imóvel? Não fixaremos uma imagem de pedintes de luxo?

A resposta de Orlando Morando 

Presido o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e desconheço essa denominação de Clube dos Prefeitos. Uma unidade do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC em Brasília foi pautada com objetivo de buscar mais projetos da União, de forma macro, a contemplar as sete cidades do Grande ABC. O trabalho foi estruturado na busca por resultados efetivos.

Meus comentários 

Também não é novidade alguma a pretensão de contar com representação em Brasília. No passado houve tentativas no mesmo sentido e, mais que isso, a promessa de utilizar-se de espécie de enviado especial intermitente na Capital da República. Os desdobramentos foram frágeis. 

A chamada Casa do Grande ABC em será um apêndice no organograma do Clube dos Prefeitos com finalidade de arrecadar aqui e acolá, nos ministérios, dinheiros para projetos pontuais. Nada que se configure sistêmico, estrutural. Para tanto seria indispensável um Plano Estratégico de Competitividade que, como se sabe, não consta do dicionário dos atuais prefeitos. Como não constaram dos prefeitos antecessores. Exceto Celso Daniel, claro, e mesmo assim até o então prefeito de Sant André desencantar-se com o que imaginava ser uma orquestra de regionalidade que de fato não passava de repentistas beligerantes.

A pergunta de CapitalSocial 

Que tipo de choque o senhor sentiu como ex-deputado que jamais teve acesso ao Clube dos Prefeitos e que, de repente, como prefeito, é eleito presidente? 

A resposta de Orlando Morando

Presido o Consórcio Intermunicipal do Grande ABC e desconheço essa denominação de Clube dos Prefeitos. São funções diferentes e não cabe aqui comparar. Cumpri meu mandato como deputado por quatro oportunidades e, hoje, tem uma nova realidade, que é ser prefeito e presidente de Consórcio, pelo qual tenho buscado desenvolver a melhor função possível.

Meus comentários 

Quando deputado estadual, Orlando Morando sempre foi crítico da atuação do Clube dos Prefeitos, sobretudo pelo vetor de isolacionismo diretivo, ou seja, de afastamento de outras instâncias públicas e privadas. Todas as tentativas de abertura do Clube dos Prefeitos, quer com a participação de deputados estaduais e federais, quer com vereadores, foram dissimuladamente escanteadas. 

A resposta do prefeito foi cuidadosamente medida supostamente para não lhe criar embaraços, mas ficou distante do interesse público. Seria relevante saber de um ex-deputado estadual até que ponto é desafiador agora como prefeito dos prefeitos exprimir anseios, projetos e ações à frente da entidade. E quem sabe sair da teoria à prática ao liderar o chamamento de novos agentes públicos, e também privados, àquela organização. 

A pergunta de CapitalSocial

Quando o senhor anunciou que passaria a cobrar pela assistência médica de acidentados no sistema Anchieta-Imigrantes, acionando a concessionária, completou dizendo que somente quem morava em São Bernardo não seria incluído na conta. Para quem dirige o Clube dos Prefeitos e defende a regionalidade, não parece que a medida configurava-se contraditória?

A resposta de Orlando Morando 

Nossa intenção é cobrar de quem já recebia por isso, que são as concessionárias. As rodovias atendem todo o Brasil e não somente o Grande ABC. Prova do sucesso da Lei são as cópias delas, feitas por outras cidades.

Meus comentários 

Orlando Morando deixou de informar que a concessionária responsável pelas rodovias obteve sucesso no Judiciário contra a medida que ele anunciou e que, até então, nenhuma Prefeitura entre as muitas do Brasil que se encaixam no modelo de parceria com os Estados passou por medidas semelhantes. 

Isso quer dizer que Orlando Morando implantou algo como uma jabuticaba legislativa sem o correspondente amparo técnico-legal. Mas os ganhos políticos possivelmente se deram durante esse período. Os mesmos veículos de comunicação que destacaram a iniciativa do prefeito sonegaram a contraofensiva das concessionárias. 

