Imprensa

Entenda por que o Datafolha
é uma usina de fake news (7)

DANIEL LIMA - 09/06/2020

Neste que é o penúltimo capítulo desta série especial que desmarcara a metodologia e a aplicabilidade de pesquisas do Instituto Datafolha há duas questões encaminhadas aos eleitores nas sondagens de 25 e 26 de maio que escancaram o direcionamento senão intencional ao menos negligente à reprovação do governo de Jair Bolsonaro.

Nas perguntas anteriores já abordadas houve preocupação do Instituto Datafolha em dar roupagem supostamente límpida às abordagens. Entretanto, nessas duas, publicadas na edição de 30 de maio do jornal Folha de S. Paulo, e multiplicada pela mídia brasileira, o acinte de parcialidade dispensou máscaras de suposto equilíbrio. Entenda-se parcialidade como quiserem. Dolosa ou descuidada, pouco resolve. Apenas explicita.

As duas questões relacionam-se com a proximidade política do governo Jair Bolsonaro com o chamado Centrão, bloco de congressistas que se move entre a direita e a esquerda e atua como fiel da balança em decisões importantes. Inclusive em situação de conflito institucional que sugira a possibilidade de o presidente da República sofrer impeachment.

Foi assim com Collor de Mello e com Dilma Rousseff. Quem não tem o Centrão como suporte a situações de gravidade geralmente se dá muito mal. Há historicamente uma conotação mais que justa, porque repleta de malfeitos, que instalam a expressão “Centrão” no centro do palco da maledicência popular.

Enunciados direcionados

Isto posto, porque verdadeiro, eis que chegamos ao ponto em que se colhe o Datafolha no contrapé da malvadeza de sondagens.

Reparem no enunciado da primeira pergunta a que me refiro neste novo capítulo. Sempre lembrando que o longo questionário foi aplicado pelo Datafolha com o uso de telefone celular, por causa da pandemia do vírus chinês. Atentem, portanto, para o enunciado viciadíssimo: 

 Bolsonaro está cumprindo a promessa de não negociar cargos e verbas em troca de apoio?

Antes da exumação da sentença de morte levada aos entrevistados, vamos reproduzir os resultados colhidos pelo Datafolha. Menos de um terço do eleitorado de Jair Bolsonaro (33% de ótimo/bom quando se tratou de aprovação) respondeu afirmativamente ao questionamento sobre a parceria com o Centrão. Precisamente 29%. Dois terços (64%) dos eleitores ouvidos disseram “não” à estratégia do presidente da República. Muito mais que os 50% que reprovam o governo federal. Outros 8% não souberam responder.

Primeiro questionamento

Agora vamos mostrar por que o enunciado é um caminho obscuro à legitimidade técnica do Datafolha. O conjunto da obra (ou seja, o enunciado em si) é uma falácia de neutralidade ao envolver três pecados capitais que o integram e o torna coercitivo, ou seja, praticamente encaminha a resposta desfavorável ao presidente da República. Quais são esses três pontos que atingem em cheio a subjacência negativista?

Primeiro: “cumprindo a promessa”.

Segundo: “de não negociar cargos e verbas”

Terceiro: “em troca de apoio?”.

Por mais que a fragmentação do enunciado revele a facciosidade do questionamento, não custa dissecar os três compartimentos viciados que compõem a integralidade da sentença de morte ao presidente da República.

“Cumprindo a promessa” automatiza o direcionamento obrigatório a uma determinada resolução e carrega forte tom moralista.

“De não negociar cargos e verbas” é também uma expressão popular que, quando contraposta a “cumprindo a promessa”, conduz o entrevistado a um senso crítico elevadíssimo, de decepção compulsória. Negociar é um verbete que induz a interpretação de desconfiança quando associado à atividade pública, mais que em qualquer outra área humana. É impossível resistir à leitura depreciativa.

“Em troca de apoio” é o corolário do enunciado pecaminoso quando se trata de entrevistar alguém sobre determinado desempenho porque explicita método de troca de favores abominável por excelência.

Segundo questionamento

Se alguém ainda tem dúvida sobre o desequilíbrio contido no enunciado exposto, então acompanhe a segunda questão de desfaçatez técnica que, diante de mentes atentas, descarrilha o trem da credibilidade do Datafolha:

 Bolsonaro age bem ou age mal ao negociar cargos e verbas com deputados e senadores?

A frase-pergunta pode ser dividida em duas partes para sacramentar a indução desequilibrante do questionamento do Datafolha.

Primeiro: “Bolsonaro age bem ou age mal” por si só é um estágio de enunciado provocador de dúvida sobre a decisão do presidente da República apresentada aos entrevistados e que consta do final da sentença.

Segundo: “ao negociar cargos e verbas com os deputados e senadores” também é um corredor da morte a qualquer tentativa de estabelecer liberdade de posicionamento dos entrevistados. Negociar, como já disse, é um termo pecaminoso quando associado à política e sobretudo a instituições do Legislativo, uma das peças da engenharia política mais agudamente reprovadas pelo eleitorado brasileiro.

