Fiquei até agora entre a cruz de reproduzir linearmente o passado que virou presente tão dolorosamente sofrível ou entremear esse mesmo passado tendo como contraponto a realidade atual.
Sei que embaralhei o jogo, mas o fiz de propósito. Queria saber até que ponto o leitor iria, mas vou simplificar.
Esta oitava parte da Carta Aberta ao Dono do Diário do Grande ABC trata de temática tendo como pano de fundo o que preparei em 2004 em forma de Planejamento Editorial Estratégico e o que temos hoje em forma de realidade da linha editorial do Diário do Grande ABC.
Tratei naquele documento de 2004 (entregue aos diretores, acionistas e jornalistas do Diário do Grande) o significado de o jornal atuar nas fronteiras geográficas da região em forma de regionalidade, mas também invadindo a área contigua, da Região Metropolitana de São Paulo.
Ou seja: o que desenhei deveria ser a linha editorial do Diário do Grande ABC entregue à direção do jornal no primeiro trimestre de 2004. Entretanto, surge a pergunta: o que se deu ao longo de duas décadas e o que resta fazer agora que a vaca da regionalidade e a boiada da metropolização foram para o brejo da inaplicabilidade editorial?
Isto posto e decomposto, vou obedecer à seguinte trajetória: reproduzirei todo o capítulo relativo do Planejamento Editorial Estratégico (o único concebido, divulgado e aplicado parcialmente na história do jornal mais tradicional da região) e farei breves intervenções com contrapontos que procurarão explorar a realidade no decorrer do período e o estágio em que se encontram na atualidade os pontos aos quais faço referências.
Vamos então, intercaladamente, com o documento de 2004 e os respectivos contrapontos, identificados por intertítulos.
DOCUMENTO DE 2004
É preciso compreender o sentido de regionalidade que aplicaremos na linha editorial do jornal para que não se caia na armadilha do reducionismo simplificador. Regionalidade não tem nada a ver com provincianismo. Não faremos do jornal uma repetição diária dos veículos semanários que vivem e sobrevivem de releases dos governos municipais e de empresas privadas que contam com assessoria de imprensa. O conceito de regionalismo contemporâneo prende-se ao desafio de vasculhar cada centímetro quadrado do território dos sete municípios do Grande ABC sem perder de vista o encaixe metropolitano.
REALIDADE ATUAL
O Diário do Grande ABC perdeu o fio do novelo de regionalidade porque sofreu duros desfalques na Redação. Sem o elemento-chave de qualquer veículo de comunicação (os recursos humanos em forma de jornalistas) não há salvação. Ainda não inventaram no mundo das comunicações nada que substituía a inteligência humana em forma de equipe preparada.
DOCUMENTO DE 2004
Também não poderemos desprezar aspectos nacionais e internacionais. Traduzindo a equação: nosso regionalismo jamais se desgrudaria do ambiente metropolitano e muito menos dos sacolejos globalizantes, mas não cometeria a insanidade de, literalmente, tentar agarrar o mundo, enquanto a essencialidade de sua própria gênese territorial escapa entre os dedos da dispersão. Teremos, em função das circunstâncias econômicas e financeiras, de promover uma espécie de escolha de Sofia; ou seja, definir um padrão de cobertura predominantemente regional mesmo que isso custe redução do espaço nacional e internacional. Precisamos ganhar o jogo em nosso quintal de forma massacrante, da mesma forma que perdemos quando partimos para a luta em campo adversário. Queira-se ou não, jogar o jogo do noticiário nacional e internacional com os grandes conglomerados de comunicação é uma batalha inglória. O que não significa que devemos abandonar o barco. É evidente que não, até porque a medida contraria o conceito de regionalidade contemporânea. O que temos de executar — e esse é um caso de decantação — é a busca de novas vertentes de cobertura nacional e internacional que fujam da dependência do noticiário das agências. Apresentaremos um projeto específico sobre isso, mas não numa primeira etapa.