Para não restar dúvida sobre o resultado, foi em 18 de maio último que o Tribunal de Justiça de São Paulo concedeu liminar favorável ao pedido de inconstitucionalidade avocado pela Associação Brasileira de Concessionária de Rodovias (ABCR) contra a lei sancionada em 31 de março pela Prefeitura de São Bernardo. 

Em seu despacho, o relator João Carlos Saletti aceitou a argumentação da ABCR, apresentada em 14 tópicos. As principais alegações são de que a atuação das concessionárias já está prevista em edital, que o socorro de vítimas segue critérios técnicos e que interferir nesse processo ofende o direito à vida e à saúde. 

A ABCR disse ainda que a lei municipal liderada por Orlando Morando tem caráter meramente arrecadatório, pretendendo atingir apenas as concessionárias de rodovias. Para o relator, a motivação apresentada pela associação justifica a liminar concedida, pois há “perigo na demora” de uma decisão judicial. 

O complemento da resposta de Orlando Morando, de que outros municípios estariam aderindo ao movimento de São Bernardo, provavelmente tem o mesmo viés: despertar a atenção dos contribuintes para o que se alardeou como abuso das concessionárias de rodovias. Não custaria nada vender gato por lebre, ou seja, desfraldar uma bandeira técnica e legalmente furada, porque o efeito midiático estará garantido. Até que alguém esclareça a situação. O que nem sempre ocorre.

A pergunta de CapitalSocial 

Quais iniciativas o senhor tem tomado, como prefeito de São Bernardo e prefeito dos prefeitos, para tornar mais transparente a Fundação do ABC, considerada caixa-preta de longa data como escoadouro de empreguismos, corporativismo e mandraquismos?

A resposta de Orlando Morando 

Desde que iniciamos trabalho à frente da Prefeitura e do Consórcio Intermunicipal do Grande ABC priorizamos o respeito ao dinheiro público, mostrando de maneira explícita que não toleramos desrespeitos. Dessa forma, seguimos a fiscalizar todos os órgãos, cobrando e adequando gestão.

A pergunta de CapitalSocial 

Afirmamos categoricamente há muito tempo que a Fundação do ABC é a única regionalidade que deu certo na Província do Grande ABC porque contempla mutuamente todos os partidos políticos e suas ramificações sociais. O senhor entende que há exagero nessa conceituação?

A resposta de Orlando Morando

A Fuabc tem mostrado ao longo dos anos acertos e méritos. 

Meus comentários

Sempre resguardando a individualidade e a institucionalidade do prefeito Orlando Morando como premissa à aridez de conteúdo nas respostas, é importante lembrar o outro lado da moeda que a democracia representativa impõe a um representante público eleito pela população: a responsabilidade de ser transparente, elucidador e republicano. Qualificações frustradas não só nas duas respostas sobre a Fundação do ABC, mas a quase todo o conjunto da Entrevista Especial. 

Se o prefeito de São Bernardo – e também prefeito dos prefeitos da região por conta de ser o prefeito do Clube dos Prefeitos desde janeiro – dedicasse à mais que nebulosa Fundação do ABC um décimo do espalhafato marquetológico em assuntos muito menos relevantes para o conjunto da sociedade, aquela organização teria novo rumo. 

Quando afirmo que a Fundação do ABC é a única regionalidade que deu certo na história de divisionismos político-administrativos da Província do Grande ABC, é claro que estou sendo sarcástico. É de conhecimento geral e irrestrito entre quem acompanha as atividades políticas na região que a Fundação do ABC é um convite ao desperdício, ao corporativismo, ao empreguismo, ao clientelismo e a tudo que se possa imaginar como insumos que seriam prioritariamente desnudados e aniquilados por gestores públicos comprometidos com novas configurações éticas e morais. 

