Sociedade

Nada de remix
entre dia e noite

VERA GUAZZELLI - 05/03/2003

Se alguém perguntar a Regis Amedi o motivo pelo qual ainda não se tornou DJ profissional, principalmente numa época em que a profissão está no auge, vai obter resposta pouco convincente. “Eu sou publicitário” — explica o homem que na última década assinou eventos de casas noturnas que marcam época nas noites do Grande ABC e da Capital paulista. A explicação, que mais parece slogan para fortalecer a imagem do produto, ajuda a extrair um pouco da essência de alguém que experimentou vários caminhos até encontrar o rumo profissional. Aos 31 anos, Regis Amedi até poderia ser enquadrado num desses casos clássicos retratados pelo dualismo shakespeariano. Mas está absolutamente tranquilo diante do drama secular do ser ou não ser: enquanto for possível, vai ser publicitário de dia e DJ à noite. Quando for preciso optar, escolherá a publicidade. 

Régis Amedi coloca o trabalho de DJ na condição de hobby. No entanto, seria bem mais apropriado definir a discotecagem como segunda atividade. Principalmente se os subsídios forem extraídos do portfólio que exibe infinidade de trabalhos nos quais ele aparece como a principal atração da noite. Ou se tomarem como base suas apresentações no Hotel Cambridge, em São Paulo, todas as sextas-feiras. Munido de CDs, vinis e pick-ups (aparelhagem eletrônica), o publicitário convence no papel de um profissional que saiu do circuito underground para brilhar na cena noturna do Brasil e do mundo. Os DJs estão na onda e enlouquecem a galera dentro e fora das casas noturnas. 

“Tenho muito mais gosto musical do que técnica” — insiste Regis ao se referir a duas características fundamentais na formação dos DJs. A afirmação certamente conflita com a opinião do vocalista Mick, do grupo Simply Red. O astro da banda internacional está entre alguns expoentes da música que já engrossaram a platéia eclética de Regis Amedi e aprovaram a performance. Especializado em black music, o publicitário-DJ andreense eletriza notívagos ao tocar versões remixadas de James Brow ou de Claudio Zóli, como o blues Noites do Prazer. 

Regis reina nas noites de sexta do Hotel Cambridge. Assim como outros 500 companheiros de pick-ups que se estima atuarem em todo o País, ele aproveita o auge das baladas. Até outro dia o DJ era considerado mero tocador — ou seria trocador — de disco e o próprio Regis faz a analogia: “Hoje o DJ está para a casa noturna assim como o chef para o restaurante” — compara. O primeiro tem a mão talhada para o tempero, o outro faz o som ganhar personalidade própria ao adicionar batidas frenéticas na música que ganha ritmo de pista de dança. “Se ninguém pede para você acrescentar essa ou aquela canção, é porque acertou em cheio” — ensina.

A sensibilidade para escolher repertório adequado a cada público é característica fundamental para quem deseja aventurar-se pelos pick-ups. A profissão exige técnica e conhecimento musical aguçados e há até escolas para ensinar os segredos dos scratchs — movimentos que os DJs fazem com as mãos sobre os discos para criar as batidas que se encaixam nos compassos das melodias. Os mais radicais só utilizam vinil, mas o auxílio dos CDs já é bastante comum. Regis Amedi nunca sai de casa para uma apresentação sem ter colocado no mínimo 100 exemplares na bagagem. 

Familiarizado com vida noturna há mais de uma década, Regis não curtiu os tempos em que Moraes Sarmento e Chacrinha consagraram-se como disc-jockeys, aqueles mix de locutor e tocador de discos dos programas de rádios de antigamente. Mas já teve tempo suficiente para assistir a consagração de nomes como Mau Mau, Patife e Marky, três DJs brasileiros que ganharam fama internacional como comandantes de baladas. Marky foi escolhido o melhor do mundo pela revista especializada inglesa Knowledge em 2000 e recentemente recepcionou o badalado DJ francês Scan X na Lov.e, danceteria paulistana onde é um dos residentes — termo utilizado para designar profissionais que são fixos na casa. Obviamente, Regis Amedi está fora desse pelotão de elite, gente que chega a ganhar até R$ 4 mil por uma única apresentação. 