Subjetividade dispensada

As duas questões que apresentamos são provas vivas de que nem mesmo a subjetividade foi trabalhada para disfarçar distorções em outros pontos da pesquisa do Datafolha.

Há um strip-tease deliberado de más intenções. Provoca-se acintosamente uma situação gêmea de maus-tratos à ciência estatística. Deteriora-se escandalosamente qualquer pressuposto ético. Rouba-se claramente o resultado do jogo.

O arbitramento não se deu ao luxo de marcar duas penalidades máximas. Os dois lances foram flagrantemente fraudulentos. A arbitragem de campo, detentora de responsabilidade social, fez vistas grossas.  E o VAR simplesmente se omitiu.

Também no caso dessas mesmas duas questões, registraram-se novas fraudes acessórias, que consistem em dar amplitude estatística a questionamentos desdobrados das perguntas-chave.

Vou explicar mais uma vez. Na questão relativa ao que a Folha de S. Paulo identificou com troca-troca com o Centrão (no que está corretamente crítico), publicou-se que 32% dos entrevistados com Ensino Médio, 41% entre empresários e 49% entre quem votou em Bolsonaro no segundo turno de 2018 concordaram com o enunciado. Em contraposição, 68% entre quem tem de 16 a 24 anos, 68% entre quem ganha de cinco a 10 salários mínimos e 77% entre funcionários públicos discordaram.

Fantasias estatísticas

Todos esses números são fantasias. Pela simples razão de que a margem de dois pontos percentuais, centro do trabalho com valor estatístico, foi para o ralo da especificação.

Para que os dois pontos percentuais de margem de erro mantivessem valor, todos os estratos dos entrevistados mencionados como acessórios (empresários, quem votou em Bolsonaro no segundo turno, detentores de Ensino Médio, Jovens de 16 a 24 anos, quem ganha de cinco a 10 salários mínimos e funcionários públicos) teriam de contar, individualmente, com carga gigantesca de questionários. Precisamente 2.069 para cada enunciado.

A mesma deficiência metodológica, recorrentemente utilizada pelo Datafolha e por outros institutos de pesquisa, foi identificada na segunda questão deste capítulo, agora referente à negociação de cargos e verbas com deputados e senadores.

A Folha de S. Paulo publica na mesma edição de 30 de maio série de especificidades com as respectivas aprovações e reprovações. Tanto por faixa etária quanto por escolaridade e atividade profissional. Não há de novo sustentação quantitativa de formulários aplicados que respalde o desfilar de resultados representativos do território nacional. Tampouco dos Estados e do Distrito Federal individualmente.

Vídeo mal-avaliado

Também nesse espectro de questionamentos enviesados, a Folha de S. Paulo publicou na edição de 28 de maio uma das questões da pesquisa de 25 e 26 do mesmo mês. O assunto foi o vídeo do barulho da reunião ministerial de 22 de abril. O título “Maioria que viu vídeo crê que Bolsonaro quis mudar a PF” também é inconsistente, porque decorre da ruptura da margem de erro de dois pontos percentuais, base de cálculos e de sanidade metodológica.

Apontou o Datafolha na página da Folha de S. Paulo que 61% dos entrevistados que viram o vídeo declararam que Jair Bolsonaro quis usar seu cargo para interferir na Polícia Federal, enquanto 32% observaram que Bolsonaro quis apenas melhorar a sua segurança pessoal. Os demais entrevistados apresentaram outras respostas ou não souberam responder.

Afinal, onde está o furo interpretativo e estatístico da Folha e do Datafolha? O texto do jornal paulistano entrega a rapadura. Veja um trecho da reportagem:

 Tiveram acesso ao vídeo 55% dos brasileiros, segundo o Instituto. A disparidade de opiniões por regiões segue o padrão de divisão quando o tema é Bolsonaro: Sul e Norte/Centro-Oeste tendem a defendê-lo, enquanto a desconfiança é maior no Nordeste.

Revelando a pegadinha

Onde está a pegadinha estatística que derruba a matéria da Folha de S. Paulo e torna o resultado dessa questão fora de cogitação técnica? Ora, se 55% dos brasileiros entrevistados não viram o vídeo, e, portanto, não responderam à questão, a margem de erro de dois pontos percentuais foi para a cucuia.

Afinal, se foram disponibilizados à aplicação junto aos entrevistados 2.069 questionários para que se obtivesse a sustentação da margem de erro de dois pontos percentuais, a ausência de 55% desse contingente inviabiliza qualquer avaliação. O que seria pesquisa virou enquete.

Basta fazer as contas. Retire do universo de 2.069 questionários 55% não respondentes. A margem de erro de dois pontos percentuais se eleva à estratosfera. E a pesquisa perde valor científico.

Decididamente, o Datafolha rasga todos os manuais de desempenho que um instituto de pesquisas deveria preservar. Mas como exigir tanto se a empresa sob o controle da Folha de S. Paulo forma o batalhão da caça ao presidente da República?

A série termina amanhã com o tema “Editorialização seletiva”.



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