As respostas de Orlando Morando são um escárnio para os eleitores que o colocaram na Prefeitura mais importante da região (e que mais financia os recursos supostamente administrados pela Fuabc) e também aos eleitores que preferiram não comparecer às urnas em outubro do ano passado, ou votaram no candidato Alex Manente. 

Ou seja: para um jovem prefeito que se anunciou reformista, a Fundação do ABC é um dos desafios que se apresentam como teste de fogo. Orlando Morando não suportou a primeira bateria. Saiu chamuscadíssimo.  

A pergunta de CapitalSocial 

O prefeito que o antecedeu, Luiz Marinho, deixou de herança, embora de forma ainda rarefeita, a expectativa de que São Bernardo teria uma unidade de indústria de defesa, no caso a fábrica de estruturas metálicas do Gripen, que centralizaria salto à geração de um polo do setor na região. Não há sequer uma só notícia que dê conta de preocupação do senhor com o assunto. O Gripen não lhe interessa, há fatores extra-região que recomendariam o distanciamento ou então o senhor não acredita que São Bernardo será contemplada com a fábrica dos caças suecos?

A resposta de Orlando Morando

Precisamos deixar claro que meu antecessor não deixou, sob qualquer aspecto, heranças sobre esse assunto. O que acompanhamos foi uma série de propagandas, desde 2010, mas que em nenhum ponto se notou efetividade. Algo pirotécnico que rendeu até viagens à Suécia. Tanto é que, ao encerrar gestão, o antecessor se esquivou de responsabilidades pela não concretização das propagandas. O caso rendeu investigações por parte do MPF (Ministério Público Federal) e Polícia Federal. Como atual gestor, tenho me empenhado pela fomentação de novos negócios no Município de forma transparente, incluindo, esse caso, por exemplo.

Meus comentários 

É inconcebível sob qualquer aspecto de Administração Pública que Orlando Morando não tenha tido iniciativa para informar os contribuintes sobre o empreendimento que simbolizaria possível redirecionamento fora do eixo automotivo prevalecente em São Bernardo.

A situação se agrava sabendo-se como se sabe que o projeto de uma fábrica de estrutura metálicas dos caças Gripe em São Bernardo é de interesse regional, sendo o prefeito de São Bernardo também titular do Clube dos Prefeitos do Grande ABC.

Nem de longe se poderia imaginar que Orlando Morando não teria uma novidade sequer sobre a fábrica dos caças suecos. Saber em que pé está o cronograma desse que é, no conjunto, um dos maiores investimentos do governo federal (serão mais de US$ 5 bilhões) deveria ser prioridade absoluta da Secretaria de Desenvolvimento Econômico. 

O que se pergunta é se há desinteresse da gestão tucana em contemplar iniciativa do antecessor petista Luiz Marinho, a quem supostamente seria creditada parte do investimento, ou se falta à Prefeitura de São Bernardo algo que coloque para valer o desenvolvimento econômico como destaque.

Sabendo-se como se sabe que há emaranhado de interrogações a cercar o investimento dos suecos em São Bernardo (CapitalSocial se dedicou a isso em muitos textos), Orlando Morando deveria ter ido a campo em busca de esclarecimentos até mesmo para oferecer, quem sabe, um cardápio de contrapartidas oficiais e, mais que isso, transmitir à sociedade luminosidade sobre o empreendimento. Prevalece, como o próprio prefeito estimula em sua resposta, desconfiança generalizada.  

Há muita obscuridade envolvendo São Bernardo e os caças suecos, além de complicações na esfera federal de altas patentes petistas do governo Dilma Rousseff. Precisamente por isso e também para assegurar que o anunciado investimento não fuja, Orlando Morando não poderia esperar herança do antecessor. 

Herança de fato já existe e se traduz no compromisso dos suecos instalarem a fábrica em São Bernardo. Um compromisso que estaria esgarçado não só com a troca de governo federal e de administração municipal, mas sobretudo porque não falta quem identifique mudança de rumo da empresa como maneira de desvencilhar-se das suspeições tentaculares de São Bernardo então petista. 

