Sociedade

Bandidos sociais impediriam
nova versão de “Nosso Século”

DANIEL LIMA - 13/12/2017

Reunir em livro três ou quatro dezenas de representantes de vários setores da sociedade regional como o fizemos em duas versões de “Nosso Século XXI”, em 2001 e 2008, seria praticamente impossível, para não dizer muito arriscado. Se possível fosse, seria necessária garimpagem cuidadosa, meticulosa, extenuante. As individualidades fluviais do passado rareiam nestes dias. Um paradoxo, claro. Afinal, vivemos tempos de intensas manifestações em aplicativos de celular. 

Ainda vou me debruçar nos dois livros que expuseram ideias e experiências de profissionais que atuaram na região. Acho que aquelas preciosidades não podem ser simplesmente lidas. No meu caso, também editadas, juntamente com a jornalista Malu Marcoccia, companheira na coordenação do projeto. 

Outro dia dei uma olhadela ainda pouco profunda em artigos que reproduzimos neste ano e observei uma mina de diamantes a ser explorada para se compreender a magnitude do trabalho intelectual de cada articulista. 

Há mecanismos tecnológicos que me permitiriam rastrear determinados verbetes que, quando colocados em forma de conjunto da obra, retirando-se, portanto, o lacre da individualidade, muito haveriam de revelar. 

Matéria-prima valiosa

Aliás, tivéssemos na região o que chamaria de expressivo batalhão de intelectuais, dispostos a estudar para valer as razões que levaram a Província dos Sete Anões a tomar o posto do Grande ABC, as duas versões de “Nosso Século XXI” seriam matérias-primas de ensinamentos. 

Os ingredientes do que se passava e mesmo do que se passou, e do que se projetava para a região naqueles dois livros, estão a exigir que alguém preparado a um desafio os observe atentamente sob a ótica de compreensão dos dias atuais. Seria possível, com isso, evitar que falastrões tivessem credibilidade, filha dileta do desconhecimento, quando não do entreguismo financeiro e político-partidário. 

Ao reproduzir cada um dos textos dos 29 articulistas da primeira edição de “Nosso Século XXI” temos a preocupação de disseminar entre os leitores desta nova geração, e avivar a memória de contemporâneos, um extraordinário movimento coletivo que jamais se viu na região ou em qualquer outra área do País tendo como foco uma temática concentradora de desafios. 

 A força da diversidade 

A diversidade ocupacional dos articulistas convidados enriqueceu de tal maneira as edições de “Nosso Século XXI” que seria improvável alcançar resultado semelhante se tivéssemos cometidos o erro de definir apenas um determinado grupo de colaboradores. Chamamos representantes do Capital, do Trabalho, da Cultura, da Sociedade, da Política, de tudo. E não concentramos o endereçamento de convites em determinados grupo ideológico. 

Aliás, naqueles tempos jamais nos preocupamos com isso. E nem agora. Inteligência e burrice não têm cores partidárias. Estão aí Reinaldo Azevedo e Paulo Henrique Amorim, no campo jornalístico, para provar que o desastre é ecumênico. 

Hoje, infelizmente, vivemos situação extrema. Não temos um número suficiente de cabeças pensantes para produzir uma terceira versão de “Nosso Século XX I”. Quando digo que não temos número suficiente o que quero dizer é que além de faltarem quantitativamente cabeças pensantes, as que existem, em larga escala, não colocarão no papel textos que reproduzam a realidade regional. As forças de pressão comandadas por bandidos sociais de várias atividades econômicas e políticas estarão prontas para reagir e retaliar. Não apenas isso. Politiza-se de tal maneira o mundo regional atual que sobrarão vieses manipuladores dos fatos, das verdades, em nome de determinadas cores. Roberto Campos já dizia que a ideologia congela a inteligência. Conheço exemplares demais que comprovam a clarividência de uma das cabeças mais iluminadas na história do País, mas nem por isso santo. 

Nova versão temerária 

Diria sem medo de errar que uma terceira versão de Nosso Século XXI carregaria uma bomba explosiva que destruiria a fortaleza de credibilidade das duas edições anteriores, preparadas num mundo em que as comunicações ainda não estavam contaminadas por falsidades estimuladas pelas redes sociais, esse campo de vale-tudo.  

Pensaria mil vezes antes de cogitar a volta ao passado. A marca “Nosso Século XXI” é preciosa demais como conteúdo histórico para ser colocada numa mesa de jogatina ideológica. Ou alguém tem dúvidas de que essa imagem, a imagem de jogatina ideológica, traduz o que vivemos nestes tempos? 

Nesse período de 16 anos entre o lançamento da primeira versão de “Nosso Século XXI” com dois mil convidados na noite de autógrafos coletivos no Clube Atlético Aramaçan, a Província dos Sete Anões ultrapassou todos os limites de decadência. 

Perdemos riquezas em forma de recuo da mobilidade social acumulada durante meio século, ou seja, desde a chegada da indústria automotiva. Também se evadiram cérebros rumo ao Interior mais rico ou à própria Capital e vizinhas do outro lado das fronteiras metropolitanas, entre outros vetores. E a degringolada seguirá adiante. 

Não temos massa crítica (muito pelo contrário) para enfrentar a borrasca da competitividade que nos golpeia há muito tempo. Vivemos principalmente de agentes públicos fanfarrões, oportunistas, aproveitadores, que usam e abusam de velhacarias administrativas em forma de suposta inovação ou plano de governo.  

Bruxos regionais 

Os exemplares de “Nosso Século XXI” certamente serão tratados num futuro ainda distante como espécie de bruxaria de um grupo de pessoas que tiveram a coragem de colocar o dedo nas feridas da região. Sim, em larga escala, os autores produziram materiais críticos, realistas, inquietantemente provocativos. 

Leitores de LivreMercado, publicação que criei em 1990, formávamos todos uma espécie de clube involuntário de inconformistas. Como assim? A maioria mal se conhecia pessoalmente, mal mantinha relações profissionais e mesmo institucionais, mas sentia na pele, no coração e na alma que havia muita coisa fora do lugar na região. 

Eles viviam a região em larga escala sem amarras profissionais a bloquear o senso crítico. Hoje temos nichos potenciais de competência analítica que, na maioria dos casos, sente-se constantemente vigiados pelos bandidos sociais e seus capachos, prontos para degolá-los se captarem gestos de rebeldia. 

Vivemos numa Província horrorosa que, à falta de oportunidades de ascensão social, optou pela sujeição aos vagabundos que no passado tinham influência rarefeita. Agora eles são asfixiantes. Região sem cidadania é região sem futuro. 



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