Sociedade

Clube dos Construtores de
novo mequetrefe e chinfrim?

DANIEL LIMA - 06/11/2017

O escândalo de licenças ambientais que impacta duramente o mercado imobiliário de São Bernardo – e cujos resultados criminais só serão conhecidos quando a força-tarefa da operação abrir o segredo de Justiça – é o ponto nuclear da presidência do jovem Marcus Santaguita no Clube dos Construtores. É a prova dos nove. 

Se deixar passar essa bola entre as pernas da insensibilidade, da indiferença ou da acomodação, Marcus Santaguita assinaria atestado de sucessor legítimo do famigerado empresário Milton Bigucci, de quem recebeu herança maldita, ou mequetrefe e chinfrim. 

Foi por afirmar e reafirmar em textos diferentes e de forma bastante contida em quantidade e acidez que o Clube dos Construtores é uma entidade mequetrefe e chinfrim (além de clube), que o meritíssimo de Santo André me lascou oito meses de prisão em regime semiaberto, sentença parcialmente descontruída no Tribunal de Justiça de São Paulo e que certamente será jogada no lixo do autoritarismo e do desconhecimento da prática jornalística ao final do julgamento do recurso no Superior Tribunal de Justiça.

Marcus Santaguita estaria tristemente inscrito na escolinha do famigerado antecessor caso permaneça como espectador e deixe de tomar providencias que o estatuto da entidade demanda. 

Outro lado do balcão 

Afinal, as falcatruas que culminaram no desbaratamento de um esquema de propinas e achaques a partir de um secretário municipal não podem ser olimpicamente desprezadas. Do outro lado do balcão de materialidades delitivas estão empresários do setor.

Por mais diplomático que seja o presidente Marcus Santaguita, e por mais que os dirigentes que o acompanham na diretoria queiram viver em paz inclusive para reduzir os vestígios dos estragos que encontraram, há situações que não permitem tergiversações. O crime investigado por promotores e policiais civis é robusto demais para ser colocado na prateleira de rotinas protegidas por uma placa de aviso à não perturbação do sono de quem não quer entrar em dividida. 

Mais uma vez acertou-se a cristaleira da reputação ética do mercado imobiliário. Santaguita não poder repetir os erros do antecessor ao sugerir que nenhum estrago se fez. Somente os incautos vão acreditar que fora um chumaço de algodão, não uma pedra, a atingir a imagem do setor. 

Vou mais longe na expectativa de que a diretoria presidida por Marcus Santaguita rompa o lacre de sem-vergonhices históricas do mercado imobiliário nas relações incestuosas com poderes públicos municipais: que o dirigente encaminhe documentação curta e grossa aos operadores do desmonte das roubalheiras e tenha oficialmente a identidade das empresas e de pessoas físicas do setor imobiliário flagradas nos delitos. Argumentos não faltariam para quem quer ver a atividade livre de safadezas. 

Nomes aos bois 

Ninguém mais acredita na possibilidade de que escândalos imobiliários e quaisquer tipos de esquemas envolvendo o Poder Público são via de mão única. Somente em Santo André, no caso Semasa, encontramos essa jabuticaba. 

Há zumzumzum intenso e especulativo sobre a lista de empresas que estariam mancomunadas com o então secretário e auxiliares diretos nas ações delinquenciais. Inclusive há nomes relacionados a dirigentes do próprio Clube dos Construtores. 

Sei que os leitores estão pensando numa logomarca conhecida por estar sempre em maus lençóis, mas não sou leviano a apontá-la. Da mesma forma, não posso ser hipócrita e deixar de comentar a possiblidade de estar, porque aquela organização ocupa elevada cotação na bolsa de contratempos do caso agora exposto. 

Desde que assumiu a presidência o engenheiro Marcus Santaguita dinamitou parte da toxidade moral e ética do Clube dos Construtores. Não é fácil dissolver o estágio mequetrefe e chinfrim que apontei como resumo da ópera daquela instituição patrocinadora ao longo dos tempos de enclausuramento patético, em contraposição pecaminosa especificada no estatuto. 

Entretanto, esse escândalo em São Bernardo é a batalha da ponte da gestão de Marcus Santaguita. A conclusão a que chegarão os sensatos se ao final do processo o Clube dos Construtores não tomar uma iniciativa regeneradora dos usos e costumes com o Poder Público dos associados ou não à entidade é que a troca de guarda foi um fracasso. 

Ranços do passado 

Durante o reinado deletério de Milton Bigucci o Clube dos Construtores foi um exemplo de omissão, quando não de incentivo a malandragens do setor imobiliário na região. 

Nada diferente da entidade da qual fez parte em São Paulo, o Secovi, Sindicato da Habitação, acusado pelo Ministério Público Estadual de participar ativamente de financiamentos eleitorais à margem da legislação ao encobrir atuação de uma entidade fantasma. 

Sem contar a Máfia do ISS, da qual empresas associadas ao Secovi, como a MBigucci, deitaram e rolaram em manejos espúrios com servidores públicos da Prefeitura de São Paulo. Um caso do qual o MP paulistano não dá conta de colocar os bandidos sociais na cadeia, após quatro anos do estouro. 

Nutro esperança de que não teria de usar os verbetes mequetrefe e chinfrim num futuro não muito distante quando me referir ao Clube dos Construtores sem que isso seja submissão a uma sentença absurda de um meritíssimo que desconhece nuances da liberdade de imprensa. Espero sinceramente que Marcus Santaguita entenda que é depositário de consolidada e coletiva percepção de que apagaria da história do mercado imobiliário da região tudo de nefasto que representa seu antecessor. 

Repeteco regional 

Ao mesmo tempo devo confessar que um lado mais racional me manda dizer com clareza que há no ambiente consagradamente refratário à ética do mercado imobiliário grupos de interesse a controlar eventuais ímpetos de renovação dos maltrapilhos desígnios de uma instituição de classe cujo perfil, largamente, prevalece no cenário institucional da região. 

Vamos observar atentamente os desdobramentos da operação do Ministério Público Estadual e da Polícia Civil em São Bernardo. 

Disse na semana passada e repito: estou boquiaberto com as medidas tomadas porque, por série de razões, sobretudo de ordem infraestrutural, o Ministério Público Estadual na região está sempre ou quase sempre comendo poeira dos bandidos sociais. Será que chegou a hora da virada? 

O bom de tudo isso é que a operação em si já provocou tormentos em outros municípios cujo protagonismo público e privado do setor imobiliário conta com delinquentes mais que conhecidos na perpetuação de um jogo concorrencial desigual. Afinal, quem gira em torno dos poderosos de plantão se torna poderoso estrutural demais para aceitar as regras de um jogo em que a meritocracia prevaleça. 



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