Estivesse o prefeito Orlando Morando dedicado à iniciativa do antecessor, não teriam faltado medidas de apoio em tratativas junto à Saab para reforçar o interesse de sediar a fábrica.  

A pergunta de CapitalSocial 

A situação econômica de São Bernardo, por si só e também quando contraposta a inúmeros municípios paulistas, distancia-se do mínimo de tranquilidade. Perde competitividade a olhos vistos, com consequências sociais desgastantes. Como entender que o senhor compreende mesmo a situação se não conta com uma Secretaria de Desenvolvimento Econômico apetrechada a enfrentamentos que exigem iniciativas vigorosas? Tanto é verdade que há descompasso entre a realidade e os instrumentos que o senhor preparou a ponto de praticamente não existir noticiário sobre a economia de São Bernardo, em forma de reação organizada.

A resposta de Orlando Morando

Temos trabalhado de forma vigorosa por uma política de proximidade com o empresariado do Município. Conseguimos ao longo de cinco meses de gestão anunciar abertura de postos de trabalho com a chegada de novas empresas (M.Shimizu, especializada no desenvolvimento de softwares, máquinas e equipamentos voltados ao setor automotivo, e a Novemp, do setor de painéis elétricos e barramentos blindado). Foram mais de 300 novas vagas de emprego. Essa chegada foi conduzida pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, com minha participação também. Buscamos política de estreitamento que, em meio à crise, garantiu a São Bernardo resultado diferente da realidade. Com essa política do desenvolvimento conseguimos também que a B.Grob, uma das mais antigas fabrica do setor automotivo, aumentasse a planta, gerando mais postos de trabalho. A DXC Technology, empresa de tecnologia da informação localizada à margem da Estrada Samuel Aizemberg, no Bairro Alves Dias, está disponibilizando 200 vagas. Além disso, acompanhamos a Scania anunciar a abertura de 500 postos de trabalho. Toda essa tratativa teve participação incisiva da Administração. Perfil de atuação garantiu bom resultado ao Município, que apresentou o melhor saldo de geração de emprego, em maio, de acordo com os números do Caged. São Bernardo registrou a abertura de 479 vagas, o que corresponde a 56% do bom desempenho da região. 

Meus comentários

Os exemplos citados pelo prefeito Orlando Morando, de investimentos em São Bernardo, não podem ser integralmente creditados, muito pelo contrário, ao novo comando do Paço Municipal. Mas muitos outros que poderão chegar devem ser relacionados a eventuais políticas de valorização da competitividade do Município. Uma semana após responder a essa Entrevista Especial, Orlando Morando ganhou as manchetes com o anúncio da Volkswagen do Brasil. 

São Bernardo, como decidira a companhia multinacional alemã em associação anterior com o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, vai contar com duas divisões de produção do Novo Polo, na fábrica da Via Anchieta. Foram decisões tomadas muito antes da vitória eleitoral de Orlando Morando, em outubro do ano passado, mas que podem representar o ponto de partida de politica industrial consistente – mesmo quando se ressalva que a montadora alemã praticamente não vai acrescentar emprego às novas unidades. Na verdade, vai fazer esforço redobrado para não rebaixar ainda mais o quadro de trabalhadores, que hoje alcança 9,3 mil carteiras assinadas. 

Orlando Morando também declarou, na semana seguinte a esta Entrevista Especial, que pretende viabilizar mais investimentos daquela montadora em São Bernardo – e provavelmente de outras –ao destravar o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) que o governo do Estado retém por conta de diferenças de alíquotas interestaduais. É uma iniciativa interessante a demandar muita negociação. O fato de haver interesse em unir o Município ao governo do Estado em busca de alternativas de investimento pode sinalizar novos tempos. 