REALIDADE ATUAL
O noticiário nacional é escasso nas páginas do Diário do Grande ABC e o noticiário internacional só dá sinais de vida e mesmo assim em forma de fiapos informativos quando ocorre alguma grande notícia. Nada, entretanto, que coloque o leitor minimamente situado. Intermitência escassa de conteúdo é desperdício de espaço utilizado.
DOCUMENTO DE 2004
O grande mote que pretendemos apresentar é a captura de um regionalismo moderno, instigante e evolucionista. Algo jamais mostrado na história dos jornais metropolitanos presos a pautas federalizadas com soluços, apenas soluços, locais. Faremos um Diário do Grande ABC Metropolitano, ou seja, estaremos conectados permanentemente a tudo que nos rodeia, sobremodo nos campos que mais de perto atingem nossos leitores. Não podemos minimizar o fato de que estamos incrustados numa região metropolitana de 39 municípios e 18 milhões de habitantes, que representam quase metade do PIB estadual e cerca de 20% do PIB nacional. Nosso território preferencial é o Grande ABC. Nosso território complementar é a Grande São Paulo. Somos — a Grande São Paulo — um Estado de Minas Gerais em população e muito mais em economia. Somos quase o dobro dos 420 municípios do Rio Grande do Sul. A Grande São Paulo é um País tratado sem zelo pelos meios de comunicação. O Grande ABC está no interior desse gigantesco painel humano e precisa ser devassado para ser entendido. Tudo o que estiver ocorrendo na Região Metropolitana de São Paulo deverá nos interessar detidamente. Nossos indicadores sociais e econômicos não podem se circunscrever à geografia do Grande ABC. Temos de correlacioná-los, sempre que possível, com os espaços que nos rodeiam.
REALIDADE ATUAL
Diferentemente desta revista digital, que jamais abriu mão do entorno da região, ou seja, dos municípios metropolitanos, indo além até, com estudos que abrangem o que chamamos de G-22, o Clube dos Maiores Municípios do Estado de São Paulo, o Diário do Grande ABC jamais abordou questões metropolitanas como fonte de informações diferenciadas. Os acidentes de percurso são a comprovação tácita da ausência de política editorial que associe regionalidade e metropolização.
DOCUMENTO DE 2004
A influência do Rodoanel Oeste, que contemplou a chamada Grande Osasco, nos abalou fortemente como espaço socioeconômico, conforme mostramos em matéria baseada em dados estatísticos do Instituto de Estudos Metropolitanos. Não podemos ficar desatentos a isso. As autoridades públicas, privadas e sociais precisam reagir ao quadro. Não devemos cair na tentação de nos lambuzarmos com estatísticas domésticas, puramente regionais, quando o mundo que nos envolve proximamente ou não, reage de forma mais incisiva.
REALIDADE ATUAL
O Diário do Grande ABC jamais produziu uma matéria sequer, uma matéria sequer, é bom que se repita, que apresentasse os resultados econômicos produzidos pelo trecho sul do Rodoanel, algo que CapitalSocial, desde a antecessora LivreMercado, cansou e não cansa de mostrar. Os resultados foram catastróficos para a região. Perdemos para a Região Oeste (Osasco, Barueri e outas cinco cidades) a liderança (excluída a cidade de São Paulo) do PIB da Região Metropolitana.
DOCUMENTO DE 2004
Um exemplo do que parece melhorar, mas que não passa de ilusão estatística, está no ranking de criminalidade do Instituto de Estudos Metropolitanos. Apresentamos queda nos registros de homicídios dolosos e também em roubos e furtos de veículos, mas aumentamos os casos de roubos e furtos diversos. Na classificação final, que abarca os três quesitos, perdemos posições e seguimos entre os piores municípios economicamente mais importantes do Estado. Até mesmo São Caetano caiu pelas tabelas. Como se explica isso? Simples: os investimentos e as ações de combate à criminalidade no Grande ABC não fluíram à altura da maioria dos demais municípios. Ou seja: em termos comparativos, estamos piores do que antes, mesmo que os números absolutos de um ou outro indicador apresentem avanços. Quem sabe e explora a importância da qualidade de vida para atrair e manter investimentos entende o significado dessa equação. Confrontam-se centenas de municípios nos mais diversos quesitos. O capital, como se sabe, não tem fronteiras. E a flacidez do tecido social do Grande ABC converteu-se em adversário à atração de empresas.