O Noites Paulistanas que ele comanda no Cambridge faz parte de projeto de revitalização que transformou o bar do hotel, localizado no Centro Velho de São Paulo, em espaço dançante. “Estou realizando o sonho de tocar para um público eclético” — comemora. Regis divide o Noites Paulistanas com o DJ Rafael, outro andreense como ele. Regis toca black music e faz a trilha de transição para que o amigo entre com drum’n’bass. A modalidade faz parte das várias vertentes de som eletrônico que mantém em total ebulição os eternos embalos de sábado à noite, devidamente extrapolados para as quintas, sextas e até domingos.

O drum’n’bass acelera ritmos como a bossa-nova de 50 para 180 batidas por minuto e torna a música totalmente dançável. A black music apresenta até 100 batidas por minuto. Há ainda o techno puro das repetitivas tucs, tucs, tucs; o trance, que incorpora efeitos especiais psicodélicos; e o house, que mantém geralmente o vocal. Amantes da bossa-nova, do rock and roll e saudosistas que frequentaram pistas de dança e discotecas sob o som de KC and Sunshine Band, Donna Summer, Bee Gees e Jonh Travolta terão dificuldades para distinguir as modalidades atuais, mas se surpreenderão ao ouvir velhas canções sob roupagem eletrônico-cosmopolita. A cantora Fernanda Porto estourou nas paradas com a remixagem de Só Tinha de Ser Com Você, de Toquinho, e acaba de lançar Sampa, de Caetano Veloso, também em versão eletrônica.


Experiências profissionais — Regis Amedi é DJ desde 1996, época em que seu currículo já registrava bastante intimidade com as casas noturnas e pouca habilidade para decidir-se profissionalmente. O encontro vocacional custou-lhe tropeços como trocar o curso de Engenharia na Universidade Federal de São Carlos pelas aulas de Comércio Exterior na Universidade Metodista em São Bernardo. Concluiu o curso, mas manteve-se como produtor de eventos até chegar à Publicidade. Twist’s, Ocean Drive, Villa Jardim, Vero Verde, Dona Carlota, Napoleão e Vera Cruz estão entre as casas do Grande ABC nas quais trabalhou. Em São Paulo passou pela Nepal, Columbia e Allure, abriu show de Ed Motta e tocou para o elenco da Rede Globo na festa de lançamento da novela As Filhas da Mãe. 

Quem conhece a biografia noturna de Regis Amedi não imagina que seus olhos brilham quando fala da nova conta que está quase conquistando ou do slogan em construção para mais uma campanha publicitária. Tudo o que se refere à atividade notívaga é feito fora do expediente normal da KAD, agência de publicidade de Santo André onde trabalha há três anos como executivo de contas. Até a entrevista para falar sobre as atividades de DJ foi marcada às 19h. Depois do trabalho, lógico. 

Como todo publicitário, Regis Amedi exibe traços de personalidade forte. Solteiro, é careca assumido há quase uma década, muito antes de Ronaldinho e outros craques do futebol popularizarem o visual. Como a maioria dos mortais, sonha em ter um filho. Como apaixonado por música, é capaz de passar o dia todo garimpando raridades em lojas especializadas e pagar até R$ 350 por um CD. Firmou intercâmbio com a rádio francesa Latina FM, por meio do qual recebe lançamentos internacionais antes que cheguem às lojas brasileiras. Recentemente recebeu dois convites: um para tocar na Semana de Moda, evento de novos estilistas que antecede o São Paulo Fashion Week, e outro para se apresentar em Paris. Declinou dos dois por causa do trabalho. Diante da recusa, poderia até se cogitar que a proposta financeira era pouco compensadora, que a publicidade representa o porto seguro da sobrevivência e que a onda dos DJs vai passar. Regis garante que não se trata de dinheiro. É convicção mesmo. “Não esqueça que me encontrei como publicitário” — reafirma.


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