Sociedade

Todos têm culpa
no cartório

DANIEL LIMA - 05/03/1998

Ninguém escapa. E quem tentar se fazer de dissimulado não passa de otário metido a besta. Alguns têm menos culpa no cartório que outros, o que serve apenas de atenuante, não de atestado de inocência. Houve quem fez muito por determinados setores ou corporações, mas pouco se preocuparam com o todo. Tomaram a parte pelo conjunto. Viram o Grande ABC pelo buraco da fechadura. Outros pouco fizeram e muito atrapalharam. Também há muita gente que assistiu passivamente a tudo o que ocorreu ao longo do tempo, as coisas boas e as coisas ruins. Como quem estivesse tranquilamente numa praia de bem nutridos biquininhos num primeiro tempo de sol a pino e permanecesse alheio a tudo diante da mudança de tempo num segundo tempo de vendaval devastador.


É claro que estamos falando do processo de crescimento e de arrefecimento econômico do Grande ABC. Há quem possa dizer que exumar o passado não leva a nada, como se a história fosse tão imprestável quanto aquele papel que se atira na latrina. Como se o que escreveu nos tempos de jovem Milton Friedmann, o apóstolo do livre-mercado, não tivesse qualquer relação com o Milton Friedmann octogenário. É preciso, sim, revolver o passado do Grande ABC para evitar novos exageros, omissões e descalabros. Como também é decisivo prospectar o futuro para encontrar alternativas viáveis.


O Fórum da Cidadania, o Consórcio Intermunicipal e a Câmara Regional, só para citar os três mais importantes instrumentos institucionais da região, estão a pleno vapor, com acertos e falhas naturais de processo que se inicia. O grau de eficiência que cada um obterá, de modo a que as interfaces potencializem mutuamente a todos, alcançará maior margem de rentabilidade à medida que não sejam perpetuados vícios ainda arraigados e que os cercam e os atingem em graus variados.


Ações profiláticas dependem, entretanto, em grande escala, de alguns componentes que não são exatamente fartos nos relacionamentos interpessoais, base dessas transformações. Casos de transparência, sinceridade, disposição efetiva para o diálogo honesto e determinação inclusive para embates verbais produtivos, os quais não podem ser confundidos com rebeldia, fracionamento, diversionismo ou retaliação.


A intolerância ao contraditório maduro forma parceria perfeita com o comodismo irresponsável. Nesse ponto, a consensualidade do Fórum da Cidadania é paradoxalmente exemplar, porque estimula o debate, o entrechoque de idéias e de propostas. O affair Judiciário é prova disso. O consenso acomodatício ridicularizaria a instituição.


Quando do lançamento do Fórum, há quase quatro anos, as baterias todas se voltaram contra a classe política regional. Tanto a que estava no poder quanto os administradores públicos que a antecederam por décadas a fio. O tiro do Fórum da Cidadania foi certeiro, porque não há como desvincular administradores e legisladores públicos da quase que absoluta falta de planejamento municipal e regional que acometeu o Grande ABC desde que as montadoras de veículos vieram para cá e alteraram completamente nossa face social e econômica.


Formulada uma hierarquia de responsabilidades, os políticos saltariam como líderes absolutos, sem dúvida.


O erro do Fórum da Cidadania, naquela ocasião, e isso ficou registrado nesta publicação, foi centrar fogo exclusivamente nos políticos, como se o restante dos atores sociais, econômicos, culturais e sindicais não tivesse nada a ver com o peixe. Os políticos, em última análise resultado do conjunto da sociedade, não são os tinicos que merecem o paredão de críticas. Ninguém escapa da artilharia. Sindicalistas, trabalhadores, ecologistas, preservacionistas, dirigentes de entidades empresariais, acadêmicos, jornalistas, mídias, entidades sociais e representativas de classes, empresários, executivos empresariais, todos que tiveram alguma influência direta ou indireta nas instituições, empresas, entidades, enfim, nas organizações do Grande ABC dos últimos 40 anos, ou que simplesmente se omitiram durante esse período, deveriam ser indiciados como inadimplentes junto ao Serviço de Proteção da Cidadania. Foram cleptomaníacos, com a mania de roubar o futuro. É claro que está incluída também a comunidade acadêmica insensivelmente enclausurada em suas próprias limitações curriculares e pedagógicas, a cultivar a teoria e a subestimar a prática.


Por que levantar essa bola furada justamente agora, perguntaria o leitor mais impaciente? Simplesmente porque só assim é possível mexer com brios que ainda estão congelados pelo desinteresse coletivo ou permeados de interesses individuais e corporativos.


É claro que não estamos generalizando. Há exemplos vivos, vivíssimos, de lideranças importantes que estão contribuindo para dar novo formato institucional ao Grande ABC. Mas ainda é pouco. Precisamos estar sintonizados com a velocidade das transformações motivadas pela mundialização dos negócios e das finanças para evitar a padronização da cultura, nosso maior patrimônio — o diferencial entre produzir algo personalizado ou aceitar a linha de produção dos costumes, levando ao paroxismo o conceito de Aldeia Global de Marshall McLuhan.


O Grande ABC passa por momentos delicados de transformações que necessitam de ações mais vigorosas, efetivas e relativamente rápidas. Seus problemas — como bem disse para este colunista e a Célio Franco e Irineu Masiero, editores-executivos do Diário do Grande ABC, o consultor espanhol Andres Rodriguez-Pose, trazido pelo prefeito Celso Daniel no mês passado — são menores e menos complexos do que o feixe de oportunidade que se lhes apresenta. Exatamente por isso mesmo exigem redobrada atenção, planejamento, desprendimento, porque os tempos são outros, de competitividade inter-regional, com guerras e guerrilhas fiscais, disputas por escassos recursos de um Estado mambembe. O que nos veio de mão beijada — a indústria automobilística e suas fornecedoras diretas e indiretas — hoje se transformou em concorrência acirrada, muitas vezes burra, geralmente escarniçada. Já acusamos muitas baixas sem nos dar conta. Boa carga de responsabilidade disso é da maldita mania de grandeza e de ignorância, alimentada muitas vezes por bobagens como a de se deixar levar por fanfarrões estatísticos dissiminadores de dados furados que transformam em mito a mais dura realidade: a evasão industrial não é uma miragem. Infelizmente.


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