REALIDADE ATUAL
De vez em quando o Diário do Grande ABC faz uma abordagem menos superficial (de estatísticas) sobre o estado criminal da região. Mas são textos simples, na maioria dos casos oficialescos, ouvindo fontes políticas, policiais e do Judiciário, ou seja, sem critérios definidos de densidade editorial. O Diário do Grande ABC (esse será um dos motes de um dos capítulos que virão) não tem personalidade editorial.
DOCUMENTO DE 2004
Portanto, regionalidade não pode ser confundida com encarceramento territorial. Devemos estar ligadíssimos aos eventos que nos rodeiam, à medida que se operam em áreas mais próximas ou não. Como se explica que Guarulhos está anunciando 13 novas indústrias que no ano passado se beneficiaram de um regime fiscal que abate os custos do IPTU e mesmo do ISS de construção, enquanto nós, depois de quatro anos da instauração de guerra fiscal semelhante no Grande ABC, só enlaçamos uma única indústria, em Ribeirão Pires? São muitas as explicações, justificativas e desculpas. Tratamos desse assunto na revista, mas quando abordamos num jornal, cuja capacidade de mobilização é a marca registrada dos veículos diários, a probabilidade de mudanças e reações será maior. A tabelinha entre sensibilização de revista e mobilidade de jornal adquire contorno especialíssimo de otimismo sustentado. Atirar sob o tapete o debate em torno de questões como essa — a competitividade regional — é acreditar em Papai Noel.
REALIDADE ATUAL
O Diário do Grande ABC tem histórica dificuldade em entender que jornalismo e regionalismo são irmãos siameses que valem para todos os aspectos, sejam positivos, sejam negativos. Não dá para escolher pautas e descartar aqueles que supostamente sugeririam que a linha editorial da publicação estaria em xeque. O Diário do Grande ABC detesta fatos que contradizem a linha editorial vinculada a determinadas administrações municipais. O caso desta semana, que coloca Santo André como campeão estadual de roubos e furtos de veículos, é apenas um exemplo. O passivo editorial vem de longe.
DOCUMENTO DE 2004
Somos cidadãos metropolitanos em intensidade quase semelhante à de cidadãos do Grande ABC. As fronteiras locais são mais tênues que as demarcações metropolitanas. A migração diária de trabalhadores que se deslocam internamente entre os sete municípios é mais intensa que a observada em relação a movimentações em direção a outros territórios da metrópole, mas tem-se acentuado o universo de traslados menos convencionais. Isso eleva a responsabilidade editorial de transmitir informações mais elásticas sem perder as raízes regionais. É preciso situar o morador do Grande ABC no contexto metropolitano. Explicar-lhe, por exemplo, a vantagem de uma mega obras viária anunciada por São Bernardo. Ou a construção da Avenida Jacu-Pêssego. O que tanto uma quanto outra vão representar de alternativas de locomoção e também de geração de riquezas. Há quase duas décadas atravessa parte de nossas fronteiras municipais uma escandalosa serpentina metropolitana, na forma do extenso trecho do sistema de trólebus, que começa na zona leste da Capital, cruza Santo André, São Bernardo e Diadema e desemboca na Capital. Um arco de integração, cujos reflexos sociais e econômicos jamais foram estudados. Quanto das demandas por educação e saúde públicas dos municípios atendidos pelo sistema de trólebus não teria sido adicionado pelas facilidades de transporte?
REALIDADE ATUAL
Calcula-se com certa defasagem que ao menos 30% da População Economicamente Ativa da região trabalha na vizinha Capital. Quando se coloca essa situação na mesa justamente com outra estatística, de que internamente, entre os municípios locais, há contingentes semelhantes de trabalhadores que atuam em endereços diversos do domicílio, compreende-se a magnitude do quanto os critérios de regionalidade deveriam ser prioridade do jornal e das autoridades públicas. Entretanto, tudo isso e muito mais não são levados em conta. O municipalismo impera.