A pergunta de CapitalSocial

O senhor tem anunciado profusão de medidas importantes no varejo administrativo. Acha isso suficiente para impulsionar a confiança de que São Bernardo viverá novos tempos ou reconhece que sem projetos e obras que dinamizem o Município não haverá saída para o encalacramento econômico?

A resposta de Orlando Morando

Sempre trabalhei ao longo da minha vida pública acreditando que uma boa política econômica passa por medidas conjuntas, conferindo vários setores. E acredito que justamente isso precisa ser estudado e executado no nosso País.

Meus comentários 

A resposta do prefeito de São Bernardo, encaminhada por e-mail uma semana antes do anúncio da Volkswagen, mostra que até então não havia nada programado nesse sentido. Ou, se havia, o prefeito preferiu manter em segredo. 

A pergunta de CapitalSocial 

O senhor acha pouco provável criar na Prefeitura de São Bernardo algo semelhante ao que Fernando Haddad fez na Administração de São Paulo, caso da Controladoria-Geral do Município que, entre muitas ações de faxina, descobriu e denunciou a Máfia do ISS e do IPTU?

A resposta de Orlando Morando

A nossa gestão tem colocado, desde o início do trabalho, a transparência de toda situação encontrada na Prefeitura, como os contratos e déficits deixados pela gestão anterior. O trabalho pela transparência e fiscalização é prioritário em nossa Administração, independentemente de ter um órgão específico para isso.

Meus comentários 

Nada melhor que uma Controladoria-Geral como a experimentada por Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo. Basta verificar o quanto aquele organismo, totalmente alterado pelo sucessor João Doria, representou de ganhos fiscais aos cofres públicos com a descoberta da Máfia do ISS, entre muitas irregularidades. 

A pergunta de CapitalSocial 

Agora que houve a negativa do Ministério da Cultura de reciclagem temática do projeto do Museu do Trabalho e do Trabalhador, o que o senhor pretende fazer para, quando a obrar estiver pronta, dar ocupação àquela área. Já fez consulta ao mesmo Ministério para tentar obter a resposta sobre a possibilidade de estender o núcleo de atuação daquele projeto ao campo empresarial, inclusive com nova denominação que contemple os dois lados da moeda econômica, o capital e o trabalho?

A resposta Orlando Morando

Caso a destinação do projeto não seja alterada, a Prefeitura não irá administrar o museu. Entretanto, vamos exaurir todas as possibilidades jurídicas para modificar a destinação do projeto, uma vez que foi rejeitado por grande maioria dos moradores da cidade. Mantendo no setor da Cultura, o projeto é que o local seja destinado a uma Fábrica de Cultura.

Meus comentários 

Parece subjacente à resposta do prefeito Orlando Morando um desconforto politicamente natural de vinculação da obra à remissão popular de que se trata do “Museu do Lula”. Por isso a determinação de rejeitar algo que conduza à principal oposição político-partidária dos tucanos. Talvez a melhor alternativa ao local seja uma sugestão que defendo desde o princípio, em contraposição, portanto, ao unilateral Museu do Trabalho e do Trabalhador batizado pelos petistas. 

São Bernardo deveria destinar o espaço -- com nova nomenclatura – em algo que entrelace as relações capital e trabalho. Não tem sentido a pretendida iniciativa petista de enaltecer exclusivamente os trabalhadores, quando se sabe que o capitalismo é a faca de dois gumes a cortar, quando bem exercitado, universos renitentes de pobreza e desigualdade social. 

Portanto, o melhor antídoto ao trabalhismo discriminador do capital que a obra petista pretendia consolidar é complementação que remeta ao empreendedorismo de pequenas, médias e grandes empresas. Do limão azedo da discricionariedade surgiria uma bem temperada limonada que juntaria as duas metades da mais bem sucedida forma de criação de riquezas -- o homem sempre disposto à mobilidade social na forma de trabalho e os empreendedores sempre prontos ao desenvolvimento dos negócios. 