DOCUMENTO DE 2004
O que se pretende dizer é que o conceito de regionalidade é tão amplo, contundente e compulsório quanto escamoteador. Exige cuidados especiais para que não seja subvertido. O entendimento será proporcionalmente maior na medida em que se sufocar o simplismo decorrente da falta de informações sistêmicas. Um veículo de comunicação que pretende se posicionar em defesa do território em que atua — e se entenda posicionar em defesa como expressão que não comporta deformações interpretativas voltadas unilateralmente ao cor-de-rosa desavergonhado — deve saber distinguir o momento certo em que uma manchete ou uma foto de primeira página de um treinamento ou de um jogo do Santo André é mais importante que, em situação semelhante, o seria o noticiário envolvendo um dos grandes clubes da Capital. Ou mesmo que uma decisão de um campeonato varzeano com alguns milhares de expectadores tem maior peso que uma decisão da Copa Europeia. O conceito de regionalidade não pode perder de vista uma lógica operacional muitas vezes esquecida e que precisa ser reiterada para que determine o fim de ilusões e desperdícios: temos de extrair de nossos profissionais de comunicação o máximo de informação do território sobre o qual se debruçam cotidianamente.
REALIDADE ATUAL
A escassez de espaço físico do jornal de papel, além da infraestrutura de profissionais da área, coloca as premissas do Planejamento Editorial Estratégico a nocaute. Tudo isso sem contar alterações tecnológicas que fizeram da Internet e de aplicativos imensidão de ofertas aos consumidores de informações. Nada do qual o Diário do Grande ABC tenha usufruído, como analisamos no capítulo anterior.
DOCUMENTO DE 2004
Pretender competir com os grandes jornais da Capital no noticiário nacional e internacional sem contar com a equivalência de recursos humanos e materiais disponíveis é dar um tiro no pé. Afinal, deixamos de explorar as peculiaridades de nosso território, onde vivem nossos leitores e assinantes ávidos por informações regionais qualificadas, e nos perdemos no tiroteio de uma competição desigual. O investimento de uma pequena ou média metalúrgica de Diadema é muito mais importante que a notícia de novas tragédias na Palestina. A notícia internacional será publicada, evidentemente, mas não pode ganhar em importância para os fatos mais relevantes de nossa geografia. Sempre perderemos a batalha do noticiário nacional e internacional, porque as agências contratadas nos sonegam o filé mignon. Sempre ganharemos a batalha do noticiário regional, porque teremos nossos profissionais cuidando do que interessa de fato ao nosso dia-a-dia. Não podemos mais ver nossos patrimônios pessoais morrerem — como têm morrido porque ainda não inventaram a fórmula da eternidade física — e simplesmente os ignorarmos por falta de conhecimento regional. Em contrapartida, ativos pessoais nacionais e internacionais acabam por ocupar o derramamento de nossos espaços editoriais. Entregamo-nos a uma globalização de mão única — onde o que vale é a globalização excludente do regionalismo contemporâneo. Os personagens que ajudam a construir de fato a história econômica, social, cultural e política do Grande ABC precisam ser valorizados em suas variadas dimensões. Reconhecer-lhes os méritos tem o significado de erguer espelhos que poderão se multiplicar em defesa da regionalidade.
REALIDADE ATUAL
Tudo isso perdeu o sentido lógico na medida em que o jornal se fragilizou demais no período que separa a proposta que apresentei e comecei a executar com uma equipe então relativamente suficiente em quantidade e qualidade e os dias de hoje. Houve queda brutal de qualidade e quantidade informativas. O que se configurava como o desabrochar de desafios compatíveis com a estrutura de então, mesmo com severas dificuldades, virou uma montanha de impraticabilidades.
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20/02/2026 BARCAÇA DA CATEQUESE E O GATABORRALHEIRISMO (21)