A pergunta de CapitalSocial 

O senhor já pensou em promover a cada três meses uma entrevista coletiva sem restrições como espécie de prestação de contas à sociedade? Essa é uma prática comum no Primeiro Mundo, de governos centrais, mas no Brasil é uma raridade.

A resposta de Orlando Morando

Nossa gestão é muito presente nas ruas e no contato com a sociedade, prestando contas e detalhando metas e desafios. Utilizamos vários meios de comunicação no nosso trabalho, bem como respondemos manifestações e indagações. Todas as agendas públicas são divulgadas à imprensa. Os repórteres têm conhecimento das demandas anunciadas e prestação de contas. Uma fórmula bem melhor do que um cronograma a cada três meses.

Meus comentários 

O prefeito Orlando Morando está perdendo uma grande oportunidade de se mostrar e provar reformista. Nada substitui a relação transparente e responsável de dirigentes públicos e Imprensa. Nada melhor para colocar em ordem questões eventualmente nebulosas ou mal compreendidas que um encontro com os representantes da Imprensa, inclusive com a participação de titulares de várias pastas. 

A pergunta de CapitalSocial 

De forma sucinta, quais são os três problemas municipais principais que o senhor pretende encaminhar e eventualmente resolver nos quatro anos de mandato e sobre os quais estaria disposto a enfrentar cobranças?

A resposta de Orlando Morando

A herança deixada para mim em São Bernardo são inúmeras obras inacabadas e sérios problemas de caixa. Cerca de R$ 200 milhões em restos a pagar. Temos como desafio dar sequencia nestes entraves, principalmente detalhando contratos mal conduzidos. Um dos exemplos é com o projeto do Piscinão do Paço. D deparamos com uma obra morosa e com a empresa responsável pedindo mais dinheiro. Não autorizamos nenhum repasse e ainda colocamos o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) para apresentar um laudo real da obra, uma vez que meu antecessor prometia para o fim de 2016 e isso não se concretizou. Junto com isso há desafios no setor da Saúde. Temos feito um amplo empenho pela modernização e humanização do setor. Conseguimos instituir o programa “Saúde Prioridade” que, de, diminuiu à metade a fila de exames de 70 mil para 35 mil. Na Educação, inserimos o “Educar Mais” que, de maneira prioritária, inseriu escolas em tempo integral. Esse programa foi bem aceito e vamos aumentar participação de maneira gradativa. Na Segurança, um plano acertado foi a operação Noite Tranquila, desmontando e combatendo pancadões. Nesse setor, fizemos também ampla revisão de vídeomonitoramento, ação que tem rendido bons resultados.

Meus comentários 

Uma semana após as respostas da Entrevista Especial, o prefeito Orlando Morando possivelmente encontrou a principal fonte de eventuais grandes transformações de São Bernardo -- a potencialização do setor industrial como matriz ao financiamento de políticas públicas. 

Desde 2010, São Bernardo perdeu 25% de repasse do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), basicamente porque a economia fragilizou-se e se fragiliza mais e mais quando o setor automotivo é impactado. A saída de São Bernardo, portanto, passa primeiro pela economia, segundo pela economia, e terceiro pela economia.

A pergunta de CapitalSocial 

O prefeito Luiz Marinho deixou alguma coisa encaminhada que pudesse dar consistência à construção de um aeroporto em São Bernardo? Ele repassou os investidores dispostos a empreender? Há alguma documentação oficial que trate desse assunto? 

A resposta de Orlando Morando

Não há nada relacionado a esse assunto.

Meus comentários 

Nem poderia haver, claro. O Aeroportozão de São Bernardo foi um delírio do prefeito Luiz Marinho a bordo de megalomanias de gestores públicos quando tudo parece encaminhar à abundância de recursos ou diante de empreendedores privados, no caso específico jamais identificados, que se aproximam sorrateiramente dos poderosos de plantão.  



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